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(in)sensatez

31
Jan16

Boa noite!

CD

Estou rodeada de chá de limão com mel. De mel escuro, mais líquido do que o normal, e com um ligeiro travo a álcool. É estranho, sim. Mas é a assim que me sabe e, coincidência ou não, só me apetece comê-lo às colheradas. Mas, como sou uma pessoa (minimamente) racional, optei apenas por o entornar na dosagem considerada como aceitável e comê-lo diluído na fluidez da água.

O inverno dá-me para o chá.

Boa noite!

29
Jan16

Há pessoas que vivem amachucadas pelo tempo.

CD

Há pessoas que vivem amachucadas pelo tempo. Endireitam-se como podem mas não conseguem arrumar a solidão que, pesadamente, transportam às costas.

Gosto de analisar quem me rodeia, embora nem sempre o faça – por preguiça mas, essencialmente, porque me encontro, demasiadas vezes, num estado de êxtase só meu, onde vou adormecendo e acordando sem ninguém dar conta.

Mas, como dizia, se o meu estado semi-consciente não fosse tão presente, gostava de investir mais tempo a analisar quem me rodeia porque, de facto, gosto, genuinamente, de o fazer.

E há mesmo pessoas que vivem amachucadas pelo tempo. Em determinados sítios onde vou, nas zonas mais escuras e enrugadas da cidade, vejo-as passar, arrastam o andar à velocidade com que arrastam a voz, pedem o que tem que pedir e retomam às suas casas. Dia após dia.

A solidão destas pessoas, que vivem nas ruas por onde passamos todos os dias, que respiram o mesmo ar que respiramos todos os dias e que, até mesmo, comem e dormem com o mesmo fervor com que nós o fazemos todos os dias, transtorna-me quanto mais atenta me situo, quanto mais dedicação dou às pessoas que vivem (e, na maior parte dos casos, sobrevivem) amachucadas pelo tempo.

27
Jan16

Despeço-me sempre do meu avô com um "até amanhã".

CD

Despeço-me sempre do meu avô com um até amanhã.

 

Pelo seu avançar acelerado na idade (sim, eu sei, à mesma cadência com que eu avanço na minha), sinto os reflexos, as palavras, a articulação do seu ser a esgotarem-se. Ainda mantém a vivacidade, claro que sim: conduz, vai ali e acolá e mantém rotinas que não abdica - em especial, a compra do jornal, que folheia mais do que lê, mas que lhe é, essencialmente, uma companhia. Indispensável.

 

Despeço-me sempre do meu avô com um até amanhã.

 

No outro dia, a meio da preparação de um jantar – não referi ainda mas, uma das qualidades do meu avô, é saber cozinhar maravilhosamente bem – enquanto tentava equilibrar na sua mente onde é que o azeite estava guardado, para salpicar mais um pouco a carne que cozinhava no forno, atirou um:

- Ando a preparar uma coisa para ti… mas não está completo. – E continuou – Faltam algumas folhas, fala com os teus amigos que eles podem ter repetidos.

 

Pensei em cromos, pensei em livros, pensei em muita coisa. Coisas assim, no geral, que os meus amigos comprassem e tivessem adquirido em duplicado.

 

Ele tirou o avental, saiu da cozinha com o seu andar compassado e eu fiquei à espera.

 

Voltou com um monte de “fichas de cozinha”, onde em cada uma delas configurava uma receita. Vim a descobrir depois: foram compradas juntamente com o jornal que ele, religiosamente, segue.

 

Voltou a reforçar:

– Filha, faltam duas ou três receitas, das semanas que estive de férias. Fala com algum amigo. Pode ser que tenham repetido - para que consigas completar a tua colecção. – Amontou-as direitinhas, enquanto voltava a vestir o avental e entregou-mas.

 

Agradeci-lhe. E sorri para não chorar.

 

Despeço-me sempre do meu avô com um até amanha. E, dado que não falamos todos os dias (embora falemos com muita regularidade), o até amanhã afunda-se muitas vezes, invariavelmente, nas profundezas da não concretização.

 

Não sei se já disse, mas o meu avô adora cozinhar, adora um bom assado, uma boa carne e de passear o jornal, enquanto adormece sobre as suas páginas abertas. Não sei se já disse mas a minha colecção, cuidadosamente feita pelo meu avô para mim, não está completa.

 

Se alguém a tiver feito, por favor apite, que prometo trocar a volta ao hábito e aplicar um até logo ao invés do já habitual até amanhã.

27
Jan16

Já me emprestam livros!

CD

E eu não me importo!

Longe vai o tempo em que emprestava mas nunca (nunca!) pedia emprestado. Este ano já li um emprestado e já tenho ali outro!

 

P.S. -  Sinceramente, o facto de ter cada vez menos espaço para livros também ajudou nesta nova adaptação :)

 

Boa quarta-feira! :)

26
Jan16

Teatro São Luiz - Estar em Casa

CD

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Biografia

Sou autora do livro infantil “Maria Bolinhos – no Reino da Maravilhosa Doçaria Alentejana” e do blog insensatez.blogs.sapo.pt. Escritora compulsiva: a minha vida é absorver tudo aquilo que vejo e tudo o que ouço. Se estão comigo há um certo risco de se tornarem inspiração da minha próxima personagem :) mas, calma!, não fujam já! Dou Workshops de Escrita Criativa a crianças e a adultos - são boas horas que sempre voam embaladas pelo fluir frenético da escrita. Devoro arte, sou constantemente inspirada por ela, nas suas mais diversas formas: livros, pintura, música, cinema, fotografia. Mas, também, jardins, praias, arestas dos prédios recortados da minha Lisboa: inspiro a luz que escorre pelas suas paredes, expiro um texto completo de incertezas. Não passo sem café, sem livros, sem as minhas viagens mas, especialmente, sem o ar livre da minha cidade, a minha maior inspiração. Tenho 32 anos, vivo em Lisboa com o meu marido e com as minhas palavras preferidas.

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