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(in)sensatez

26
Set17

O apartheid de saias.

CD

Estas eleições legislativas têm sido ricas em episódios humorísticos: têm sido muitos, suculentos e brotam de todos os lados. Não fosse a vergonha alheia que representam e até admitia que estão a servir para animar uma já-não-tão-silly-season.

 

O último que me recordo aconteceu há uns dias quando, Joana Amaral Dias, candidata pela Nós, Cidadãos! à Câmara Municipal de Lisboa, propôs a existência de um espaço segregado, para as mulheres, nos autocarros, para as defender do assédio (aparentemente) constante a que são sujeitas nos transportes públicos.

 

Pode ser de mim, mas acho que esta sugestão tem assim uns laivos de apartheid, uma segregação que, embora não racial, se faz de forma sexual. E é sempre perigoso quando sugerem a segregação para combater algo que deve ser combatido com educação e instrução.

 

Esta proposta significa, exactamente, o aposto do caminho que queremos percorrer. É o contrário do objectivo, pelo qual milhares de mulheres lutam (e lutaram), em prol da igualdade de oportunidades e direitos. Qual o propósito? Retroceder? É esta a igualdade que querem construir?

 

Aponto o caminho a percorrer, o único capaz de combater as desigualdades e de proteger as pessoas: deixem-se de misturar temas e apostem na educação cívica, gastem dinheiro, dinheiro a sério, em formação, percam tempo com as pessoas, ouçam-nas e dêem-lhes educação.

 

Para terminar, apenas referir que o bom é que, no meio disto tudo, acabei por descobri que os autocarros, hoje em dia, são centros de verdadeira ramboia.

 

É que, a ser verdade, ao invés de gastar fortunas no Main ou no Bosq todos os fins-de-semana, conheço muito boa gente que vai investir fortemente no passe L1 da Carris (e não estou a falar de mim, hã?): sempre sai mais barato e dá para usar o mês inteiro.

25
Set17

Há profissões e profissões, diziam eles.

CD

Profissões.jpg

Ao longo da nossa vida (feliz por constatar que esta tendência não está a evoluir) fomos ouvindo que Arquitectura, Engenharia, Medicina e Advocacia é que eram profissões que “sim, senhora”.

 

A minha geração cresceu, a título de exemplo, a não considerar Cozinheiro ou Fotógrafo como uma opção, na altura de escolher um curso. Até porque, verdade seja dita, onde é que Cozinheiro ou Fotógrafo se enquadrava nos quatro agrupamento que tínhamos à escolha?

 

O mesmo acontecia com alguém que quisesse ser pintor: o mais certo era ser recambiado para Arquitectura, por “influência” dos pais, pois sempre era mais sexy dizer que o filho tinha um curso superior do que dizer que passava os dias, fechado numa sala, a lançar óleo para uma tela em branco.

 

Claro que o tempo veio confirmar que há oportunidades em todas as áreas e a prova disso é que hoje temos Cozinheiros com excelentes restaurantes, com reconhecimento à escala planetária, com inúmeros negócios que surgiram devido a um conjunto de factores chave (sendo que, o início da era Lisboa-Cidade-Cosmopolita, onde tudo surge e tudo nasce cheio de glamour, foi, claramente, um deles).

 

Difícil, ou mais complicado, é arranjar lugares para os arquitectos que as faculdades cospem todos os anos e que, nos dias de hoje, têm que tirar cursos complementares para conseguirem fazer algo minimamente na área (por exemplo, avaliação de imóveis, certificação energética, entre outros).

 

Não sabendo como me vou comportar na altura da escolha de um curso por um futuro rebento meu, quando o medo, de um potencial desemprego, nos tolda o raciocínio, consigo dizer que, possivelmente, o conselho que darei é que deve seguir as suas valências inatas, aquelas que surgem, cravadas na nossa pele, como um sinal de nascença. Este parece-me sempre um belo princípio.

 

[Claro que se as mesmas não forem visíveis... (isso fica para outro texto)]

 

Este texto surgiu no seguimento de um outro que li há uns dias (podem ler aqui), onde a autora do mesmo falava nas profissões que nascem e das profissões que morrem, sem nós darmos por isso.

 

Há, de facto, algo que nunca analisamos, na altura da escolha de um curso, que é a evolução da sociedade. Cingimo-nos a um horizonte temporal estipulado por nós e que, normalmente, é de curto prazo – é o horizonte temporal que nos permite dizer, na altura em que finalizamos uma licenciatura: esse curso tem saída.

 

Num contexto de constante mudança, como é este o mundo onde vivemos, é difícil mas temos que nos esforçar para analisar as opções a longo prazo sendo que, a primeira premissa, no mercado de trabalho de hoje é: não há longo prazo nas profissões, no mundo como ele está agora.

 

Estranho, não é?

 

Ora, neste texto que vos falei há pouco, a Filipa dá alguns exemplos de profissões que surgiram com o passar dos anos, tais como, especialista em marketing digital, operador de drone ou blogger. É incrível pensar que, há meia de anos, ninguém sabia o que estas profissões significavam e que seriam, possível, as "profissões do futuro".

 

Hoje pergunto-vos apenas:

 

Se tivessem dito, quando tinham 18 anos, que queriam ser youtubers, algo que ainda nem sequer existia na altura, qual teria sido a reação dos vossos encarregados de educação?

 

O mundo gira e gira e gira, sempre a grande velocidade: é bom que nos habituemos a isso.

25
Set17

Páginas Partilhadas - Arriscar.

CD

Lembram-se de eu vos ter falado sobre o projeto da Filipa chamado Páginas Partilhadas?

 

O primeiro tema lançado foi a palavra Arriscar. O meu texto saiu hoje. 

 

"Sendo uma pessoa que aprecia segurança, a palavra “arriscar” existe, em mim, sempre bem protegida. Costumo almofada-la com certezas, enquadra-la com alguma solidez e revesti-la sempre com garantias."

 

Podem ler o texto completo aqui.

25
Set17

Todas as noites.

CD

O abrir de uma garrafa tem um barulho próprio, nós sabemos bem qual ele é: começa com a ponta afiada do abre-garrafas a rasgar o involucro que sustém a rolha e termina com a sensação de deleite num copo vazio.

 

O medo de abrir a garrafa, nela, aumentava, noite após noite, sempre mais um bocadinho.

 

Quando a casa se vestia de luto, quando os miúdos adormeciam embalados numa tranquilidade que não existia, ela escorregava da cama já quente, percorria descalça o corredor estreito e repetia, sempre acompanhada pela escuridão da cozinha lavada, a dor do vício a esvaziar outra garrafa.

 

Regressava depois, aconchegada e quente, à cama vazia e pedia sempre: um bocadinho mais de esperança para a noite do dia seguinte.

24
Set17

Dizem os outros.

CD

"Pessoas que passam a vida a dizer que lêem imenso, que liam Sartre e Tolstoi no jardim de infância, enquanto os outros cantavam o fungagá da bicharada, que têm um vício, uma compulsão, que só param quando começam a chorar da vista, que têm sonhos húmidos com livreiros e que snifam linhas de mofo para fugirem da aridez de um mundo sem literatura, façam-me um favor: não digam que último livro que leram foi “top”. Epá, por amor da santa: não."

 

Da Cristina Nobre Soares, retirado do seu blog em Linha Recta

22
Set17

Saudações ao Líder Brunete de Carvalho.

CD

Este dia tinha que chegar. Não esperava – sou sincera – que fosse tão cedo. Ora, como sabem, eu sou do Benfica e, como qualquer benfiquista, aceita mas não tolera adversários diretos, especialmente se eles existirem a um raio de dois quilómetros.

 

Bom, mas isto para dizer que Bruno de Carvalho (Brunete, para os amigos) sempre foi motivo de risada quando a minha malta se junta em tertúlias intelectuais, com o objectivo de debater problemáticas profundas como, por exemplo, se o Samaris é giro, se o Eliseu meteu silicone no rabo (se dão a entender que o da Rita Pereira tem, não entendo porque é que não questionam o rabiosque do Eliseu) ou porque raio é que o filho do Pizzi é ruivo.

 

E, depois de ver o vídeo do Bruno de Carvalho, a comunicar à família sportinguista que vai ser pai, com um discurso bastante sinistro cujo propósito ou foi enrijar um regime no qual se vê como líder absoluto ou, bom, foi só fazer figura de parvo, concluo que, enquanto esta pessoa ali estiver, vamos ter muitos e bons momentos de entretenimento e, a parte melhor, de forma gratuita.

 

Fico triste porque, apesar de achar que os sportinguistas merecem muito, não mereciam tanto.

 

brunete e cristiano.jpg

 

E não, a fotografia acima não é random, vejam o vídeo abaixo e percebem que faz todo o sentido. Ou não.

 

 

 

22
Set17

As senhoras da Avenida de Roma.

CD

É muito doce, mesmo muito doce, mas também muito honesto: elas caminham, velhinhas e a rua, de mãos dadas, como se uma já não conseguisse viver sem a outra. Não inventam, não se escondem: encaram a realidade crua de uma ainda existir porque, lá está, a outra também existe.

 

Pertencem à Avenida de Roma, não há nada a fazer: são iguais à sua calçada, rijas e pouco lisas, mas, também, iguais às paredes dos prédios envelhecidos mas ainda com muita piada.

 

É impossível dissociar estas ruas, por onde caminhamos, das senhoras envelhecidas que as embelezam: o charme envelhecido desta parte da cidade devido (também) às senhoras que nela habitam.

 

E de mãos dadas, sempre.

21
Set17

Fazer as pazes.

CD

Depois de escrever o texto sobre como encaro o processo de felicidade, lembrei-me que um bom ponto de partida para haver algum debate sobre o tema, seria contar como tento reajustar-me, diariamente, a mim própria.

 

Não percebendo nada de psicologia, sendo esta apenas a percepção de quem gosta de (se) analisar, digo-vos com sinceridade que não ignoro atitudes que me incomodam pois não tenho (e, se calhar, infelizmente) personalidade para isso.

 

Como consigo, então, seguir o meu caminho de felicidade?

 

Tento – assumindo a minha personalidade como sendo a única que tenho e, vamos dar-lhe alguns créditos, que muitas boas coisas me traz –, tento sempre, fazer as pazes comigo e com as situações que me incomodam.

 

Nem sempre é fácil pois é um processo que pode demorar dias, meses e já até chegou a demorar anos mas, olhar as questões de fora, com algum desprendimento, permite dar a clareza necessária para as avaliar sem barulho e, até, aceitá-las como situações inevitáveis.

 

Por vezes, não entendemos atitudes porque acreditamos numa realidade que não corresponde à verdade. Amarramo-nos à nossa ideia de que determinada relação é isto, quando na verdade, nunca passou daquilo.

 

Quando avaliamos corretamente, sempre à distância do acontecimento, e aceitamos o que não existe quando sempre achámos que sim, fazemos as pazes com os temas, fechamos gavetas e conseguimos, com menos peso, avançar.

21
Set17

E foi-se. O Narcos.

CD

Narcos.jpg

 

Das poucas coisas que me preocupam na vida, está, com algum destaque, o final da série Narcos (sim, sou uma pessoa sem preocupações de maior).

 

Vocês sabem, acho que sabem, que eu não sou a maior fã de séries: por um lado, o facto de terem episódios curtos seduz-me; mas, por outro, o facto de demorarem muito tempo exige uma concentração que não estou disposta a ter – especialmente, ao final do dia, altura que reservo para fazer… nada.

 

Mas, bom, ocasionalmente, surge uma série que me agarra. E, o Narcos, foi amor à primeira vista. Literalmente.

 

Basicamente, para quem ainda não sabe a história, conta a história do Pablo Escobar (as duas primeiras temporadas) e do Cartel de Cali (a terceira temporada).

 

No meio disto tudo, há uma pessoa, de seu nome Pedro Pascal (agente Peña), para fazer as delícias do público feminino.

 

Ora, ontem vi o último episódio da terceira temporada, a última disponível, o que significa que terei que ficar mais um ano (será?) à espera que saia novamente.

 

Neste momento, sinto-me completamente abandonada, digo-vos já.

 

Se não viram, vejam. Vale muito, muito, muito a pena. Até para mim, que não adoro séries. Ah! E ouçam a banda sonora. É maravilhosa.

 

Partilhei esta música aqui (que embeleza uma cena mítica) mas há outras, muitas outras, como a que serve de arranque:

 

 

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Biografia

Sou autora do livro infantil “Maria Bolinhos – no Reino da Maravilhosa Doçaria Alentejana” e do blog insensatez.blogs.sapo.pt. Escritora compulsiva: a minha vida é absorver tudo aquilo que vejo e tudo o que ouço. Se estão comigo há um certo risco de se tornarem inspiração da minha próxima personagem :) mas, calma!, não fujam já! Dou Workshops de Escrita Criativa a crianças e a adultos - são boas horas que sempre voam embaladas pelo fluir frenético da escrita. Devoro arte, sou constantemente inspirada por ela, nas suas mais diversas formas: livros, pintura, música, cinema, fotografia. Mas, também, jardins, praias, arestas dos prédios recortados da minha Lisboa: inspiro a luz que escorre pelas suas paredes, expiro um texto completo de incertezas. Não passo sem café, sem livros, sem as minhas viagens mas, especialmente, sem o ar livre da minha cidade, a minha maior inspiração. Tenho 32 anos, vivo em Lisboa com o meu marido e com as minhas palavras preferidas.

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