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(in)sensatez

19
Set17

Dizem os outros.

CD

As manhãs são mais perversas do que as noites

 

"Pequeno-almoço no hotel. Mesa redonda para seis pessoas ocupada por três, casal de meia-idade e a filha a caminho do final da adolescência. Cruzo-me com a rapariga que leva um prato com pedacinhos de melancia e abacaxi. Cedo-lhe passagem no corredor apinhado, trocamos um olhar rápido de cortesia. Não é o olhar que um homem e uma mulher trocariam porque ela, não sendo inocente – não há inocentes neste mundo –, ainda não conhece o pecado a ponto de o desejar ou temer. “Um dia também eu irei pecar” (é o que ela diz ou eu oiço), pensamento que lhe acode ao espírito sem pressa nem excessiva convicção, sem entusiasmo nem temor, como quem pensa “um dia estarei aqui como hoje estão os meus pais.” A mãe é alta, bonita, arranjada e com certas marcas do tempo que na mulher madura não são apenas admissíveis mas desejáveis. O marido, esse, grisalho e anafado, parece um urso doméstico ou um corpulento e preguiçoso cão de guarda. Falta-lhe a competição interna no corpo de um filho varão. Sem esse acicate, a sua virilidade foi lentamente suavizada. A filha, esqueci-me de dizer, não é muito bonita e, como não conhece o pecado nem o deseja, ainda não tem vaidade. A vaidade é prerrogativa da mãe que, palpito, continuará a ofuscar a filha durante muitos anos e será uma preciosa fonte de angústia para o futuro genro. Estão os três a olhar para os respectivos telemóveis. É sábado de manhã, o céu está limpo e não há nada que se compare à perversidade latente de uma família normal."

 

Do escritor Bruno Vieira Amaral, retirado do sue blog Circo da Lama

19
Set17

Dedicatória.

CD

No outro dia, na Livraria Almedina, quando comprava o presente de anos da minha prima, lembrei-me que lhe podia escrever uma dedicatória, como muitas vezes faço.

 

Mas deixei passar porque, caso ela já tivesse o livro, não o poderia trocar. Os livros para mim são sempre sinais de amor e, por isso, imaginei…

 

Alguém dar um livro com uma dedicatória escrita numa das suas páginas mais para o final. Quem recebia o livro, não via a dedicatória e, por já ter aquele livro, ia trocá-lo. Mais tarde, alguém compraria esse mesmo livro com essa mesma dedicatória colada às suas folhas.

 

E assim, a dedicatória e o amor, andariam de mão em mão, a passar de pessoa para pessoa, a distribuir o que de melhor temos para oferecer.

 

O livro que lhe ofereci foi este:

 

Indice médio de felicidade.JPG

 

Já leram?

17
Set17

A inspiração e o plágio.

CD

Hoje em dia fala-se muito em inspiração. Na verdade, qualquer processo criativo, desde que existimos, se senta, de forma confortável, na inspiração.

 

Sou mesmo da opinião que qualquer obra que criamos tem por base aquilo que sentimos à nossa volta. Não só surge daquilo por que passamos, das nossas vivências, como também nasce daquilo que vemos, em nosso redor, acontecer: a arte que absorvemos, os livros, as músicas, os filmes, as pinturas a que temos acesso. A inspiração é aquilo que, muitas vezes, nos desbloqueia e que nos dá ânimo para nos desenvolvermos e criarmos algo único.

 

Por alguma razão se diz que um escritor deve ler muito: para aprender, claro que sim, mas também para se inspirar. Os músicos absorvem músicas e histórias e letras e melodias. O Rui Veloso é uma referência e uma inspiração de muitas bandas actuais, por exemplo.

 

Há, no entanto, uma linha que separa a inspiração da cópia.

 

A inspiração é sinal de respeito, é sinal de reconhecimento, é sinal que estamos a construir uma identidade nas artes. A cópia é, exactamente, o oposto: significa desrespeito pelo trabalho alheio, desrespeito por quem passa dias a pensar em determinado propósito. Plágio significa roubo daquilo que de mais puro possuímos: aquilo que nos sai da cabeça, de horas de trabalho, de minutos de dedicação. É pior do que roubar uma carteira, porque nos estão a roubar uma identidade.

 

Dediquei-me a investigar um tema que, não sendo propriamente novo, surgiu agora com bastante força: as músicas do Tony Carreira.

 

Dediquem-se a ouvi-las e, por muito respeito que tenha por tudo aquilo que o Tony Carreira construiu, por tudo aquilo em que se tornou, não consigo perceber como é que alguém desrespeita obra alheia, especialmente, quando é também possuidor de uma.

 

Ouçam e depois digam-me.

 

E mais respeito pelo trabalho alheio, por favor.

14
Set17

Eleições e futebol.

CD

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Hoje acordei (como todos os dias até hoje) e verifiquei que o Governo vai proibir jogos de futebol em dias de eleições (isto foi uma novidade).

 

Eu tenho uma teoria (mais uma): há malta sentada, em confortáveis cadeiras, lá nas Assembleias desta vida que se dedica a pensar em temas. Temas variados. De vez enquanto, manda um tema sem sentido, só porque está calado há muito tempo. Foi o caso deste.

 

Proibir jogos de futebol em dias de eleições tem a mesma linha de raciocínio de proibir uma ida ao cinema, quando se tem que estudar, a maiores de 18 anos. Não faz sentido. Entendam isto: não faz sentido!

 

Tenho (quase) trinta e três anos e nunca – nunca – falhei uma eleição. Nunca. E, sim, vejo futebol. E, sim, vou ao cinema. E passo fins-de-semana fora. E viajo. E tenho vida social. E almoço e lancho e janto.

 

Tenho mil boas razões para ir votar. Quem não vai, só precisa de uma: enquanto houver futebol, tem essa; quando deixar de o ter, arranja outra.

14
Set17

O meu umbigo.

CD

Eu tenho a teoria – vocês já sabem que eu tenho muitas teorias - que grande parte da indignação que se vive nas redes sociais tem a ver com o facto de nós acharmos que o mundo gira à nossa volta.

 

Sabem aquele umbigo redondo e perfeito que ostentamos na nossa barriga, preferencialmente, lisa? Descobri há pouco tempo que, infelizmente, nem tudo gira à volta do meu. Foi chocante mas consegui sobreviver. E, na maior parte das vezes, (agora vem a parte dura de se ler): também não gira à volta do vosso.

 

O mundo não gira à volta de nenhum umbigo: o mundo gira à volta do Sol! Juro que é verdade! Eu lembrava-me vagamente de ter ouvido falar sobre isto nas aulas de Astrologia (aquelas que nunca tive - mas agora não me recordo do nome da disciplina onde se aprendem astros e estrelas) mas tive a certeza, no outro dia, quando olhei para o Sol e lá o vi todo amarelo a afastar-se.

 

Foi chocante e, por ser chocante, digo-vos diretamente para não doer muito: parem de achar que todas as notícias, que todas as polémicas, que todos os assuntos são sobre vocês: controlem lá a indignação.

 

O mundo está, simplesmente, a fazer o percurso de todos os dias, em torno do seu próprio umbigo, que é uma bola grande, amarela e que queima, e que, ate à data, infelizmente, ainda não é o vosso.

14
Set17

Querem snacks saudáveis?

CD

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Já aqui vos falei, num contexto mais pessoal, que há, sensivelmente, um ano alterei a minha postura alimentar.

 

Não foi nada de muito programado. Simplesmente, achei que, mesmo não estando propriamente com peso a mais, me fazia bem rever alguns hábitos alimentares.

 

Nesta linha, mas, especialmente, por não apreciar propriamente modas (e esta moda alimentar tem mesmo muita força), inscrevi-me num curso cujo propósito era dar-me algumas ferramentas – muitas delas teóricas – que me permitissem escolher de forma mais consciente o que deveria comer, tendo sempre presente os impactos de cada nutriente no meu organismo.

 

Não me considero fundamentalista e, sem grande esforço, emagreci bastante, apesar de nunca ter sido esse o meu objectivo principal: acabou por ser uma (agradável) surpresa.

 

Como calculam, quando optamos por nos informar, começamos a estar atentos aos rótulos das embalagens e fiquei mesmo com muita dificuldade em encontrar snacks saudáveis, aqueles que utilizamos para enganar aquela fome poderosa que dá a meio de uma tarde de trabalho.

 

Consciente que, como primeira opção, tenho sempre tudo o que não seja embalado (fruta, frutos secos, legumes, etc), também é certo que facilita muito ter alguns snacks prontos a comer e fáceis de transportar.

 

No decorrer desta minha aventura alimentar, perguntavam-me também como me aguentava a comer apenas brócolos (as pessoas associam tudo o que é saudável a brócolos – a sério). Juro que isto não acontece. Os meus pratos tinham (e têm) tudo o que eu tenho direito. O sabor é fundamental para me sentir feliz.

 

Por essa razão, achei piada a existência de uma caixa – a Vegan Vibe – que nos fornece alguns snacks, saudáveis, saborosos, 100% veganos para o nosso dia-a-dia.

 

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Funciona como uma caixa que, todos os meses, nos fornece produtos de boa qualidade, sempre diferentes de um mês para o outro (que é para a malta não enjoar).

 

Gostei imenso da caixa e recomendo vivamente a quem, como eu, vive à procura de alternativas saudáveis.

 

Quem tem miúdos e não sabe o que lhes dar para além de Bolicaos, nesta caixa de Setembro, por exemplo, vinha um snack para miúdos: saudável e saboroso.

 

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A sério, investiguem: não se vão arrepender!

 

Site aqui

 

 

13
Set17

Sobre a felicidade.

CD

Não encaro a felicidade como um processo que se constrói de forma pesarosa e que chegará, um dia, iluminada por dois raios divinos.

 

É o meu caminho de felicidade que eu construo, é para ele que eu trabalho, e, para tal, assumo coisas simples como, por exemplo, que todas as minhas decisões definem os materiais que o compõem. Como consequência deste meu compromisso, ela, a felicidade, chega todos os dias.

 

Na verdade, para mim, a felicidade não é um destino; mas, sim, a porta de embarque e o voo deste trajecto que desenvolvi para mim.

 

Se serei feliz nas férias paradísicas que me esperam? Sim, claro: sou sempre! Mas, em todos os segundos que compõem cada viagem (a ida para o aeroporto, o check in, o embarque, o voo e, até, o desembarque), não o serei menos.

 

Porque o início, o meio e o fim fazem parte deste meu processo e, se por algum acaso, não aterrar no aeroporto de chegada, quero terminar com a convicção que toda a jornada foi, completa e concretamente, feliz.

11
Set17

A vida no feminino.

CD

É notória a (imensa) discriminação a que as mulheres são sujeitas. Se nos dedicarmos a olhar para altos cargos directivos, então, é contar pelos dedos de uma mão (sim, uma chega) quantas mulheres lá estão penduradas.

 

Há muito trabalho ainda a fazer nesta área, sem dúvida. Não estão em causa as capacidades técnicas ou cognitivas que as mulheres têm. Simplesmente, as oportunidades não são as mesmas por razões que interessa aprofundar.

 

Somos pessoas diferentes (homem e mulher), isso é inegável e, talvez por essa razão, não sou a favor da igualdade de género. Sou a favor, sim, da igualdade de oportunidades e direitos. As mesmas oportunidades, os mesmos direitos, independentemente do sexo mas, também, independentemente da cor da pele ou da cor do cabelo, independentemente do berço onde nascemos. Independentemente de tudo que não sejam as capacidades ou conhecimentos necessários para determinada tarefa, função ou cargo.

 

O mundo está sensível a este ponto, com tudo o que tem de bom (movimentos, textos, debates, opiniões), e com tudo o que tem de (ia dizer “mau”)… menos bom.

 

A parte menos boa destes movimentos de sensibilização é que se perderam noções. Quando há barbeiros que não deixam entrar mulheres, talvez por piada, talvez pelo posicionamento da marca, porque, bom, é um barbeiro (e eu, a bem dizer, nunca tive muita curiosidade em saber o que lá se passa) cai o Carmo e a Trindade. Porque agora somos pessoas sensíveis e tolerantes e isso é o apartheid vestido de calças de ganga (que eu, por acaso, também uso – não é exclusivo do público masculino, ok?).

 

Mas depois, depois, ninguém fala nos milhares de e-mails que recebo sobre coaching no feminino, liderança para mulheres, gestão de tempo para mulheres. Ninguém fala dos baby showers desta vida, autênticos flagelos discriminatórios para o sexo masculino.

 

Se acho que o baby shower faz sentido apenas para mulheres? Bom, eu entendo que o conceito “só meninas” faça sentido para a maioria das pessoas; para mim, que não tenho grande pachorra para jogos cujo objectivo é adivinhar a medida da barriga grávida, preferia que fosse algo mais inclusivo, com maridos e rapazes à mistura. Mas só porque me divirto muito com os meus rapazes. Só por isso!

 

Mas não, e – atenção - o ponto é este, nunca vi nenhum homem indignado por não participar nestes programas (sinceramente, acho que eles até agradecem). Mas, bom, se calhar, só conheço homens estranhos: que se estão a borrifar se são ou não incluídos.

 

Portanto, malta, vamos com calma que nem tudo é discriminação. É só uma questão de propósito, de programa, de sentido.

 

Dediquem-se mais em identificar discriminação a sério, presente na disparidade de salários e na promoção de carreira, por exemplo. Isso é que é uma guerra!

 

Agora, puxarem para debates públicos programas só para homens (quando também os há só para mulheres), a sério, poupem-me a beleza.

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Biografia

Sou autora do livro infantil “Maria Bolinhos – no Reino da Maravilhosa Doçaria Alentejana” e do blog insensatez.blogs.sapo.pt. Escritora compulsiva: a minha vida é absorver tudo aquilo que vejo e tudo o que ouço. Se estão comigo há um certo risco de se tornarem inspiração da minha próxima personagem :) mas, calma!, não fujam já! Dou Workshops de Escrita Criativa a crianças e a adultos - são boas horas que sempre voam embaladas pelo fluir frenético da escrita. Devoro arte, sou constantemente inspirada por ela, nas suas mais diversas formas: livros, pintura, música, cinema, fotografia. Mas, também, jardins, praias, arestas dos prédios recortados da minha Lisboa: inspiro a luz que escorre pelas suas paredes, expiro um texto completo de incertezas. Não passo sem café, sem livros, sem as minhas viagens mas, especialmente, sem o ar livre da minha cidade, a minha maior inspiração. Tenho 32 anos, vivo em Lisboa com o meu marido e com as minhas palavras preferidas.

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