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(in)sensatez

13
Mar16

Pequenos verões no meio do nosso inverno.

CD

Isto de existirem pequenos verões no meio do nosso inverno não deixa de ter a sua piada. É açúcar. É rebuçado. É o doce que precisávamos para desenjoar de um almoço demorado. O mais certo é para a semana chover. Arrisco-me a dizer que, exactamente por isso, beliscam-se as vontades de estar na praia. A generalidade das pessoas que conheço são pessoas que gostam dos pés no quente da areia, são pessoas que mergulham forte no mar, são pessoas que, à primeira oportunidade, não se ensaiam em depositar os seus corpos na praia. Não abdicam também, é verdade, do sossego do inverno, da calma da chuva, do cinzento dos dias - existem por uma razão: contrabalançar o verão que se quer de festa e folgado. Equilibrar a gala mirabolante dos dias longos de verão. Sim, a sua função, a do inverno, está definida: é dar tempo. Dar um tempo aos jantares tardios, às noites dançantes, às manhãs demoradas, às peles manchadas, a cheirar a sal pingado com sol; o inverno existe para dar um momento ao tempo.

Este fim-de-semana foi o rebuçado precisávamos para adoçar este inverno que, é certo que tanta falta nos faz, mas que já tarda em terminar.

Boa semana :)

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27
Jan16

Despeço-me sempre do meu avô com um "até amanhã".

CD

Despeço-me sempre do meu avô com um até amanhã.

 

Pelo seu avançar acelerado na idade (sim, eu sei, à mesma cadência com que eu avanço na minha), sinto os reflexos, as palavras, a articulação do seu ser a esgotarem-se. Ainda mantém a vivacidade, claro que sim: conduz, vai ali e acolá e mantém rotinas que não abdica - em especial, a compra do jornal, que folheia mais do que lê, mas que lhe é, essencialmente, uma companhia. Indispensável.

 

Despeço-me sempre do meu avô com um até amanhã.

 

No outro dia, a meio da preparação de um jantar – não referi ainda mas, uma das qualidades do meu avô, é saber cozinhar maravilhosamente bem – enquanto tentava equilibrar na sua mente onde é que o azeite estava guardado, para salpicar mais um pouco a carne que cozinhava no forno, atirou um:

- Ando a preparar uma coisa para ti… mas não está completo. – E continuou – Faltam algumas folhas, fala com os teus amigos que eles podem ter repetidos.

 

Pensei em cromos, pensei em livros, pensei em muita coisa. Coisas assim, no geral, que os meus amigos comprassem e tivessem adquirido em duplicado.

 

Ele tirou o avental, saiu da cozinha com o seu andar compassado e eu fiquei à espera.

 

Voltou com um monte de “fichas de cozinha”, onde em cada uma delas configurava uma receita. Vim a descobrir depois: foram compradas juntamente com o jornal que ele, religiosamente, segue.

 

Voltou a reforçar:

– Filha, faltam duas ou três receitas, das semanas que estive de férias. Fala com algum amigo. Pode ser que tenham repetido - para que consigas completar a tua colecção. – Amontou-as direitinhas, enquanto voltava a vestir o avental e entregou-mas.

 

Agradeci-lhe. E sorri para não chorar.

 

Despeço-me sempre do meu avô com um até amanha. E, dado que não falamos todos os dias (embora falemos com muita regularidade), o até amanhã afunda-se muitas vezes, invariavelmente, nas profundezas da não concretização.

 

Não sei se já disse, mas o meu avô adora cozinhar, adora um bom assado, uma boa carne e de passear o jornal, enquanto adormece sobre as suas páginas abertas. Não sei se já disse mas a minha colecção, cuidadosamente feita pelo meu avô para mim, não está completa.

 

Se alguém a tiver feito, por favor apite, que prometo trocar a volta ao hábito e aplicar um até logo ao invés do já habitual até amanhã.

10
Jan16

Cacto.

CD

A minha tia, nos finais de Novembro, ofereceu-me um cacto com flor, num vasinho vermelho, com um pau decorativo em formato de árvore de Natal. Eu, pouco habituada a andanças de jardinagem e muito habituada ao controlo peremptório das coisas, perguntei-lhe fria e directamente o que teria que fazer, para que este cacto que, aparentemente não necessitava de água nem de cuidados extremos, não terminasse como acabam todos os bonsais e outras flores desta vida, quando dependem apenas das minhas mãos: muitas vezes murchas e, algumas vezes, mortas. Acabei por perceber que água sim, mas em reduzidas quantidades. Cheia de fé, no seu primeiro dia cá em casa, lá lhe entornei umas borrifadelas de água.

 

Foi, infelizmente, sol de pouca dura: os dias foram-se passando e nunca mais me lembrei do cacto, nem da pouca água que ele precisava para se manter vivo.

 

Hoje, enquanto encaixotávamos o nosso Natal, alguém trouxe o cacto, ainda florido e resplandecente, para o guardar – o pau decorativo em formato de árvore de Natal traiu o pobre cacto: foi confundido com uma decoração natalícia e, por um triz, não foi recambiado para as caixas que só abrimos uma vez por ano.

 

Rapidamente foi desfeito o engano, o cacto voltou para onde estava, com o pau decorativo em formato de árvore de Natal (pelos vistos deu sorte!), aberto, verde e florido como desde o primeiro dia. Ninguém sabe como é que ele se mantém intacto, vivo e vibrante, dada a pouca (ou nenhuma) água que recebe.

 

Só nos resta esperar não ter sido apenas o espírito natalício que o manteve vivo até hoje.

 

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Biografia

Sou autora do livro infantil “Maria Bolinhos – no Reino da Maravilhosa Doçaria Alentejana” e do blog insensatez.blogs.sapo.pt. Escritora compulsiva: a minha vida é absorver tudo aquilo que vejo e tudo o que ouço. Se estão comigo há um certo risco de se tornarem inspiração da minha próxima personagem :) mas, calma!, não fujam já! Dou Workshops de Escrita Criativa a crianças e a adultos - são boas horas que sempre voam embaladas pelo fluir frenético da escrita. Devoro arte, sou constantemente inspirada por ela, nas suas mais diversas formas: livros, pintura, música, cinema, fotografia. Mas, também, jardins, praias, arestas dos prédios recortados da minha Lisboa: inspiro a luz que escorre pelas suas paredes, expiro um texto completo de incertezas. Não passo sem café, sem livros, sem as minhas viagens mas, especialmente, sem o ar livre da minha cidade, a minha maior inspiração. Tenho 32 anos, vivo em Lisboa com o meu marido e com as minhas palavras preferidas.

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