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(in)sensatez

28
Fev16

As Lisboas que não são Lisboa.

CD

Escrevi Lisboa mas podia ter escrito Porto, Coimbra, Braga ou outra qualquer cidade, vila ou aldeia. Escrevi Lisboa por ela ser minha. Minha e de todos os meus amigos que a largaram.

Fazem-me falta, todos os dias, as Catarinas, as Anas, as Ritas, os Pedros e tantos outros, que empacotaram as suas roupas, sorriram para os seus passados, meteram-se no avião, cheios de esperança e vontade, e largaram rumo ao incerto. Deixaram para trás os seus pais, os seus irmãos, os seus amigos, as suas casas, as suas ruas, a sua Lisboa.

Voltam quando o rei faz anos, que é como quem diz, no Natal e em Agosto, complicam uma agenda que se quer calma nas férias, na ânsia de chegarem a todo o lado e, duas semanas depois, embalam as saudades anexas à mochila que trouxeram, e regressam. Deixam para trás, outra vez, a sua Lisboa e tudo o que lhes pertence. E repetem este processo ano após ano.

Ir é bom mas não é Lisboa. As ruas não são iguais, a luz não é parecida, a comida não sabe ao mesmo, as pessoas não são idênticas. Até podem açambarcar as novas ruas como deles, imaginar uma luz brilhante que os faça confundir com a da nossa cidade, que os ofusque de tal forma que pensem que criaram Lisboa noutro local, até podem confeccionar a nossa comida com ingredientes similares (mas que, infelizmente, não vêm dos nossos sítios), até podem criar novas amizades e construir uma nova família, até podem criar um lar, com as suas novas coisas, pendurar quadros nas suas novas paredes, coleccionar os seus novos objectos. Podem, inclusive, dispô-los conforme querem, embelezar as molduras com as suas fotografias, e, no limite, até podem por fotografias, nessas mesmas molduras, de Lisboa. Mas… mas não é Lisboa. É uma convicção anulada de querer criar Lisboa onde ela não existe.

Para uns, não é uma opção; para outros, é uma experiência de vida. Para todos (pelo menos, para os meus): ir é bom mas é tão melhor quando o avião atravessa o nosso rio de caudal largo, sobrevoa a nossa cidade sarapintada de luzes amarelas, o comandante dispara um “apertam os cintos: vamos iniciar a descida para Lisboa”, as portas se abrem e as palavras, no nosso português, começam a ser ouvidas.

Muitos buscam Lisboa nestas Lisboas. Numa primeira fase a ilusão existe, estão ofuscados pelas luzes incandescentes dos seus novos lugares, hipnotizados pela superficialidade cravada nos prédios e nos restaurantes das cidades que os acolhem mas, depois, com o passar do tempo, com a saudade a trespassar-lhes o peito, concluem que Lisboa… bom, que Lisboa só há uma, só há esta, a nossa. As outras Lisboas são boas, ninguém diz que não. Mas não são nossas. E, quando concluem isto, as saudades rasgam toda a esperança desse futuro melhor, destroem toda essa vontade de vencer lá fora em pedacinhos, galgam toda a motivação para permanecer num sítio onde não pertencem e só pensam: quero voltar.

 

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Biografia

Sou autora do livro infantil “Maria Bolinhos – no Reino da Maravilhosa Doçaria Alentejana” e do blog insensatez.blogs.sapo.pt. Escritora compulsiva: a minha vida é absorver tudo aquilo que vejo e tudo o que ouço. Se estão comigo há um certo risco de se tornarem inspiração da minha próxima personagem :) mas, calma!, não fujam já! Dou Workshops de Escrita Criativa a crianças e a adultos - são boas horas que sempre voam embaladas pelo fluir frenético da escrita. Devoro arte, sou constantemente inspirada por ela, nas suas mais diversas formas: livros, pintura, música, cinema, fotografia. Mas, também, jardins, praias, arestas dos prédios recortados da minha Lisboa: inspiro a luz que escorre pelas suas paredes, expiro um texto completo de incertezas. Não passo sem café, sem livros, sem as minhas viagens mas, especialmente, sem o ar livre da minha cidade, a minha maior inspiração. Tenho 32 anos, vivo em Lisboa com o meu marido e com as minhas palavras preferidas.

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