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insensatez

Os meus são (mesmo) os melhores do mundo.

 

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Há coisas que faço minimamente bem. Sem falsas modéstias, sei que chego aos 30 (e passo-os) ao lado dos melhores amigos de sempre. Sei que muita (a maior parte, talvez) da responsabilidade é deles, só deles – mas há também uma parte (por mais pequena que seja) que me pertence. Felizmente. Porque é neste equilíbrio que as nossas relações se vão montando, que se vão construindo e que se vão tornando indestrutíveis – pelo menos, teoricamente: e eu acredito em teorias: são elas que nos permitem acreditar em finais felizes.

No meio dos meus dias, concluo sempre o mesmo (porque me dão provas umas atrás das outras): tenho mesmo amigos do caraças!

Não sei como são os vossos mas os meus são, tenho a certeza, os melhores do mundo.

E este, bom, este foi (mesmo) um dos meus presentes preferidos. De sempre.

 

❤︎

 

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É mesmo por aqui que queremos ir?

Sinto, no geral, a sociedade a contrariar a tendência da dependência das redes. Mas, de vez enquanto, apanho choques de realidade. Ontem, parei numa passadeira para deixar, uma miúda, passar. Antes de parar, não reparei muito nela mas, depois, quando ela não se atravessou à minha frente no momento em que o devia ter feito, espequei-me a avaliar a dita. Era absolutamente normal. Porém, - reparei - a roupa era pouca para esta altura do ano, com clara compensação no batom escuro que usava. O que mais me chamou a atenção nem foi o kit escolhido para um dia de inverno, foi mais a razão pela qual ela não passou a passadeira que se prostrava à sua frente: a miúda, com pouca roupa para esta altura do ano e com demasiado batom para o meu gosto conservador, estava parada na berma da estrada, a fazer poses dengosas, à frente de um telemóvel, no meio da rua - língua de fora para cá, beijinho para lá, pernas enroladas, aperto no peito, mais uma língua de fora, mais um beijinho, num seguimento difícil de acompanhar mas que eu observada embasbacada – sempre (sempre!) com um telemóvel apontado a ela. Uns segundos depois, lá atravessou a rua, sem nunca olhar para os carros, sempre focada no telemóvel que trazia dois palmos acima da cabeça, enquanto vestia também - para além da pouca roupa e do batom exagerado - trejeitos sexys e poses empinadas.

Eu, depois de levar duas buzinadelas, lá acordei e segui com a minha vida.

De facto, a realidade centra-se, cada vez mais, naquele retângulo pequeno com que andamos todos os dias que, vamos combinar, de realidade tem muito pouco.

A minha dúvida mantém-se: é mesmo por aqui que queremos ir?

 

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Sobre as pessoas que estão sempre a perder tudo.

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Estou aqui para repor a dignidade de quem está constantemente a perder tudo porque, simplesmente, as pessoas que perdem tudo sofrem, pela vida fora, de pouca compreensão e de muitas injustiças.

 

Em primeiro lugar, há que referir que as pessoas que estão sempre a perder tudo sofrem, verdadeiramente, com isso. Ninguém gosta de viver em constante sobressalto, com minis ataques de pânico, de hora a hora. A vida, destas pessoas, está sempre em constante rebuliço – experimentem viver em rebuliço durante um dia apenas e depois falamos!

 

Devo explicar que quem está, constantemente, a perder tudo, acha que nunca perde nada. Quando ouvimos a célebre frase, normalmente dita sempre pela mesma pessoa (por exemplo, o marido), de forma direta e fria: “nunca sabes onde tens nada”, a reacção automática que surge é sempre “eu só perco coisas quando estou contigo. Normalmente, nunca perco nada!”. A reter: as pessoas que estão sempre a perder tudo vivem em negação.

 

O sofrimento das pessoas que estão constantemente a perder tudo é imenso pois, normalmente, são pessoas que sofrem sempre duas vezes: a primeira, porque perderam determinado objecto; a segunda, porque já sabem que vão levar na cabeça por estarem sempre a perder tudo. Devido a isso, muitas vezes mesmo (nem vos passa pela cabeça quantas vezes isso acontece), as pessoas que estão sempre a perder tudo omitem que perderam algo e desatam a procurar, à socapa, de forma discreta e dissimulada, para que mais ninguém repare que voltaram a perder alguma coisa: varrem a sala com os olhos, levantam-se discretamente, assobiam para o ar, mexem desinteressadamente as revistas da mesa como se apenas estivessem a analisar as suas capas, entre outros movimentos suspeitos.

 

As pessoas que estão sempre a perder tudo, quando perdem algo, sentem-se perdidas (não é irónico?) pois nunca sabem por onde começar a procurar e têm verdadeiro receio de encontrar o telemóvel perdido dentro da fruteira ou a escova de dentes na gaveta dos talheres. As pessoas que estão sempre a perder tudo têm, sobretudo, medo delas próprias – têm verdadeiro receio de encontrarem os objectos perdidos nos locais mais inóspitos da casa e isso é assustador.

 

- Procura o livro no forno!

- Porque é que eu haveria de ter posto o livro no forno?

Regra geral, está lá.

 

As pessoas que estão sempre a perder tudo demoram muito mais tempo a sair de casa do que as pessoas ditas normais. Têm que conferir dez vezes se têm as chaves do carro, as chaves de casa, a carteira e o telemóvel. As pessoas que estão sempre a perder tudo, se garantirem que saem de casa com estes quatro itens, para elas, já é um dia ganho. Mas não ficam safas de terem outro mini ataque de pânico quando chegam ao carro pois, normalmente, já não se lembram que fizeram aquela check list mental, minutos antes, em casa.

 

Peço solidariedade para com quem, como eu, tentar sobreviver no meio do caos de nunca saber onde tem nada. É muito duro enfrentar os dias sabendo que se pode chegar a casa, às onze da noite, e não ter chave para entrar.

 

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Pela metade.

Habituamo-nos ao amor pela metade, às amizades em part-time, às relações mais ou menos.

Habituamo-nos às férias que lá se passaram, aos jantares aceitáveis, aos vinhos na média.

Habituamo-nos a viver na linha mediana da vida, no equador dos nossos sentidos, no “tanto faz”.

Habituamo-nos. Ponto final.

Habituamo-nos da mesma forma que nos habituamos a um portátil que fica lento, a um telemóvel que encrava, a uma televisão que não liga.

Quando damos por nós achamos normal o portátil demorar dez minutos a funcionar, ter que reiniciar o telemóvel sempre que queremos abrir uma aplicação ou, simplesmente, deixar de ver televisão (também, se pensarmos bem, nunca gostamos muito dela).

Acostumamo-nos a viver pela metade, a desenrascar sentimentos e sentidos, a incluir a meia medida como se fosse inteira. Habituamo-nos a reduzir a receita, a cortar nos açúcares e, especialmente, no sal.

Viver pela metade, realisticamente digo: é quase certo - habituamo-nos sempre.

 

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Escrever sobre sentimentos?

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Escrever sobre sentimentos?

Digo que não gosto. Mas, se analisar em detalhe, em cada texto que desenvolvo, eles existem. Estão presentes em cada alma em formato de palavra que crio.

Aliás, é difícil fugir deles. Eles, os sentimentos, são a base da escrita. Anda tudo à volta do mesmo, em torno de histórias cujo principal objectivo é compreender, é analisar, é concluir alguma coisa.

Mas não se encontram respostas. Nunca se encontram respostas. Por isso é que se escreve. Por isso é que se continua a escrever.

Mas encontram-se prismas. Encontram-se boas histórias que, através de diferentes ângulos, nos dão perspectivas sempre tão diferentes deste mesmo tema: os sentimentos.

O amor, a amizade, o amor, a amizade, a saudade. A saudade.

Leiam. Faz mesmo bem. Não nos dá respostas. Mas dá-nos pontos de vista. Oferece-nos vários lados da mesma questão. E, talvez um dia (talvez), alguém consiga concluir alguma coisa.

 

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Sobre a escrita (outra vez).

Gosto de escrever sobre a escrita.

Gosto de escrever sobre o acto de escrever.

Ao fazê-lo consigo orientar(-me), encarrilar as ideias e decifrar a importância que ela tem para mim.

Gosto de escrever sobre a escrita. Tal como gosto de escrever sobre escritores ou sobre livros que leio.

Tenho bastantes textos sobre as razões que me levam a escrever.

Gosto de escrever sobre a escrita.

Permite-me ler as minhas motivações.

Gosto de escrever sobre a escrita.

Mas também gosto de ler as motivações dos outros. Os motivos dos escritores mas não só: os motivos das pessoas que, tal como eu, investem tempo a deambular nas letras.

No fim, concluem sempre, que a escrita, pelo próprio escape que é, permite concretizar pensamentos e estipular raciocínios.

As razões que levam as pessoas a escrever?

Há para todos os gostos. Como as opiniões.

Gosto de escrever sobre a escrita.

Gosto de escrever sobre escrever.

 

Para quem escrever: o que é que vos leva a escrever?

 

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Escrever – o bem que isto me faz.

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O momento em que sinto o meu cérebro atabalhoado com tantas histórias para contar, em que, separadas, pouco ou nenhum sentido fazem, mas que, unidas, reagem com força e brusquidão. O momento em que sinto estas histórias unirem-se, numa reacção quase química, originando um valente texto que, creio sempre, se pode definir, no mínimo, como razoável. O momento em que as palavras saltam em catadupa cérebro fora, em que se galgam umas às outras, querendo, todas juntas, serem as primeiras a descer até ao teclado deste computador. Todos estes momentos surgem despregados uns dos outros mas tendem a juntarem-se naquela ínfima fracção de segundo onde tudo começa a fazer algum sentido. São momentos felizes. São momentos muito felizes mesmo. Quando consigo consumar uma ideia inicialmente sem nexo, quando consigo inteirar o texto com palavras que se encontravam doidas e dispersas, quando consigo escrever algo que me dá sentido e que dá sentido a quem me lê. São apenas letras cuspidas por estes dedos que mexem e criam aquela mancha que conhecemos como palavras.

O momento em que a escrita flui.

Escrever – o bem que isto me faz.

 

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Sobre a morte.

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A morte é um pedaço valente desta arte de viver. E vai mesmo acontecer num determinado dia, num dia rigorosamente igual ao anterior em que, provavelmente, vamos acordar, vamos tomar o mesmo banho de todos os dias e o pequeno-almoço do costume, vamos cumprimentar os nossos mais que tudo, vamos avançar para a viragem das horas e não vamos concluir qualquer minuto que começamos.

Guardamos rancor da morte. E, a prova disso, é que nunca abraçamos o tema, nem mesmo com sentido desprendimento. Sempre vi enfiarem a cara na almofada, fazerem barulho para ocultarem o ruído que ela poderá fazer. Sempre assisti ao processo de negação contínua e propositada. Sempre senti o abandono que se faz ao tema.

Faço um esforço para encarar este tema como uma parte importante da vida, numa demente consciencialização de que se o tratar de frente e, preferencialmente, por “tu”, vai ajudar a apaziguar a dor da ausência. O meu lado emocional diz que é impossível e que é uma real perda de tempo alimentar esta informalidade com a morte mas, o meu lado racional, insiste e esforça-se para que eu continue nesta dança do “existe, não existe” na oca esperança de conseguir amortecer qualquer choque que possa vir a ter. 

 

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Dançar. Bailar. Ballet.

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No primeiro acto, a música começou acelerada, em batidas sistemáticas e ordenadas mas, acima de tudo, violentas. Faziam-se acompanhar pelo gargalhar do meu coração assustado. Depois suavizou, a música fluiu leve e ligeira e acompanhou a passada esguia das pontas da bailarina.

Não existiam tutus cor-de-rosa, nem coques redondos no alto da cabeça. A tez não era pálida e os figurinos não eram colados ao corpo. Era tudo ao lado quando comparado com aquilo a que chamamos convencional.

Ali fiquei, durante menos de uma hora, afunilada naquela sala de espectáculos de aspecto moderno, cujas cadeiras eram mais desconfortáveis do que pareciam, a ondular o meu pensamento, embriagada pelo suave embalar da coreografia graciosa.

Talvez pela leveza que nunca terei, sempre tive um certo fascínio pelo ballet. Pedi para sair do ballet ainda nova – cujo jeito, vamos assumir, era perto de zero - mas, nova também, a paixão por ele cresceu.

Não existiam tutus cor-de-rosa, nem coques redondos no alto da cabeça. A tez não era pálida e os figurinos não eram colados ao corpo. A fluidez do movimento não precisa do apetrecho do hábito. Precisa de movimentos airosos, marcados por solidez técnica, mesmo quando a música aleija e maltrata. Não precisa de tutus, nem de coques, nem de tez pálida, nem de figurinos adelgaçantes. Precisa só e apenas de presença e de amor pela dança.