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(in)sensatez

31
Mar16

Primavera.

CD

Neste início de primavera, como sempre acontece nos inícios, sinto alastrar por este mundo fora uma vaga de esperança.

As pessoas gostam (e pelam-se, vamos lá assumir isto!) por inícios. Porque recomeçar é bom. Porque recomeçar é arrumar assuntos ou, então, organizá-los ou, talvez, assumir e deixá-los em banho-maria.

Recomeçar não é bom: recomeçar é tão bom! Dá-nos a ideia que temos uma cama acabada de fazer, lençóis esticados e puros: tudo branquinho, branquinho. Fornece-nos a ilusão que existe uma folha pronta a ser escrita e uma caneta nova pronta a ser usada. Recomeçar é acreditar que estamos a usar algo pela primeira vez.

Eu não gosto da primavera. Mas não sejam injustos comigo: partilho convosco a alergia dos recomeços. Mas, para mim, viver na primavera equivale a uma longa inspiração sustida até que chegue o verão. As minhas narinas não me deixam viver na primavera. A verdade é esta: a primavera, para mim, é uma constante luta pela sobrevivência. Em que eu nem sempre ganho.

Mas quando a primavera passar, quando der lugar ao verão que tanto quero, que tanto anseio há 7 meses, vou poder enfaixar a alegria do recomeço, aqui sim, vou partilhar da vossa alegria, vou fazer alarido, vou enfiar na minha vida motes de felicidade. Chegar ao verão também é considerado um recomeço, certo? Aqui sim, vão-me ver a espernear de felicidade porque, recomeço por recomeço, ao menos que o verdadeiro seja feito na praia.

 

Boa quinta-feira de sol! :)

 

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29
Mar16

Ela arrasta-se.

CD

Ela arrasta-se: escada acima, escada abaixo.

Na verdade, com algum detalhe, conclui-se: ela arrasta-se, sim, mas sempre mais ao tempo do que a ela.

Vejo-a sempre cabisbaixa e aterrada, enfiada nela própria, engolida pelo cachecol que enrola ao pescoço.

Já tentei passar indiferente ao sofrimento. Dizer bom dia e seguir viagem. Já tentei ignorar a vida alheia mas, todos os dias, vê-la na amargura do mundo que transporta aos ombros, começou a semear em mim um travo similar.

Sempre que achava que a ia ver, baixava nas minhas costas um impedimento de alegria, sentia-me encolher, ao mesmo compasso com que ela desaparecia.

Um dia, a coragem ganhou ao pudor alheio e, carregada da carteira, casaco e portátil, dirigi-lhe um “bom dia – está tudo bem?” enquanto aligeirava a pergunta preocupada com boa disposição forçada. Toquei-lhe, achei eu, levemente no ombro, mas o reflexo que apanhei do outro lado foi de surpresa e, sim, algum pânico.

Respondeu-me de forma assustada e ainda mais encolhida, que “estava tudo bem, menina – as escadas é que custam a desencardir”. Mas, assim que terminou a frase, senti-a subir, os ombros tornaram-se leves e os nossos sorrisos ficaram na mesma linha. Vi-lhe, então, tatuado no rosto, aquele que eu via pela primeira vez de frente, um sorriso aberto que invadia gradualmente, a cada nova distensão facial, a sua cara sulcada de velhice.

Após esse dia, quando passo por ela, dirijo-lhe o mesmo “bom dia”, seguido do novo “tudo bem?” e, desde esse momento, comecei a receber vivacidade travada no olhar.

Afinal, concluí eu, do que precisamos muitas vezes é tão-somente de um “tudo bem?”, para deixarmos enaltecer em nós alguma alegria e abandonarmos, ainda que por breves instantes, o lado abatido dos nossos afazeres diários, aqueles que executamos, dia após dia.

Sem excepções.

27
Mar16

A rapariga dos collants.

CD

Todos os dias, de manhã, ela varre a minha rua. Não aquele varrer de vassoura e pá, mas aquele varrer de reconhecimento. Analisa cada portada, janela ou pessoa que nela se debruça. Na verdade, não sei se o faz todos os dias ou, tão-pouco, todas as manhãs. Interrogo-me se sou eu que passo demasiado tempo à janela ou se é ela que se passeia sempre que por lá ando. Fá-lo sempre com aquela lentidão característica de quem tem o mundo todo pela frente e nenhuma pressa em vivê-lo; aquele vagar, devagar, roçando a mão pelas sebes, sorrindo, sonhando por algo que não concretiza. Não deve ter mais do que dezasseis anos, os cabelos negros pendem-lhe pelos ombros, formando ondas perfeitas que se movem à sua volta, aquando do deambular da sua cabeça. Raramente cruza olhares com as pessoas com que se intercepta, tenho a certeza que por manter os olhos sempre demasiado baixos.

A primeira vez que a vi foi, efectivamente, difícil não reparar nela: estávamos no pico do verão e ela tinha vestido uns collants riscados, intercalados de rosa e preto. Eu vestia um vestido branco, de linho muito leve, alças grossas traçadas nas costas. Não suava mas sentia aquela humidade pegajosa enrolada em mim.

Dizia eu que todos os dias ela varria a minha rua. Sempre de collants. Alternando a vestimenta com saias curtas ou calções. Mas sempre de collants.

Lembrei-me disto, há uns dias, quando esperava pelo meu pai. Tocava com a janela na minha testa: o frio do vidro arrefecia-me do calor que pairava naquela manhã em Lisboa. Imagino que a lembrança foi fruto da falta de a ver passear-se pelas folhas que já caem na cidade. Chegámos ao outono. Não sei se mudou de rua, de bairro ou de cidade. Não sei se foi por as manhãs quentes estarem a dar lugar, serenamente, a umas mais frias. Não sei se resolveu mudar a rota dos seus passeios. Não sei se, agora que tudo recomeçou, trocou as suas deambulações matinais pelas aulas de Matemática ou de Física. Não sei nada. Mas sei que, certamente, terá substituído os collants por algo mais quente. Afinal, estamos quase no inverno.

 

Primeira versão deste texto escrita em out.2011

 

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25
Mar16

Sobre o cheiro.

CD

Cheiro.jpg

O cheiro. Remete-nos ao passado. É o sentido que melhor processa a lembrança no nosso cérebro e o enche de saudade.

O cheiro. Do perfume. Das madeiras envelhecidas. Do champô colado aos cabelos.

O cheiro mistura-me de recordações.

O cheiro. Baralha os pensamentos.

O cheiro. De um cigarro largado num cinzeiro. Dos lençóis lavados. Dos quadros, das paredes.

O cheiro.

Liga-nos às raízes.

 

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24
Mar16

Wellness.

CD

Sinto-me encurralada. Quem partilha da mesma dor? Se quiser pertencer ao mundo in tenho que me integrar no mundo dos crossfits, wellness e dos shape up (estas palavras existem todas?). Tenho que deixar o leite de vaca e dedicar-me ao leite de soja, ao leite de arroz, ao leite de amêndoa. Só uma pergunta: agora tudo dá leite?

Vivo angustiada, a sério… cada vez que vasculho o pinterest e o instagram sou bombardeada por fotos de tostas com pêra abacate e ovo. E, o pior, é que já iam. Como entrada.

Acho tudo de bom nesta febre de wellness, mal não faz quando damos luz à boa forma física, porque, toda a gente sabe, em corpo são, mente sã.

Eu é que não estava preparada. Podiam-me ter avisado, ajudava no preparo: o caminho teria sido trabalhado de outra forma, com mais calma e menos corridas porque correr, bom, só se for a fugir.

Devia investir em alpistas, qual canário, qual quê, trocar o azeite pelo óleo de coco, e o bife do lombo por soja – dizem que faz o mesmo efeito e que também é óptimo.

Sinto-me mal por, nos meus pratos habituais, ainda existir carne e peixe, arroz e massa, alface e tomate. E, muitas vezes, um leite creme queimado na altura.

Fui apanhada na curva e agora, caso não misture açai num batido verde, sou um ovo podre. E já que falamos em ovo, já está na hora de cear: nada como um pão alentejano com manteiga – ou, também aqui, devo mudar?

 

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23
Mar16

Passatempo - Livro - Maria Bolinhos

CD

Chegámos aos 1000 gostos no facebook e eu acho que a coisa merece festejo.
Fico muito feliz pelo facto dos meus textos serem tão bem recebidos e pelas reações serem sempre tão positivas. É mesmo muito, muito, muito bom ver esta página crescer! Obrigada!
Vou oferecer um exemplar do meu livro Maria Bolinhos – no Reino da Maravilhosa Doçaria Alentejana, devidamente autografado e dedicado. Para tal, resolvi fazer um passatempo (vamos chamar-lhe assim para simplificar!) no facebook.

Sigam até lá para participarem -> https://www.facebook.com/catarinaduartewords/

mil.jpg

Obrigada :)

 

22
Mar16

E com paz.

CD

Aquele “E se…” que nos assola quando estamos numa sala de espetáculos, quando estamos no metro, quando estamos num estádio de futebol, quando estamos num aeroporto, quando estamos numa atração turística...


Aquele “E se…” que nos passa pela cabeça, muitas vezes apenas por uma fração de segundos, quando estamos nos nossos locais de lazer, é a prova que o nosso mundo, aquele que amanhecia e anoitecia sem vestígios de horror, está debilitado.

Temos que procurar esperança, encontrar espírito para além destes atos bárbaros e temos que nos esforçar para que este nosso mundo se torne naquilo que outrora foi: um local onde podemos, simplesmente, estar. Sem medos. Sem receios. Sem “ses…”.

E com paz.

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Biografia

Sou autora do livro infantil “Maria Bolinhos – no Reino da Maravilhosa Doçaria Alentejana” e do blog insensatez.blogs.sapo.pt. Escritora compulsiva: a minha vida é absorver tudo aquilo que vejo e tudo o que ouço. Se estão comigo há um certo risco de se tornarem inspiração da minha próxima personagem :) mas, calma!, não fujam já! Dou Workshops de Escrita Criativa a crianças e a adultos - são boas horas que sempre voam embaladas pelo fluir frenético da escrita. Devoro arte, sou constantemente inspirada por ela, nas suas mais diversas formas: livros, pintura, música, cinema, fotografia. Mas, também, jardins, praias, arestas dos prédios recortados da minha Lisboa: inspiro a luz que escorre pelas suas paredes, expiro um texto completo de incertezas. Não passo sem café, sem livros, sem as minhas viagens mas, especialmente, sem o ar livre da minha cidade, a minha maior inspiração. Tenho 32 anos, vivo em Lisboa com o meu marido e com as minhas palavras preferidas.

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