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(in)sensatez

03
Dez15

Curtas - São instantes visíveis de figuras suspensas no tempo.

CD

Da janela da cozinha da minha casa, mesmo quando estou sentada no sofá da sala, consigo ver, no alto do prédio da frente, uma casa envidraçada. Refiro muitas vezes, que os seus donos devem ter no seu temperamento a mesma medida de transparência que os vidros que lhes emolduram a casa têm. Do sítio onde estou sentada, do sofá da minha sala, através da janela da cozinha da minha casa, vejo já a árvore de natal a piscar, com as suas luzes a pestanejar compassadamente. Vejo também um sofá de cor clara que, a esta distância, não consigo garantir se é branco, ou creme, ou, como se diz nos dias de hoje, nude. Nesse sofá, está sempre sentado um senhor, o mesmo senhor todos os dias, com barba da mesma cor do sofá. Tem sempre, adormecido sobre as suas pernas, um jornal. Ao lado da árvore de natal, precocemente montada, já não consigo ver, do sítio onde me posiciono, sim do sofá da minha sala, através da janela da cozinha da minha casa, o que existe. Mas consigo jurar que é uma televisão pois a sua luz, também ela sempre a piscar, faz companhia ao bater suave das luzes natalícias. Porém, há dias em que mudo de ideias. A minha visão não é suficiente para ver o que, de facto, faz companhia à árvore de natal. Mas a minha imaginação permite-me inventar. E imagino. Na maior parte dos dias, imagino que, do lado invisível da árvore, está uma estante. Branca e simétrica. Essa estante está recheada de livros. Uns com lombadas coloridas; outros não. Uns são pesados e outros pequenos. Há livros infantis, embora em pequena quantidade, mas também livros duros. Uns estão encavalitados e muitos deles estão ordenados. Existem livros em abundância. Mas também molduras. Nenhuma está vazia. Todas trazem, agarrada à madeira que as formata, uma imagem do passado. Imagens de amor e de gente feliz. Imagens cheias. As nossas fotografias, tal como os nossos livros, são provas de amor. São momentos que pararam, fixaram a existência de algo, que nunca mais se vai repetir. São instantes visíveis de figuras suspensas no tempo. Ninguém fotografa uma discussão, não paralisa um momento azedo com o objectivo de o fazer perdurar. Não queremos deixar rasto dos momentos amargos da nossa vida. Nessa estante, estão momentos felizes, abraçados por livros. Coexistem em perfeita harmonia e entendem-se. Existem também outros apontamentos de vida, como peças trazidas de viagem: uma máscara de Veneza, um quadro com uma sevilhana em movimento de Espanha, uma concha de Santiago e uma andorinha preta portuguesa. Existem também cinco garrafinhas de vidro, todas alinhadas, cujo rótulo foi tirado e substituído por um papel, cuja legenda está escrita à mão, com caligrafia precisa e inclinada, com o lugar onde a areia, que enche o seu interior, foi tirada.

Do sítio onde me encontro, pela janela da cozinha de minha casa, sentada no sofá da sala, consigo ver, que, no prédio da frente, por detrás da grande janela sem cortinados, existe vida. Reflectiva no piscar sistemático das luzes de natal, no senhor de barba creme que lê, todas as noites, o seu jornal pousado nas suas pernas, nos livros que enquadram a televisão ou que existem sozinhos, nas molduras de registos suspensos no passado, de recordações de momentos felizes das férias. Não os vejo. Imagino só. Mas existem.

Nessa janela, vive alguém límpido e com existência transparente. Talvez até resplandecente para acompanhar o cintilar das luzes de Natal, alguém que admite, perante a ausência de cortinados, que a sua vida é tão pura e cristalina que até nos permite vê-la, dia-após-dia, através do vidro da sua janela.

 

25
Nov15

Curtas - Agora podia tornar todas as feiras da semana em belos fins.

CD

Ele vivia cansado pela espera. Todos os dias aguardava mais um pouco, enfeitiçado pela hora que demorava a chegar. Dia após dia velava exausto pela altura em que se iria reformar. Há já muito que tinha reduzido o seu ritmo de trabalho, numa tentativa de, pensava ele, não sentir tanto a passagem de uma altura para a outra. De fora veio, sob a forma de um convite camuflado de boa vontade e preocupação, o empurrão prévio, com um "o Zé pode passar a ficar mais por casa, enquanto não se reforma de vez".

E o Zé foi ficando. Passou a visitar apenas esporadicamente o escritório, sede do seu ganha-pão nos últimos 40 anos, na altura em que os trabalhos eram pontos de honra e para a vida. Até que um dia a carta acabou mesmo por chegar, a reforma tornou-se realidade e ele teria agora, finalmente, todo o tempo do mundo para a sua vida.

Quantas horas esteve encerrado naquelas 4 paredes? Quantas horas permaneceu a laborar de forma sistemática e contida os afazeres de todos os dias, rezando para que a sua vida pessoal se mantivesse calma de forma a não o desorientar no meio das suas tarefas laborais? Tantas horas dedicadas à linha de montagem da empresa, minutos atrás de minutos, a executar de forma perfeita o seu papel. Agora? Agora sim! Agora podia viver o tempo que não viveu. Agora podia libertar o sufoco contido ao longo de 40 anos de trabalho. Agora podia levantar-se e deitar-se quando quisesse, podia tornar todas as feiras da semana em belos fins. Podia aspirar cada segundo de descanso como a melhor recompensa da vida profissional exemplar que teve. Podia. E vai. E começou. Redesenhou, com ansiedade, os seus afazeres, reordenou o seu corpo e a sua mente. Elaborou planos detalhados sobre o que ia fazer a todos os minutos da sua reforma, produzindo um horário repleto de sossego intercalado com planos de lazer.

Porém, depressa concluiu que todos os minutos livres desta nova fase, rapidamente se converteram em intermináveis horas de pasmaceira e abandono e que a sede de descanso foi saciada ao fim da primeira semana e a solidão, agora expressa pela distância do trabalho, o começou a inundar. 

A linha que separa uma reforma reparadora da solidão existente é muito subtil. Essa linha, tão ténue e difusa, concluiu o Zé, afunda-nos em melancolia e molda-nos no mais profundo e triste "nós".

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Biografia

Sou autora do livro infantil “Maria Bolinhos – no Reino da Maravilhosa Doçaria Alentejana” e do blog insensatez.blogs.sapo.pt. Escritora compulsiva: a minha vida é absorver tudo aquilo que vejo e tudo o que ouço. Se estão comigo há um certo risco de se tornarem inspiração da minha próxima personagem :) mas, calma!, não fujam já! Dou Workshops de Escrita Criativa a crianças e a adultos - são boas horas que sempre voam embaladas pelo fluir frenético da escrita. Devoro arte, sou constantemente inspirada por ela, nas suas mais diversas formas: livros, pintura, música, cinema, fotografia. Mas, também, jardins, praias, arestas dos prédios recortados da minha Lisboa: inspiro a luz que escorre pelas suas paredes, expiro um texto completo de incertezas. Não passo sem café, sem livros, sem as minhas viagens mas, especialmente, sem o ar livre da minha cidade, a minha maior inspiração. Tenho 32 anos, vivo em Lisboa com o meu marido e com as minhas palavras preferidas.

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