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(in)sensatez

06
Nov16

Pela metade.

CD

Habituamo-nos ao amor pela metade, às amizades em part-time, às relações mais ou menos.

Habituamo-nos às férias que lá se passaram, aos jantares aceitáveis, aos vinhos na média.

Habituamo-nos a viver na linha mediana da vida, no equador dos nossos sentidos, no “tanto faz”.

Habituamo-nos. Ponto final.

Habituamo-nos da mesma forma que nos habituamos a um portátil que fica lento, a um telemóvel que encrava, a uma televisão que não liga.

Quando damos por nós achamos normal o portátil demorar dez minutos a funcionar, ter que reiniciar o telemóvel sempre que queremos abrir uma aplicação ou, simplesmente, deixar de ver televisão (também, se pensarmos bem, nunca gostamos muito dela).

Acostumamo-nos a viver pela metade, a desenrascar sentimentos e sentidos, a incluir a meia medida como se fosse inteira. Habituamo-nos a reduzir a receita, a cortar nos açúcares e, especialmente, no sal.

Viver pela metade, realisticamente digo: é quase certo - habituamo-nos sempre.

 

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08
Ago16

Just write.

CD

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Na altura em que publiquei o livro, algumas pessoas, a maior parte pessoas que conheço apenas de relance, referiram, sempre com carinho, estima e, alguma, admiração, a seguinte frase:

- Também adorava publicar um livro!

Via-lhes algum brilho no olhar. Via-lhes alguma vontade. Via-lhes alguma intenção.

É engraçada, esta frase. Embarca nela todo o propósito da concretização mas pouca chama real.

Parece uma frase largada em suspenso.

Quando questionava o que já tinham escrito, algum local onde eu pudesse ver o que costumavam escrever, rematavam com um:

- Não tenho nada escrito. Não tenho por hábito escrever.

Acredito que não deixa de ser engraçada a ideia da publicação de um livro, ver o nosso nome estampado numa capa bonita escolhida com detalhe e amor mas, para estarmos, no mínimo, próximos da concretização do nosso ”sonho”, pelo menos (pelo menos!), convém começar pelo início.

Dava jeito mostrar algo mais do que uma intenção vaga - do que uma vontade abstracta. Do género: apresentar determinação e querer.

Fazer algo concreto. E tentar, tudo por tudo, a sua realização.

 

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04
Ago16

Em que mundo é que isto acontece?

CD

Vale a pena falar sobre a promiscuidade do estado com as empresas privadas? São caminhos que se unem e se desunem, ligações manhosas e indefinidas, com fronteiras incertas e, sempre, obscuras. Ninguém entende a junção de pessoas, a razão destes se unirem àqueles e não aos outros. Ninguém entende estes malabarismos de “toma lá, vai lá passear ao Euro, que precisas de descansar”, ninguém entende porque é que uma empresa que se encontram em litígio fiscal com o estado se comporta desta forma.

Em que mundo é que estas pessoas se unem?

Em que mundo é que isto acontece?

 

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01
Ago16

Escrever.

CD

Perguntam-me se, maioritariamente, escrevo ao computador ou se prefiro o embalo de uma caneta.

Se é verdade que a mão me cansa, pela força que emprego na constituição de um texto, não menos verdade é que as ideias fluem e se concretizam melhor com a passada agitada de uma caligrafia tremida do que com a regularidade de um teclado e a luminosidade de um ecrã.

Porém, e o mais relevante é que, os meus textos, nunca ficam como os desenho numa folha de papel. Mas o esqueleto e alma nasce sempre, verdadeira e precisa, nas folhas corpóreas, na tinta redonda da caneta e, especialmente, do contacto da minha pele, da minha mão, com a caneta e com o papel.

 

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29
Mai16

Crónica de uma Portuguesinha.

CD

portuguesinha.jpg

Não perco mundo por ter uma significativa percentagem em mim de portuguesinha.

Por muitas músicas que ouça, que ouço, por muitos géneros que adquira, que adquiro, nada supera o cantar sofrido de um fadista, a mágoa reflectida na repetição dos versos, a alma colocada em cada quadra. Sinto, em cada dedilhar da guitarra portuguesa, o choro pequenino dos meus avós e, por isso, sinto-me próxima das minhas raízes.

Gosto de ler frases que foram criadas na minha língua. Onde as metáforas me são familiares e, até de certa forma, cúmplices com a vida que escolhi viver. Gosto de sentir os arranjos, meditados e trabalhados, e a carga emotiva e inacabada dos grandes escritores portugueses. Gostos dos eufemismos que empregam quando querem aligeirar a coisa. E das hipérboles quando querem exagerar no tema. Identifico-me com o sofrimento latente nas letras cravadas nas folhas dos seus livros. Identifico-me.

Não há luz igual à nossa, à da minha Lisboa, nem cidade que contemple em si harmonias tão perfeitas de mundos tão diferentes: o bairrismo de Alfama e a cosmopolita Baixa-Chiado.

Não gosto do Halloween, não lido bem com importações de tradições embora reconheça que as tradições e as novidades podem coexistir, criando, se espaço houver, o seu próprio equilíbrio. Prefiro ver o Halloween sincero nos Estados Unidos do que a sua adaptação no meu país. Identidade. Gosto que haja identidade.

Forço-me a apreciar todas as culinárias locais dos sítios para onde viajo mas nada me faz brilhar tanto os olhos quando os mesmos pousam numa travessa de feijoada à transmontada. Não há alimento mais consolador do que uma sopa portuguesa. Não há melhor sobremesa do que leite-creme e arroz doce. Quentes. O leite-creme queimado na altura; o arroz doce com bastante canela.

Se isto faz de mim portuguesinha? Não sei. Podia passar o dia a relatar episódios, numa tentativa de justificar a minha vaidade quando ouço alguém falar a nossa língua redonda.

Podem-me tirar o cabrito, o bacalhau, o cozido, o peixe grelhado sem molhos nem apêndices. Podem-me tirar a melancolia do fado, a luz reflectida nos prédios da minha cidade, o leito do meu rio calmo e brilhante. Podem-me tirar os meus escritores preferidos que são quase todos portugueses.

Se isso acontecer, não me tiram tudo - mas tiram-me (mesmo) muita coisa.

 

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27
Mai16

Dar tempo. Especialmente a quem tem mau acordar.

CD

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Lembrem-se disto: É preciso dar tempo. A tudo. Até a quem tem mau acordar.

Os momentos que se seguem ao meu acordar são desastrosos.

Não sou uma pessoa particularmente alegre aos primeiros minutos da manhã e pouco importa se acordo com o despertador ou por mim. Nunca beijo o mundo de felicidade só pelo simples facto de ser uma sortuda por acordar.

Os meus genes modelam seriamente em mim a revolta por ter que me levantar. Pior ainda se for cedo.

Se os momentos que sucedem o meu despertar não forem repletos de frases suaves e timbres de voz contidos, o meu dia prevê-se manchado pela irritabilidade.

Adorava dizer que sou a pessoa mais maravilhosa do mundo ao acordar e que encaro cada dia como uma bênção. Encaro, é certo, mas só algumas horas depois. Horas depois.

É preciso respeitar quem precisa de tempo. Tempo para acordar. Tempo para se concretizar. Tempo para se inteirar deste mundo que se escreve de forma tão rápida. Tempo para transitar do ninho para a vida frenética que somos.

Para reforçar: É preciso dar tempo. A tudo. Até a quem tem mau acordar.

Bom dia :)

 

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26
Mai16

Sobre a educação.

CD

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Ela descia, de forma desengonçada, a ladeira de acesso ao meu prédio. Trazia na mão uma revista enrolada e, na outra, a carteira, de alça curta, cola ao corpo.

Segurei-lhe na porta quando percebi que era no meu prédio que ela pretendia entrar e aguardei.

Passou por mim, subiu as escadas de acesso ao elevador, carregou o botão e ficou, algo petrificada, a ver o número do andar a decrescer onde o elevador se situava, por cima da porta do mesmo. Parou no zero.

Eu continuava estática com a porta da mão a assistir. Larguei um “de nada” bem audível, segui-lhe o rasto e parei ao seu lado.

Justifico, por vezes, a falta de educação como falta de atenção. Pelo facto de as pessoas andarem tão distraídas, tão absorvidas pelo seu mundo, que se tendem a esquecer do que os rodeia. É o (meu) caminho mais fácil para justificar o mau comportamento dos outros.

Mas, depois penso, a educação foi feita para moldar comportamentos aos desatentos, a todos aqueles cujas regras tendem a resvalar para o chinelo.

E, depois penso novamente, se calhar são apenas pessoas que não tiveram a sorte de seguir o protocolo orientado da educação.

Se calhar é apenas isso. Não tiveram sorte.

 

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12
Mai16

Sorte.

CD

 

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Queria escrever sobre a sorte. E de como a sorte se fabrica. E de como a sorte dá trabalho. E de como a sorte cravada na nossa vida é o empurrão que, tantas vezes, precisamos. Fazendo de forma persistente, vamos construindo a nossa parte, vamos cimentando os tijolos para, quem sabe, conseguirmos apanhar a sorte a jeito, depois a uma qualquer curva apertada: aquela ajudinha extra que necessitamos.

A sorte é uma parte fundamental neste jogo de tabuleiro por onde avançamos a vida. Ela reveste, tantas vezes, a forma do número “seis”, no nosso dado não viciado, nestas andanças dos dias e aparece sempre que nos falta precisamente esse número para atingir o desejado “queijinho”.

“Trabalhar a sorte” pode ser chavão, mas os chavões também são necessários porque advêm sempre de conclusões, de quem se dedicou muitas vezes a analisar. Gosto de pessoas que analisam e dos chavões que constroem apesar de, frequentemente, fugir deles.

No “trabalho da sorte” são poucas as noites que relaxo, são algumas as noites que durmo pouco e são muitos os dias em busca de temas para centrar a escrita.

Trabalhar a sorte dá um trabalho dos diabos (ainda há quem use esta expressão?) mas, no final, compensa sempre.

 

 

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08
Mai16

Um dia seremos turistas em Lisboa.

CD

 

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Vamos abandonar os nossos carros em casa e descer a rua em direcção ao metro. Vamos analisar a sua rede, escolher o melhor caminho, definir o percurso da visita e por onde queremos começar a nossa senda. Vamos ligar-nos à linha azul, parar na Baixa-Chiado, subir até ao Camões, namorar a brasileira e subir e descer nos elevadores da Bica e de Santa Justa.

Vamos parar para beber um licor de ginja e degustar as suas ginjinhas embebidas em álcool, eu vou cravar-te as tuas, tu vais ceder à pressão e, como sempre, vais entorná-las no meu copo. Quando sairmos da casa dos licores, eu já vou estar a trocar o passo. 

Vamos apanhar o 28, vamos subir e descer colinas, até chegar à Graça, vamos estender-nos no miradouro, beber uma cerveja fresquinha, eu vou baixar as alças do top, tu vais enrolar as mangas da t-shirt, como verdadeiros turistas sedentos de sol, e vamos deixar-nos abraçar pelo quente do ar.

Quando acabar o descanso, vamos direccionar-nos para o castelo, vamos ver a cidade beijada pelo rio, vamos saborear o reflexo do sol nas telhas vermelhas e os pontos andantes dos turistas, lá em baixo, a visitar a nossa Lisboa.

Vamos andar bastante e, se ainda sobrar tempo, metemo-nos a caminho de Belém. Onde a Torre, o Mosteiro, o Padrão e os pastéis nos esperam. Vamos deixar-nos admirar e abraçar cada sítio com descoberta, como se fosse a primeira vez.

À noite, vamos deixar-nos embalar por uma noite de fados, dedicar tempo aos fadistas e dedilhar a saudade nos acordes das guitarras tão portuguesas.

Boa noite :)

 

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05
Mai16

Música.

CD

Passei a raspar o passeio e parei na passadeira de forma rápida. Deixei-o passar e senti-lhe algum medo espalhado nos olhos devido à minha paragem algo desengonçada. Devia ter uns 14 anos (cientes que não consigo dar idades a pessoas, ok?) e só me arrisco a dizer que tinha mais do que dez porque, com menos idade, parece-me difícil andar sozinho na rua com alguma orientação.

Trazia uma partitura na mão esquerda. Aliás, eram várias as partituras dobradas e algo amachucadas que ele segurava. Lá atravessou a estrada e prosseguiu caminho. Tal como eu.

Fui até casa a pensar na música que aquele miúdo transportava na palma da mão. Na falta que a música me faz e, especialmente, na falta de educação musical que tenho.

Gostava de ter mais noção musical como andamento do compasso dos meus dias. Gostava de ter verdadeira noção dos tempos, de ter ouvido para os seguir, adorava conseguir cantarolar algo que alguém atirasse para o ar e que o meu marido não brincasse comigo cada vez que saio de tempo, que, basicamente, acontece sempre. Não tenho voz, não sou musical. Bom, claro que tenho voz. Mas é má. Desafino, não tenho ritmo e não sei distinguir os sons dos instrumentos musicais. O único som que distingo é o da guitarra portuguesa e nem eu sei bem porquê. Não identifico o som do baixo numa música nem tão-pouco o de uma guitarra eléctrica. Aliás, se me colocarem os dois instrumentos à frente não sei dizer qual é um e qual é outro. Adoro piano e perco-me em concertos dos músicos que gosto: tanto na simplicidade de um fado cantado à capela como na complexidade de género mais brutos. Sinto-me bem na música e deixo-me sempre envolver na sua forma. Choro muito a ouvir fado. Especialmente, pela saudade que sinto.

Invejo, secretamente, os miúdos que vão aos programas de cantorias por encherem uma sala só com o som que lhes sai da boca.

Invejo, também secretamente, o miúdo, de partitura na mão, várias partituras, todas juntas, dobradas e amachucadas, reflexo de trabalho e estudo e do ouvido musical repetido e treinado. Invejo o seu conhecimento por esta arte que me passa tão ao lado e, especialmente, por conseguir identificar na complexidade de uma estrutura musical todos os lados que a compõem. 

 

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Biografia

Sou autora do livro infantil “Maria Bolinhos – no Reino da Maravilhosa Doçaria Alentejana” e do blog insensatez.blogs.sapo.pt. Escritora compulsiva: a minha vida é absorver tudo aquilo que vejo e tudo o que ouço. Se estão comigo há um certo risco de se tornarem inspiração da minha próxima personagem :) mas, calma!, não fujam já! Dou Workshops de Escrita Criativa a crianças e a adultos - são boas horas que sempre voam embaladas pelo fluir frenético da escrita. Devoro arte, sou constantemente inspirada por ela, nas suas mais diversas formas: livros, pintura, música, cinema, fotografia. Mas, também, jardins, praias, arestas dos prédios recortados da minha Lisboa: inspiro a luz que escorre pelas suas paredes, expiro um texto completo de incertezas. Não passo sem café, sem livros, sem as minhas viagens mas, especialmente, sem o ar livre da minha cidade, a minha maior inspiração. Tenho 32 anos, vivo em Lisboa com o meu marido e com as minhas palavras preferidas.

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