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(in)sensatez

19
Nov17

A nossa história #1 Cromo número 32.

CD

CD Covilhã.JPG

 

A Maria Luísa chamou Maria Luísa à filha por Maria Luísa ser o nome da sua mãe.

 

A Maria Luísa neta não gostava do seu nome por não gostar da Maria Luísa avó.

 

A Maria Luísa avó vestia uma blusa leve, todas as manhãs, quer fossem manhãs de verão, quer fossem manhãs de inverno, quer estivesse calor, quer estivesse frio. As suas mãos eram frias, tais como os seus braços e os seus pés.

 

O pequeno-almoço da Maria Luísa neta era, quase todas as manhãs, tratado pela Maria Luísa filha, com esmero e dedicação.

 

Nas manhãs em que a Maria Luísa avó preparava o pequeno-almoço à Maria Luísa neta, o esmero e dedicação corporizavam-se em rodelas de indiferença, o leite era servido frio, sem chocolate e uma carcaça sem conteúdo.

 

Sem recheio, quer o leite, quer a carcaça, assim se ficava a Maria Luísa neta que comia sempre o pequeno-almoço, quer o mesmo tivesse sido feito pela Maria Luísa avó ou pela Maria Luísa filha, com bastante prazer. O que gostava, a Maria Luísa neta, era de comer.

 

A Maria Luísa neta vestia sempre uma camisola cardada creme e as mesmas calças azuis, com pelo por dentro e, sempre também, ficava com o corpo igual ao da Maria Luísa filha que, sendo sua filha, era igual ao da Maria Luísa avó.

 

Um dia, a Maria Luísa neta pede à Maria Luísa filha, que era sua mãe, o cromo número 32 que era, de resto, o cromo que lhe faltava para terminar a caderneta dos ursinhos parvos carinhosos.

 

O número 32 é um número redondo: o três enrola-se bem enrolado e o dois, apesar de acabar bicudo, começa também envolvido sobre si mesmo. Mas é, acima de tudo, este 32, um número quente e Maria Luísa neta sabia-o bem.

 

A Maria Luísa filha, que era sua mãe, disse-lhe que não podia comprar, indiscriminadamente, carteirinhas de cromos, na esperança que lhe saísse o cromo 32, e inventava, dizendo que leu que o cromo 32 não é, na realidade, um cromo e que a caderneta ficava completa exactamente como estava e que até mais dinheiro valia, daqui a uns anos, as cadernetas cujo cromo 32 lhes faltava.

 

Armou-se um berreiro, na casa da Maria Luísa avó, onde viviam, para além da Maria Luísa avó, a Maria Luísa filha e a Maria Luísa neta, com choradeira a voar e livros também.

 

Os dias passaram-se, a vontade de ter o cromo 32 continuava hirta e a Maria Luísa filha continuava a fazer ouvidos de mocos e a insistir na tese que era mesmo assim, que as cadernetas agora dão-se por terminadas sem o cromo 32.

 

Um certo dia, depois de as mãos frias da Maria Luísa avó terem preparado, o leite frio, sem chocolate e uma carcaça sem conteúdo, para o pequeno-almoço da Maria Luísa neta, saiu de casa, a Maria Luísa avó, como sempre o fazia.

 

Voltou, porém, nesse dia, mais tarde do que o usual: o frio já tinha descido ao nível das casas, o jantar já tinha sido comido pela Maria Luísa filha e pela Maria Luísa neta e ambas já estavam de robe vestido e com dois pares de meias por cima do pijama. Ambas já estavam quase a fechar os olhos, deitadas no pequeno sofá de frente para a televisão, demasiado pequeno para ambas. E ambas, também, acordaram com o baque de uma chave cravada na porta.

 

Era a Maria Luísa avó que, com as suas mãos frias, com os seus braços frios e com os seus pés frios, trazia, entalado entre os dedos polegar e indicador, o cromo 32. O cromo estava hirto como o frio e também hirto como a vontade de Maria Luísa filha o ter.

 

Um saco cheio, estendia-se pelas costas da Maria Luísa avó, onde constavam inúmeras carteirinhas abertas, todas cuidadosamente rasgadas na sua aresta superior e, também, inúmeros cromos com o número 6, 19, 27 ou outro. Nenhum deles era o 32, o número quente e arredondando, para além do cromo que a Maria Luísa avó pendurava nos dedos.

 

A televisão recitava a repetição de um qualquer programa.

 

No dia seguinte, com esmero e dedicação, a Maria Luísa avó preparou, à Maria Luísa neta, um leite frio, sem chocolate e uma carcaça sem conteúdo.

 

E, todos os dias daí para a frente, a Maria Luísa neta preferiu a frieza de um leite, sem chocolate e o abandono de uma carcaça sem conteúdo do que o esmero de um pequeno-almoço dedicado.

 

Todos os dias.

_____________________________________________________________________________________________________

 

A nossa história” são histórias que se mantinham presas, desde há uns tempos para cá, numa gaveta. Chegou a altura de verem a luz do dia. Todos os domingos sai uma nova história que, claro, não sendo sobre vocês, pode mesmo ser a vossa. Espero que gostem!

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Biografia

Sou autora do livro infantil “Maria Bolinhos – no Reino da Maravilhosa Doçaria Alentejana” e do blog insensatez.blogs.sapo.pt. Escritora compulsiva: a minha vida é absorver tudo aquilo que vejo e tudo o que ouço. Se estão comigo há um certo risco de se tornarem inspiração da minha próxima personagem :) mas, calma!, não fujam já! Dou Workshops de Escrita Criativa a crianças e a adultos - são boas horas que sempre voam embaladas pelo fluir frenético da escrita. Devoro arte, sou constantemente inspirada por ela, nas suas mais diversas formas: livros, pintura, música, cinema, fotografia. Mas, também, jardins, praias, arestas dos prédios recortados da minha Lisboa: inspiro a luz que escorre pelas suas paredes, expiro um texto completo de incertezas. Não passo sem café, sem livros, sem as minhas viagens mas, especialmente, sem o ar livre da minha cidade, a minha maior inspiração. Tenho 32 anos, vivo em Lisboa com o meu marido e com as minhas palavras preferidas.

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