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(in)sensatez

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06
Abr16

Sobre a morte.

CD

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A morte é um pedaço valente desta arte de viver. E vai mesmo acontecer num determinado dia, num dia rigorosamente igual ao anterior em que, provavelmente, vamos acordar, vamos tomar o mesmo banho de todos os dias e o pequeno-almoço do costume, vamos cumprimentar os nossos mais que tudo, vamos avançar para a viragem das horas e não vamos concluir qualquer minuto que começamos.

Guardamos rancor da morte. E, a prova disso, é que nunca abraçamos o tema, nem mesmo com sentido desprendimento. Sempre vi enfiarem a cara na almofada, fazerem barulho para ocultarem o ruído que ela poderá fazer. Sempre assisti ao processo de negação contínua e propositada. Sempre senti o abandono que se faz ao tema.

Faço um esforço para encarar este tema como uma parte importante da vida, numa demente consciencialização de que se o tratar de frente e, preferencialmente, por “tu”, vai ajudar a apaziguar a dor da ausência. O meu lado emocional diz que é impossível e que é uma real perda de tempo alimentar esta informalidade com a morte mas, o meu lado racional, insiste e esforça-se para que eu continue nesta dança do “existe, não existe” na oca esperança de conseguir amortecer qualquer choque que possa vir a ter. 

 

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01
Mar16

O meu imposto sucessório.

CD

O meu imposto sucessório, aquele de que toda a gente fala, já o tenho medido e assumido desde há muito. Podia queixar-me publicamente da existência política do mesmo mas sobre isso, neste espaço, por enquanto, remeto-me ao silêncio.

O imposto sucessório que hoje aqui trago, o meu, aquele que já foi aferido e calibrado, reveste sempre a forma de saudade quando ouço fado e me lembro da minha avó. Não consigo explicar melhor, mas se eu tenho que pagar alguma coisa para ficar com a recordação dela, nas escadas da vivenda a murmurar baixinho as palavras cantadas vestidas de tristeza, já entrego, em forma de lágrimas, o imposto que me exigem.

O meu imposto, este de que todos se queixam, está camuflado nos casacos que uso e que eram da minha mãe, no seu cheiro característico entranhado no meu. Adquire também a forma de donativo quando, no meio de choradeira pegada, a minha mãe, aquela cujo cheiro é igual ao meu, me diz tens-mesmo-que-ver-a-rapariga-dinamarquesa e eu vejo e eu choro o filme todo e eu concluo que os nossos gostos não podiam ser mais iguais.

O imposto sucessório, aquele que, aparentemente regressa ao fim de dez anos de ausência, já o pago, todos os dias, quando, a caminho de casa, ouço bossa nova e quando analiso as letras que me fascinam e emocionam, doação deixada pela paixão do meu pai pelo suave palrar desta forma de encantar. Será a herança dele cujo imposto, aquele que dizem sucessório, já comecei a pagar.

Não sei bem a que se referem quando explicam este imposto de carácter sucessório. Se é aplicado apenas às grandes fortunas ou se ficará tudo em águas de bacalhau. Da parte que me diz respeito, este imposto que dizem como sendo sucessório, pago-o eu todos os dias, dia após dia, quando vivo e revivo momentos deixados, doados em vida ou herdados pelos que me são queridos.

Se preferia pagar um imposto, de cariz monetário, e arrumar com o assunto? Não. Pago de bom grado o que tiver que ser para que a saudade fique porque, enquanto conseguir recordar, ainda estou a viver.

28
Fev16

As Lisboas que não são Lisboa.

CD

Escrevi Lisboa mas podia ter escrito Porto, Coimbra, Braga ou outra qualquer cidade, vila ou aldeia. Escrevi Lisboa por ela ser minha. Minha e de todos os meus amigos que a largaram.

Fazem-me falta, todos os dias, as Catarinas, as Anas, as Ritas, os Pedros e tantos outros, que empacotaram as suas roupas, sorriram para os seus passados, meteram-se no avião, cheios de esperança e vontade, e largaram rumo ao incerto. Deixaram para trás os seus pais, os seus irmãos, os seus amigos, as suas casas, as suas ruas, a sua Lisboa.

Voltam quando o rei faz anos, que é como quem diz, no Natal e em Agosto, complicam uma agenda que se quer calma nas férias, na ânsia de chegarem a todo o lado e, duas semanas depois, embalam as saudades anexas à mochila que trouxeram, e regressam. Deixam para trás, outra vez, a sua Lisboa e tudo o que lhes pertence. E repetem este processo ano após ano.

Ir é bom mas não é Lisboa. As ruas não são iguais, a luz não é parecida, a comida não sabe ao mesmo, as pessoas não são idênticas. Até podem açambarcar as novas ruas como deles, imaginar uma luz brilhante que os faça confundir com a da nossa cidade, que os ofusque de tal forma que pensem que criaram Lisboa noutro local, até podem confeccionar a nossa comida com ingredientes similares (mas que, infelizmente, não vêm dos nossos sítios), até podem criar novas amizades e construir uma nova família, até podem criar um lar, com as suas novas coisas, pendurar quadros nas suas novas paredes, coleccionar os seus novos objectos. Podem, inclusive, dispô-los conforme querem, embelezar as molduras com as suas fotografias, e, no limite, até podem por fotografias, nessas mesmas molduras, de Lisboa. Mas… mas não é Lisboa. É uma convicção anulada de querer criar Lisboa onde ela não existe.

Para uns, não é uma opção; para outros, é uma experiência de vida. Para todos (pelo menos, para os meus): ir é bom mas é tão melhor quando o avião atravessa o nosso rio de caudal largo, sobrevoa a nossa cidade sarapintada de luzes amarelas, o comandante dispara um “apertam os cintos: vamos iniciar a descida para Lisboa”, as portas se abrem e as palavras, no nosso português, começam a ser ouvidas.

Muitos buscam Lisboa nestas Lisboas. Numa primeira fase a ilusão existe, estão ofuscados pelas luzes incandescentes dos seus novos lugares, hipnotizados pela superficialidade cravada nos prédios e nos restaurantes das cidades que os acolhem mas, depois, com o passar do tempo, com a saudade a trespassar-lhes o peito, concluem que Lisboa… bom, que Lisboa só há uma, só há esta, a nossa. As outras Lisboas são boas, ninguém diz que não. Mas não são nossas. E, quando concluem isto, as saudades rasgam toda a esperança desse futuro melhor, destroem toda essa vontade de vencer lá fora em pedacinhos, galgam toda a motivação para permanecer num sítio onde não pertencem e só pensam: quero voltar.

 

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12
Fev16

A felicidade pode vir num pedaço de guardanapo.

CD

Há coisas que me tornam uma pessoa feliz e não são assim tão poucas quanto isso. Podia falar do sorriso dos meus filhos mas não tenho filhos. Podia falar da suave brisa matinal, que me entra pela janela do quarto, mas, de manhã, a minha disposição não me permite apreciar nada. Podia falar dos abraços do meu marido mas, embora seja verdade, não tenho por hábito escrever, de uma forma direta, sobre o amor, sobre a felicidade, sobre a amizade, sobre todos esses nobres sentimentos – opto sempre por os revestir de histórias, para fazer passar a minha mensagem.

Mas hoje, apeteceu-me escrever sobre a felicidade. De uma forma mais frontal. De uma forma mais crua.

E ela pode, verdadeiramente, vir num pedaço de guardanapo. Acreditem em mim!

À saída do meu escritório, no sentido que levo para chegar a casa, há um largo gigante, onde os velhotes ocupam o tempo em jogatanas de cartas, resguardados, agora que chove, pelas copas das árvores. Nesse largo, é comum montarem-se tendas e palcos para festas bairristas. E é também comum existirem rulotes com farturas. Ontem, dei, de forma consciente, três voltas ao largo, à procura de um lugar, entre trânsito, chuva, buzinadelas e chamadas a confirmarem que estava atrasada para um encontro que tinha marcado, em busca da fartura que tinha que ser minha. Podia ter bebido o iogurte que trazia na mala. Podia ter esperado chegar a casa para tomar um leite com chocolate. Podia ter parado numa pastelaria e comido uma torrada com um sumo de laranja. Mas não. Estava obcecada pela possibilidade de comer uma fartura quente, coberta de “ponha muito açúcar, por favor”. E foi o que aconteceu. Estava, de facto, a ferver, foi salpicada de acordo com o meu pedido e fui-me deliciar para o carro, parado em quatro piscas, com a chuva a bater pesadamente nos vidros, o inferno da hora de ponta a passar-me ao lado, na parte de fora, e eu, rodeada da minha felicidade que, escrevam o que vos digo, pode mesmo vir, num pedaço de guardanapo.

Bom fim-de-semana!

29
Jan16

Há pessoas que vivem amachucadas pelo tempo.

CD

Há pessoas que vivem amachucadas pelo tempo. Endireitam-se como podem mas não conseguem arrumar a solidão que, pesadamente, transportam às costas.

Gosto de analisar quem me rodeia, embora nem sempre o faça – por preguiça mas, essencialmente, porque me encontro, demasiadas vezes, num estado de êxtase só meu, onde vou adormecendo e acordando sem ninguém dar conta.

Mas, como dizia, se o meu estado semi-consciente não fosse tão presente, gostava de investir mais tempo a analisar quem me rodeia porque, de facto, gosto, genuinamente, de o fazer.

E há mesmo pessoas que vivem amachucadas pelo tempo. Em determinados sítios onde vou, nas zonas mais escuras e enrugadas da cidade, vejo-as passar, arrastam o andar à velocidade com que arrastam a voz, pedem o que tem que pedir e retomam às suas casas. Dia após dia.

A solidão destas pessoas, que vivem nas ruas por onde passamos todos os dias, que respiram o mesmo ar que respiramos todos os dias e que, até mesmo, comem e dormem com o mesmo fervor com que nós o fazemos todos os dias, transtorna-me quanto mais atenta me situo, quanto mais dedicação dou às pessoas que vivem (e, na maior parte dos casos, sobrevivem) amachucadas pelo tempo.

14
Jan16

Ninguém sabe o seu nome.

CD

Ninguém sabe o seu nome. Ele flui calmamente pelas ruas de Lisboa, tão incolor como o rio que lhe serve de vista, dia após dia.

Ninguém sabe o seu nome. E isso permite-me imaginar as vidas por detrás da dele.

Ninguém sabe o seu nome. Vejo-o sentado, manhã após manhã, numa arcada grandiosamente emoldurada ao pé da Praça do Comércio.

Ninguém sabe o seu nome. E, recostado na umbreira fria da porta, todos os dias, dia após dia, manhã após manhã, quando o vejo, lê o seu livro, inspirando calmamente o cheiro apaziguador do rio.

Ninguém sabe o seu nome. Ou, digo antes, pouca gente sabe o seu nome.

Mas muitas pessoas o conhecem pelo senhor sem-abrigo que carrega consigo sempre um livro e um saco verde tropa.

Sempre nutri simpatia por portadores incógnitos de literatura. O nome dele, tal como o de qualquer outro desconhecido que carrega o fardo de um livro, pouco (me) interessa. Pode ser Luís ou Fonseca, ou Sr. Fonseca, se quiserem. Pode ser Manuel ou Manel. Pode até ser José, Zé ou Zeca.

O senhor que vagueia pela primeira linha de Lisboa, com o Tejo a seus pés, não sei quem é, não sei o seu nome, ninguém sabe, ou alguns sabem. Não importa. Ele carrega livros consigo, sempre um aberto, sempre diferentes, que variam a cada dois dias e os outros no seu saco pesado, moldado à estrutura quadrada dos livros. Pode-se pensar que ele está sozinho e, se calhar, até está. Vive à sua mercê e à mercê das noites frias e húmidas desta cidade no inverno. Mas carrega sempre um livro. Ou vários. No seu saco verde.

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10
Jan16

Cacto.

CD

A minha tia, nos finais de Novembro, ofereceu-me um cacto com flor, num vasinho vermelho, com um pau decorativo em formato de árvore de Natal. Eu, pouco habituada a andanças de jardinagem e muito habituada ao controlo peremptório das coisas, perguntei-lhe fria e directamente o que teria que fazer, para que este cacto que, aparentemente não necessitava de água nem de cuidados extremos, não terminasse como acabam todos os bonsais e outras flores desta vida, quando dependem apenas das minhas mãos: muitas vezes murchas e, algumas vezes, mortas. Acabei por perceber que água sim, mas em reduzidas quantidades. Cheia de fé, no seu primeiro dia cá em casa, lá lhe entornei umas borrifadelas de água.

 

Foi, infelizmente, sol de pouca dura: os dias foram-se passando e nunca mais me lembrei do cacto, nem da pouca água que ele precisava para se manter vivo.

 

Hoje, enquanto encaixotávamos o nosso Natal, alguém trouxe o cacto, ainda florido e resplandecente, para o guardar – o pau decorativo em formato de árvore de Natal traiu o pobre cacto: foi confundido com uma decoração natalícia e, por um triz, não foi recambiado para as caixas que só abrimos uma vez por ano.

 

Rapidamente foi desfeito o engano, o cacto voltou para onde estava, com o pau decorativo em formato de árvore de Natal (pelos vistos deu sorte!), aberto, verde e florido como desde o primeiro dia. Ninguém sabe como é que ele se mantém intacto, vivo e vibrante, dada a pouca (ou nenhuma) água que recebe.

 

Só nos resta esperar não ter sido apenas o espírito natalício que o manteve vivo até hoje.

 

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03
Dez15

Curtas - São instantes visíveis de figuras suspensas no tempo.

CD

Da janela da cozinha da minha casa, mesmo quando estou sentada no sofá da sala, consigo ver, no alto do prédio da frente, uma casa envidraçada. Refiro muitas vezes, que os seus donos devem ter no seu temperamento a mesma medida de transparência que os vidros que lhes emolduram a casa têm. Do sítio onde estou sentada, do sofá da minha sala, através da janela da cozinha da minha casa, vejo já a árvore de natal a piscar, com as suas luzes a pestanejar compassadamente. Vejo também um sofá de cor clara que, a esta distância, não consigo garantir se é branco, ou creme, ou, como se diz nos dias de hoje, nude. Nesse sofá, está sempre sentado um senhor, o mesmo senhor todos os dias, com barba da mesma cor do sofá. Tem sempre, adormecido sobre as suas pernas, um jornal. Ao lado da árvore de natal, precocemente montada, já não consigo ver, do sítio onde me posiciono, sim do sofá da minha sala, através da janela da cozinha da minha casa, o que existe. Mas consigo jurar que é uma televisão pois a sua luz, também ela sempre a piscar, faz companhia ao bater suave das luzes natalícias. Porém, há dias em que mudo de ideias. A minha visão não é suficiente para ver o que, de facto, faz companhia à árvore de natal. Mas a minha imaginação permite-me inventar. E imagino. Na maior parte dos dias, imagino que, do lado invisível da árvore, está uma estante. Branca e simétrica. Essa estante está recheada de livros. Uns com lombadas coloridas; outros não. Uns são pesados e outros pequenos. Há livros infantis, embora em pequena quantidade, mas também livros duros. Uns estão encavalitados e muitos deles estão ordenados. Existem livros em abundância. Mas também molduras. Nenhuma está vazia. Todas trazem, agarrada à madeira que as formata, uma imagem do passado. Imagens de amor e de gente feliz. Imagens cheias. As nossas fotografias, tal como os nossos livros, são provas de amor. São momentos que pararam, fixaram a existência de algo, que nunca mais se vai repetir. São instantes visíveis de figuras suspensas no tempo. Ninguém fotografa uma discussão, não paralisa um momento azedo com o objectivo de o fazer perdurar. Não queremos deixar rasto dos momentos amargos da nossa vida. Nessa estante, estão momentos felizes, abraçados por livros. Coexistem em perfeita harmonia e entendem-se. Existem também outros apontamentos de vida, como peças trazidas de viagem: uma máscara de Veneza, um quadro com uma sevilhana em movimento de Espanha, uma concha de Santiago e uma andorinha preta portuguesa. Existem também cinco garrafinhas de vidro, todas alinhadas, cujo rótulo foi tirado e substituído por um papel, cuja legenda está escrita à mão, com caligrafia precisa e inclinada, com o lugar onde a areia, que enche o seu interior, foi tirada.

Do sítio onde me encontro, pela janela da cozinha de minha casa, sentada no sofá da sala, consigo ver, que, no prédio da frente, por detrás da grande janela sem cortinados, existe vida. Reflectiva no piscar sistemático das luzes de natal, no senhor de barba creme que lê, todas as noites, o seu jornal pousado nas suas pernas, nos livros que enquadram a televisão ou que existem sozinhos, nas molduras de registos suspensos no passado, de recordações de momentos felizes das férias. Não os vejo. Imagino só. Mas existem.

Nessa janela, vive alguém límpido e com existência transparente. Talvez até resplandecente para acompanhar o cintilar das luzes de Natal, alguém que admite, perante a ausência de cortinados, que a sua vida é tão pura e cristalina que até nos permite vê-la, dia-após-dia, através do vidro da sua janela.

 

25
Nov15

Curtas - Agora podia tornar todas as feiras da semana em belos fins.

CD

Ele vivia cansado pela espera. Todos os dias aguardava mais um pouco, enfeitiçado pela hora que demorava a chegar. Dia após dia velava exausto pela altura em que se iria reformar. Há já muito que tinha reduzido o seu ritmo de trabalho, numa tentativa de, pensava ele, não sentir tanto a passagem de uma altura para a outra. De fora veio, sob a forma de um convite camuflado de boa vontade e preocupação, o empurrão prévio, com um "o Zé pode passar a ficar mais por casa, enquanto não se reforma de vez".

E o Zé foi ficando. Passou a visitar apenas esporadicamente o escritório, sede do seu ganha-pão nos últimos 40 anos, na altura em que os trabalhos eram pontos de honra e para a vida. Até que um dia a carta acabou mesmo por chegar, a reforma tornou-se realidade e ele teria agora, finalmente, todo o tempo do mundo para a sua vida.

Quantas horas esteve encerrado naquelas 4 paredes? Quantas horas permaneceu a laborar de forma sistemática e contida os afazeres de todos os dias, rezando para que a sua vida pessoal se mantivesse calma de forma a não o desorientar no meio das suas tarefas laborais? Tantas horas dedicadas à linha de montagem da empresa, minutos atrás de minutos, a executar de forma perfeita o seu papel. Agora? Agora sim! Agora podia viver o tempo que não viveu. Agora podia libertar o sufoco contido ao longo de 40 anos de trabalho. Agora podia levantar-se e deitar-se quando quisesse, podia tornar todas as feiras da semana em belos fins. Podia aspirar cada segundo de descanso como a melhor recompensa da vida profissional exemplar que teve. Podia. E vai. E começou. Redesenhou, com ansiedade, os seus afazeres, reordenou o seu corpo e a sua mente. Elaborou planos detalhados sobre o que ia fazer a todos os minutos da sua reforma, produzindo um horário repleto de sossego intercalado com planos de lazer.

Porém, depressa concluiu que todos os minutos livres desta nova fase, rapidamente se converteram em intermináveis horas de pasmaceira e abandono e que a sede de descanso foi saciada ao fim da primeira semana e a solidão, agora expressa pela distância do trabalho, o começou a inundar. 

A linha que separa uma reforma reparadora da solidão existente é muito subtil. Essa linha, tão ténue e difusa, concluiu o Zé, afunda-nos em melancolia e molda-nos no mais profundo e triste "nós".

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Biografia

Sou autora do livro infantil “Maria Bolinhos – no Reino da Maravilhosa Doçaria Alentejana” e do blog insensatez.blogs.sapo.pt. Escritora compulsiva: a minha vida é absorver tudo aquilo que vejo e tudo o que ouço. Se estão comigo há um certo risco de se tornarem inspiração da minha próxima personagem :) mas, calma!, não fujam já! Dou Workshops de Escrita Criativa a crianças e a adultos - são boas horas que sempre voam embaladas pelo fluir frenético da escrita. Devoro arte, sou constantemente inspirada por ela, nas suas mais diversas formas: livros, pintura, música, cinema, fotografia. Mas, também, jardins, praias, arestas dos prédios recortados da minha Lisboa: inspiro a luz que escorre pelas suas paredes, expiro um texto completo de incertezas. Não passo sem café, sem livros, sem as minhas viagens mas, especialmente, sem o ar livre da minha cidade, a minha maior inspiração. Tenho 32 anos, vivo em Lisboa com o meu marido e com as minhas palavras preferidas.

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