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(in)sensatez

10
Jul17

Gostava de saber se, quem fala em evolução, costuma ir ao supermercado comprar fruta.

CD

supermercado.JPG

 

Bom, eu, provavelmente, não sou a melhor pessoa para falar sobre este tema dado que não vou, com muita frequência, ao supermercado.

 

Ocasionalmente, lá acontece e foi o que sucedeu no domingo passado.

 

Como vou tão poucas vezes (talvez por isso mesmo!), acho sempre que quando esse momento acontece, já tudo evoluiu drasticamente: imagino sempre que chegamos àquele ponto em que os produtos voam até ao meu cesto apenas com o som do meu assobio, que as pessoas já não precisam de percorrer quilómetros para ir buscar o leite sendo que ele já aparece no meu cesto apenas por eu pensar nele, que já não existem filas para pagar porque o pagamento é feito no momento em que eu flutuo para a saída, que já não tenho que carregar os sacos até ao carro porque eles aparecem miraculosamente no meu porta-bagagens (nos meus sonhos de evolução tecnológica, não perguntem porquê, as coisas acontecem sempre a flutuar).

 

Enfim, fico sempre francamente chocada (e até desiludida) quando, não só constato que tudo continua na mesma, como verifico que há coisas que até pioraram.

 

Em determinadas superfícies, uma pessoa escolhe a fruta e os legumes à bruta, coloca-os no carrinho e os mesmos são pesados quando chegamos à caixa. O que, não sendo espectacular em termos de evolução tecnológica, já me parece muito bom.

 

Há outras superfícies (em particular, aquela onde fui no passado domingo) em que nós temos que decorar um código de três (repito: TRÊS) dígitos para depois nos dirigirmos a uma balança que por lá anda, perdida no meio dos aipos e dos nabos.

 

Ora, contas rápidas: se eu comprar quinze tipos diferentes de frutas e legumes tenho que decorar 45 algarismos. QUARENTA-E-CINCO algarismos formados de forma completamente aleatória (sem nenhuma lógica do género: um rabanete tem cinco folhas, ok, então o primeiro digito do código rabanete é um cinco - É SÓ UMA IDEIA).

 

Uma alternativa é, claro, ir buscar as laranjas, decorar os três dígitos, fazer uma piscina a correr para a balança (enquanto dizemos baixinho os três algarismos para não nos esquecermos), rezar para que não haja ninguém à nossa frente, digitar rapidamente os três dígitos, meter o saco no carrinho, ir buscar as pêras, decorar os três dígitos, fazer outra piscina até à balança, esperar que não haja ninguém à frente, digitar rapidamente os três dígitos, e por ai fora, quinze vezes. QUINZE VEZES.

 

Outra alternativa, bastante mais eficiente, é fazer os saquinhos com a fruta e os legumes, deixar todos os saquinhos com uma pessoa (um marido, uma filha, etc) que se vai posicionar estrategicamente na balança a digitar os algarismos e outra pessoa andar a correr por entre os corredores em busca dos números correspondentes a cada tipo de produto, enquanto se tenta comunicar com quem ficou na balança, num tom minimamente audível (mas que sai sempre perto do berreiro):

 

- LARANJAS: QUATRO-NOVE-CINCO. (enquanto se faz um quatro, um nove e um cinco com os dedos. – QUATRO-NOVE-CINCO.

 

E o outro, o que está na caixa, diz:

 

- O quê? Não ouço nada!

 

E se responde:

 

- LARANJAS: QUATRO-NOVE-CINCO.

 

E repetir este processo para aí umas quatro vezes até que, quem fica na caixa, lá entende e digita o número para rapidamente concluir que, na balança, tinha colocado pêssegos em vez de laranjas e que se vai ter que repetir todo – TODO - o processo.

 

Se objectivo é desenvolver a memória dos seus clientes o desafio está aceite, caro supermercado.

 

Quanto a mim, espero que, na próxima vez que tenha que ir até a uma superfície do género, alguém já tenha desenvolvido um sistema qualquer para dificultar mais o jogo: é que assim ainda está muito fácil.

 

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Biografia

Sou autora do livro infantil “Maria Bolinhos – no Reino da Maravilhosa Doçaria Alentejana” e do blog insensatez.blogs.sapo.pt. Escritora compulsiva: a minha vida é absorver tudo aquilo que vejo e tudo o que ouço. Se estão comigo há um certo risco de se tornarem inspiração da minha próxima personagem :) mas, calma!, não fujam já! Dou Workshops de Escrita Criativa a crianças e a adultos - são boas horas que sempre voam embaladas pelo fluir frenético da escrita. Devoro arte, sou constantemente inspirada por ela, nas suas mais diversas formas: livros, pintura, música, cinema, fotografia. Mas, também, jardins, praias, arestas dos prédios recortados da minha Lisboa: inspiro a luz que escorre pelas suas paredes, expiro um texto completo de incertezas. Não passo sem café, sem livros, sem as minhas viagens mas, especialmente, sem o ar livre da minha cidade, a minha maior inspiração. Tenho 32 anos, vivo em Lisboa com o meu marido e com as minhas palavras preferidas.

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