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(in)sensatez

01
Dez16

Sobre as pessoas que estão sempre a perder tudo.

CD

pessoas que perdem tudo.jpg

Estou aqui para repor a dignidade de quem está constantemente a perder tudo porque, simplesmente, as pessoas que perdem tudo sofrem, pela vida fora, de pouca compreensão e de muitas injustiças.

 

Em primeiro lugar, há que referir que as pessoas que estão sempre a perder tudo sofrem, verdadeiramente, com isso. Ninguém gosta de viver em constante sobressalto, com minis ataques de pânico, de hora a hora. A vida, destas pessoas, está sempre em constante rebuliço – experimentem viver em rebuliço durante um dia apenas e depois falamos!

 

Devo explicar que quem está, constantemente, a perder tudo, acha que nunca perde nada. Quando ouvimos a célebre frase, normalmente dita sempre pela mesma pessoa (por exemplo, o marido), de forma direta e fria: “nunca sabes onde tens nada”, a reacção automática que surge é sempre “eu só perco coisas quando estou contigo. Normalmente, nunca perco nada!”. A reter: as pessoas que estão sempre a perder tudo vivem em negação.

 

O sofrimento das pessoas que estão constantemente a perder tudo é imenso pois, normalmente, são pessoas que sofrem sempre duas vezes: a primeira, porque perderam determinado objecto; a segunda, porque já sabem que vão levar na cabeça por estarem sempre a perder tudo. Devido a isso, muitas vezes mesmo (nem vos passa pela cabeça quantas vezes isso acontece), as pessoas que estão sempre a perder tudo omitem que perderam algo e desatam a procurar, à socapa, de forma discreta e dissimulada, para que mais ninguém repare que voltaram a perder alguma coisa: varrem a sala com os olhos, levantam-se discretamente, assobiam para o ar, mexem desinteressadamente as revistas da mesa como se apenas estivessem a analisar as suas capas, entre outros movimentos suspeitos.

 

As pessoas que estão sempre a perder tudo, quando perdem algo, sentem-se perdidas (não é irónico?) pois nunca sabem por onde começar a procurar e têm verdadeiro receio de encontrar o telemóvel perdido dentro da fruteira ou a escova de dentes na gaveta dos talheres. As pessoas que estão sempre a perder tudo têm, sobretudo, medo delas próprias – têm verdadeiro receio de encontrarem os objectos perdidos nos locais mais inóspitos da casa e isso é assustador.

 

- Procura o livro no forno!

- Porque é que eu haveria de ter posto o livro no forno?

Regra geral, está lá.

 

As pessoas que estão sempre a perder tudo demoram muito mais tempo a sair de casa do que as pessoas ditas normais. Têm que conferir dez vezes se têm as chaves do carro, as chaves de casa, a carteira e o telemóvel. As pessoas que estão sempre a perder tudo, se garantirem que saem de casa com estes quatro itens, para elas, já é um dia ganho. Mas não ficam safas de terem outro mini ataque de pânico quando chegam ao carro pois, normalmente, já não se lembram que fizeram aquela check list mental, minutos antes, em casa.

 

Peço solidariedade para com quem, como eu, tentar sobreviver no meio do caos de nunca saber onde tem nada. É muito duro enfrentar os dias sabendo que se pode chegar a casa, às onze da noite, e não ter chave para entrar.

 

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Biografia

Sou autora do livro infantil “Maria Bolinhos – no Reino da Maravilhosa Doçaria Alentejana” e do blog insensatez.blogs.sapo.pt. Escritora compulsiva: a minha vida é absorver tudo aquilo que vejo e tudo o que ouço. Se estão comigo há um certo risco de se tornarem inspiração da minha próxima personagem :) mas, calma!, não fujam já! Dou Workshops de Escrita Criativa a crianças e a adultos - são boas horas que sempre voam embaladas pelo fluir frenético da escrita. Devoro arte, sou constantemente inspirada por ela, nas suas mais diversas formas: livros, pintura, música, cinema, fotografia. Mas, também, jardins, praias, arestas dos prédios recortados da minha Lisboa: inspiro a luz que escorre pelas suas paredes, expiro um texto completo de incertezas. Não passo sem café, sem livros, sem as minhas viagens mas, especialmente, sem o ar livre da minha cidade, a minha maior inspiração. Tenho 32 anos, vivo em Lisboa com o meu marido e com as minhas palavras preferidas.

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