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insensatez

(falta de) Realismo de Mãe.

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Na maternidade, há muita coisa que me perturba. E (juro), na maior parte das vezes, nem são os filhos (se era nisso que estavam a pensar)!

 

Na verdade, agora que penso nisso, nem é na maternidade em si. É na forma como algumas mães se comportam.

 

Não vou entrar em grandes detalhes – se quiserem muito, mesmo muito, uma análise esmiuçada dos comportamentos desviantes de algumas mães, é só pedirem – vou-me, simplesmente, focar na falta de noção de algumas mães.

 

A verdade é que há filhos que, para as (suas) mães, representam a personificação de Deus na terra. Sim, de Deus. Ele é, então, o filho, claro está, nas palavras da própria, simplesmente PER-FEI-TO.

 

Juro que tenho dificuldade em compreender a falta de realismo de algumas mães.

 

Gosto de pessoas diretas e que, sem deslumbramentos, dizem de forma franca: este meu filho é tudo para mim mas, vamos ser sinceras, não tem jeitinho nenhum para desenhar.

 

Não se enganem: aceitem que o vosso filho não tem jeito para desenhar! Ganhamos todos: até nós, amigos queridos, que não temos que nos conter perante um desenho ridículo (vamos combinar: traços aleatórios, às cores, numa folha branca, não conta como desenho, ok?).

 

É bonito quando, na beleza que consiste ter um filho, se tem o discernimento para entender que o amor não é cego. Não é cego e o realismo de mãe é algo que – lamentavelmente - não se ensina nos cursos de preparação para o parto (digo eu, que nunca frequentei nenhum!), mas que devia ser um módulo obrigatório!

 

#prayforrealismodemãe

Cheiros.

Lembro-me de ver a minha avó fumar e não é assim uma imagem tão vaga, esbatida pelo passar dos anos, como possam pensar.

Recordo-a muitas vezes, encostada ao sofá que cortava a sala, com o cigarro a queimar na borda do cinzeiro. Na verdade, lembro-me mais de ver a minha avó a acender cigarros do que a fumá-los. O cheiro do cigarro a tombar, a cinza a descair, o fio do fumo a circundar o ar.

É difícil explicar aos outros, aos que não conheceram a minha avó, a razão pela qual gosto tanto do cheiro do tabaco.

É difícil explicar a força que os cheiros têm na nossa recordação. Mas têm. Têm sempre.

Os nossos heróis.

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Comportamo-nos como aqueles pais que maldizem os filhos que se portam e respondem mal.

 

Estamos sempre a refilar porque somos preguiçosos e desenrascados, encostamo-nos à sorte e esperamos pelo "tudo se faz". É sempre assim.

 

Não gostamos da nossa forma fácil e leviana de viver, com álcool e mulheres, como disse o outro, mas não conseguimos viver de outra forma.

 

Dizemos mal deste nosso estilo de vida mas não admitimos que nos apontem o dedo. 

 

Somos assim: maldizentes mas orgulhosos.

 

Numa fase inicial, quando o Salvador se apresentou, poucos foram aqueles que conseguiram ouvir a beleza da música “Amar pelos dois”. Ou, porque tinha tiques de aleijadinho, como li algures, ou, porque a música, lisa e crua, não era música para o festival da Eurovisão.

 

O casaco, a barba e o cabelo, os olhos esbugalhados e as mãos enroladas não ajudavam à festa - as críticas foram mais do que os aplausos, “lá vamos nós fazer mais uma figura triste”, ouvia-se.

 

O que é certo é que o Salvador foi passando e que a legião de fãs foi aumentando. Os tiques passaram a ser secundários, a música foi entrando no ouvido e já não podíamos ouvir dizer mal o nosso menino. A música escolhida, de uma beleza e suavidade ímpar, começou a fazer parte. A fazer parte de nós.

 

No passado fim-de-semana, lá rumamos ao aeroporto, numa procissão de fazer doer a alma de amor. Esperamos pelo nosso herói, como já esperamos por tantos outros, pois, na verdade, são sempre heróis, todos aqueles que nos representam e que levantam de novo aquele esplendor único que é o de Portugal.

 

São sempre heróis, todos aqueles que esbanjam a palavra em português, que espalham o calor da nossa língua que, claro, é única como qualquer outra, mas que, para nós, portugueses, embeiçados pelo que temos, tem aquele enrolar bom, que a torna ainda mais especial. 

 

São sempre heróis, todos aqueles que quentes, íntegros e certeiros, tal como a música do Salvador, choram e vibram e que, longe dos fogos de artifício desta vida, não manipulam nem ofuscam, com luzes fortes, quem os está a ver.

 

Bonitos, reais e concretos – sem sermos lamechas. Esta música somos nós. Precisamos de mais Salvadores, de mais Luísas e de mais amores. Precisamos de mais Éders, de mais futebol e de mais vitórias. Estamos no bom caminho – isto sabe tão bem!

Estamos a vincar a nossa identidade sem entrar no caminho que todos seguem.

 

No final, lá mesmo no final, muito provavelmente vamos concluir que, sem sombra de dúvida, chegamos para amar por todos. 

 

E isso é tudo.

A televisão e o Maluco Beleza.

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A forma como olhamos, hoje, para televisão e para os seus conteúdos, nada tem a ver com a forma como os meus avós, por exemplo, olhavam.

 

Em casa da minha avó, a hora do telejornal era sagrada, bem como a hora da telenovela. Uns aos outros, os programas sucediam-se e a vida quase que girava em torno daquela caixinha mágica. Poucos canais existiam, na altura. Porém, eram mais do que suficientes para o mundo que se pretendia ser.

 

A televisão evoluiu. Nós também. E a nossa relação, por acréscimo, alterou-se.

 

Hoje em dia, com a possibilidade de “puxar para trás”, toda uma nova realidade se abriu. Já não há aquele sentimento: às 20h00 vai acontecer não-sei-o-quê e, religiosamente, parávamos todos à frente da TV para ver. Não! Hoje vemos quando queremos: aparece no feed do Facebook, abrimos o Youtube, revemos as vezes que forem precisas. Não é mau. É só diferente. Estamos mais independentes.

 

O Youtube, aquela rede social que não dá jeito nenhum porque não dá para ver nem na escola nem no trabalho porque tem som, começou a ganhar força, muita força mesmo, especialmente, nas camadas jovens.

 

E, com isto, surgiram novos projectos. Com uma atitude diferenciadora, em formatos inovadores, com gente interessante, a construírem conversas despretensiosas e agradáveis. Tudo à distância de um ecrã e da nossa vontade de carregar no play: agora apetece-me, agora não me apetece. O Maluco Beleza, do Rui Unas, é um caso desses. Estes novos formatos surgem agora longe da televisão: são projectos que já não precisam de serem aceites para existirem! Só precisam da vontade de quem os faz.

 

E eu ponho-me a pensar: se calhar, financiar um projecto destes, que ouço, que vejo e que gosto, que me faz parar durante algumas horas da minha vida para conhecer o lado B de pessoas que considero interessantes, faz mais sentido do que pagar a televisão que não vejo.

 

É um canal aberto? É! Qualquer pessoa o pode ver? Sim! Sem qualquer custo? Sim! Então, porquê pagar?, perguntam vocês. Porque, se pagamos os meios de comunicação tradicionais, com o mesmo propósito, porque não o fazer também num canal que gostamos e que também tem contas para pagar para poder existir?

Uma Disneyland chamada Lisboa.

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Não sou nada aquele género de pessoa que está sempre a maldizer a quantidade de turistas que a sua cidade tem.

Em parte, não o faço porque reconheço a sua importância na nossa economia mas também (e, talvez, principalmente) porque tenho um certo orgulho da minha cidade estar a ser eleita como o destino de férias de alguém. Afinal de contas, com tantas cidades no mundo, foram logo escolher a minha!

Tem que haver justiça: o turismo melhorou Lisboa - tornou-a (ainda) mais luminosa, as suas ruas foram tratadas, os prédios vestiram-se com as suas melhores roupas e o rio, bom, o rio, que andou envergonhado durante anos, ganhou o papel que merecia: finalmente, a cidade deixou de estar centrada no seu próprio umbigo e abriu-se para o seu enorme Tejo.

 

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Porém, como “não há bela sem senão”, nos miradouros mais badalados da cidade já pouco se ouve falar português, em algumas ruas desta Lisboa, que até há bem pouco tempo se mantinha sóbria e envergonhada, passam agora grupos intermináveis de miúdas, todas vestidas de igual, alegres e escaldadas, a entoar cânticos divertidos, em alguns restaurantes, a primeira ementa surge já em inglês e os pratos tendem a levar aquele twist de understandings e sardines. O trânsito está caótico, os tuk tuks aumentam a olhos vistos e deu-se a multiplicação dos elétricos (dos 28 e dos outros). Sobe-se a Graça e é só escolher: montinhos de ingleses, chineses e franceses - ordenados em grupos, acompanhados por guias, a vibrarem com os elétricos e com os locais, enquanto alçam a máquina fotografia para pararem no tempo o bom tempo que se vive nesta cidade. É difícil deslocarmo-nos de carro nas zonas mais turísticas: a prioridade e o carinho estão agora voltados para os veículos turísticos. Na verdade, sinto-me a mais nesta cidade que é minha!

 

Tenho orgulho, claro que sim. Mas tenho também muitas saudades de ter Lisboa só para mim, de poder namora-la em paz, de poder passear tranquilamente, de poder vivê-la de forma recatada e tranquila.

 

No final do dia, entre a saudade e o orgulho, acabo sempre por ficar feliz. A minha cidade, Lisboa, é agora adorada por todos – na verdade, agora que penso nisso, não era justo guardá-la só para mim.

 

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