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insensatez

Oficialmente, uma senhora.

Entrei (atrasada para a consulta) naquele prédio recuperado da Avenida da Liberdade. 

A fachada era antiga e estava pintada, não de fresco, mas de novo. 

Uma senhora, sentada num banco, à entrada, sublinhava calmamente – com aquela calma que as pessoas de idade têm e que eu invejo - frases de um livro que lia. Escrevinhava também nas suas margens.

Disse, quando me viu entrar,  com verdadeira educação:

“Boa tarde, minha senhora.”

E eu, bom, eu cresci logo mais dez centímetros, não por me sentir superior, mas por vaidade pura, afinal era (agora) uma senhora. 

Devolvi, então, a tarde que se tornou, entretanto, boa e convenci-me que agora, como senhora, é sempre a melhorar.

 

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Pela metade.

Habituamo-nos ao amor pela metade, às amizades em part-time, às relações mais ou menos.

Habituamo-nos às férias que lá se passaram, aos jantares aceitáveis, aos vinhos na média.

Habituamo-nos a viver na linha mediana da vida, no equador dos nossos sentidos, no “tanto faz”.

Habituamo-nos. Ponto final.

Habituamo-nos da mesma forma que nos habituamos a um portátil que fica lento, a um telemóvel que encrava, a uma televisão que não liga.

Quando damos por nós achamos normal o portátil demorar dez minutos a funcionar, ter que reiniciar o telemóvel sempre que queremos abrir uma aplicação ou, simplesmente, deixar de ver televisão (também, se pensarmos bem, nunca gostamos muito dela).

Acostumamo-nos a viver pela metade, a desenrascar sentimentos e sentidos, a incluir a meia medida como se fosse inteira. Habituamo-nos a reduzir a receita, a cortar nos açúcares e, especialmente, no sal.

Viver pela metade, realisticamente digo: é quase certo - habituamo-nos sempre.

 

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Sul América.

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A minha avó ia ao Sul América. Conheço o Sul América desde o tempo em que a minha avó lá ia. Por isso, conheço-o há muito tempo. Mesmo. Desta forma, claro que fico triste quando vejo os "Sul Américas" desta vida serem substituídos por Burgers Kings, Pizza Huts e outros que tais. Porque vejo a modernidade substituir as minhas origens e não gosto da sensação. Vejo os cortes sistemáticos, naquilo que me liga à minha história, acontecerem.
Se acho que deviam manter abertos os loc...ais de antigamente, mesmo quando o serviço não é o melhor, mesmo quando a pastelaria já não é estupenda, apenas para não me sentir emocionalmente "substituída" e completamente abandonada? Sim, acho. Mas só porque sou importante. Só por mim. Porque há locais que não se modernizaram. Há locais que não se adaptaram. Há locais que já não existem para a nova fornada de habitantes destes bairros. Mas são locais cuja existência serve para nos unirmos às nossas saudades.
E isso já é muito. E isso já é suficiente.

 

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Dançar. Bailar. Ballet.

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No primeiro acto, a música começou acelerada, em batidas sistemáticas e ordenadas mas, acima de tudo, violentas. Faziam-se acompanhar pelo gargalhar do meu coração assustado. Depois suavizou, a música fluiu leve e ligeira e acompanhou a passada esguia das pontas da bailarina.

Não existiam tutus cor-de-rosa, nem coques redondos no alto da cabeça. A tez não era pálida e os figurinos não eram colados ao corpo. Era tudo ao lado quando comparado com aquilo a que chamamos convencional.

Ali fiquei, durante menos de uma hora, afunilada naquela sala de espectáculos de aspecto moderno, cujas cadeiras eram mais desconfortáveis do que pareciam, a ondular o meu pensamento, embriagada pelo suave embalar da coreografia graciosa.

Talvez pela leveza que nunca terei, sempre tive um certo fascínio pelo ballet. Pedi para sair do ballet ainda nova – cujo jeito, vamos assumir, era perto de zero - mas, nova também, a paixão por ele cresceu.

Não existiam tutus cor-de-rosa, nem coques redondos no alto da cabeça. A tez não era pálida e os figurinos não eram colados ao corpo. A fluidez do movimento não precisa do apetrecho do hábito. Precisa de movimentos airosos, marcados por solidez técnica, mesmo quando a música aleija e maltrata. Não precisa de tutus, nem de coques, nem de tez pálida, nem de figurinos adelgaçantes. Precisa só e apenas de presença e de amor pela dança.

 

Fascínio.

Conheço pessoas que têm fascínio pela noite. Compreendo mas não o consigo sentir.

Consigo até, ocasionalmente, apreciar a calma que a escuridão nos dá. Consigo até, ocasionalmente, sentir a descompressão após um dia na labuta, quando a claridade dá lugar à obscuridade. Consigo até, ocasionalmente, reconhecer que a noite tem fascínio se isso implicar copos. Mas, sã de pensamentos (e ausente de noitadas), a noite deprime-me.

Hoje a noite entra cálida e esperada, a guitarra é arranhada ao compasso de "verdes anos" e eu permito-me a paz e o sossego que esta casa transpira nas noites em que joga o Benfica.

Boa noite.