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insensatez

Nesta Lisboa que era minha e que, agora, é nossa.

Nesta Lisboa que era minha e que, agora, é nossa, pairam turistas sarapintados pelo sol, leves, de calções e camisolas de alças e sempre, sempre, de máquina fotográfica a tiracolo.

 

Nesta Lisboa que era minha e que, agora, é nossa, pareço, algumas vezes, uma turista envergonhada, procuro olhar sem ser olhada, ver sem ser vista. Uma estranha na minha cidade, adquirida, ela, por visitantes ocasionais, cabeleiras louras e curiosidade latente nas suas peles claras.

 

Nesta Lisboa que era minha e que, agora, é nossa, passeio, delgada e concentrada, em busca das novidades que os turistas trazem à minha cidade.

 

Nesta Lisboa que era minha e que, agora, é nossa, vejo-lhes o desejo de descobrir e invejo-lhes o desprendimento ao caminhar nos passeios da minha cidade. Estão ligeiros e soltos, olhos esbugalhados e manifestam uma passada, por vezes, hesitante. Trazem um mapa, param, fixam um ponto. Encaminham-se na Baixa geometricamente desenhada, nas ruas geometricamente definidas.

 

Nesta Lisboa que era minha e que, agora, é nossa, à noite, vejo-os arranjados, bem vestidos, as peles já rosadas, ar feliz e tranquilo. Cobiço-lhes os momentos serenos que têm, as férias que merecem, as descobertas a que assistem.

 

Nesta Lisboa que era minha e que, agora, é nossa, dividem os mesmos restaurantes típicos comigo, nesta Lisboa que era minha e que, agora, é nossa, passeiam-se no Bairro Alto, no Cais do Sodré, vivem, esta Lisboa que era minha e que, agora, é nossa, com fervor e vontade, admirados pela vida, pela luz, pelo dia e pela noite que, esta cidade, que era minha e que, agora, é nossa, tem.

 

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As pregas das suas rugas.

As pregas das suas rugas - aceito-as eu e abraço-as. Não as invejo mas, reconheço nelas, anos de traquejo e camadas de vivência.

As pregas das suas rugas são filamentos de existência. São fibra da vida. São os canais do momento.

As pregas das suas rugas - são também minhas, as rugas, aquelas que não tenho. Revejo-as e adquiro-as. Encaro-as como proprietária. Fiel depositária dos sentidos. E assimilo-as.

As pregas das suas rugas - são minhas. Suas e minhas. As pregas das suas rugas.

Divagações de uma quinta-feira.

Quando me demoro algum tempo nas redes sociais e verifico que este mundo (e o outro) está de rabo para o ar por estas praias fora, a comer bolas de Berlim como se não houvesse amanhã, a mergulhar em piscinas azuis e translúcidas, a beber copos a uma segunda-feira, a uma terça-feira, a uma quarta-feira (bom, acho que já entenderam) e eu estou, simplesmente, a trabalhar, eu só penso: estou aqui tão bem debaixo deste ar condicionado que nem me ralo (not!).

 

Boa quinta-feira (no fim-de-semana já me vingo)!

❤︎

O calor pegajoso de uma noite de verão.

O calor cola-se, o sono aperta. Do lado de lá, eu sei, ele faleceu. Tinha alguma idade, é certo, mas mês e meio foi o tempo que durou. Queixo-me do calor, da forma como ele se agrega à minha pele, da forma como ele se insere. Tenho alguma dificuldade em respirar neste ar quente que transborda pela sala fora. Outra tanta (dificuldade) em adormecer. Mas são pequenos, eu sei também, os queixumes do calor, ainda mais míseros são os queixumes por não conseguir adormecer. Do outro lado, do lado de lá, ele morreu. Mês e meio foi o tempo que durou. E uma vida inteira em troca de sentir, pela última vez, o calor pegajoso de uma noite de verão.

 

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