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(in)sensatez

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25
Jun17

Opinião - A Vegetariana de Han Kang.

CD

Vegetariana.JPG

 

Opinião: Assim que comecei a ler o livro A Vegetariana e, por estarmos, tanto eu como a minha mãe, particularmente sensíveis a este tema, recomendei-lhe que o comprasse, o mais brevemente possível, para, o quanto antes, o começar a ler.

 

Porém, à medida que fui avançando na leitura, mudei de ideias e nunca mais insisti no assunto. De facto, julgo que a minha mãe não gostaria dele como, aliás, muitas pessoas não vão gostar.

 

Este livro, vencedor do Man Booker International Prize, começa com a apresentação suave de uma mulher, nem bonita nem feia, que, após ter tido um sonho, decide tornar-se vegetariana, sem imaginar o impacto que esta decisão irá ter, tanto na sua vida, como na vida de todos os que a rodeiam.

 

Esta mulher, nem bonita nem feia, habituada a viver as vontades dos outros, agarra, então, de forma quase obsessiva, aquilo que passa a conseguir controlar: o acto de não comer carne.

 

A violência que esta decisão gera, torna-se tão real que, inconscientemente, decide tornar-se numa árvore, alimentar-se como uma árvore, afundar-se como uma árvore, viver com uma árvore.

 

É um livro difícil, denso, corporal, pelo tema em si mas, também, pelas diferentes perspectivas que vão sendo injectadas na história.

 

Recomendo este livro a quem tem uma mente (muito) aberta porque, embora seja de fácil leitura, é, de facto, um livro estranho e complexo.

 

Rating: 4/5

02
Mar17

Os portugueses querem Arte.

CD

Almada Negreiros.jpg

 

Não aceito aquelas teorias que referem que os portugueses são analfabetos, que não sabem apreciar boa música, bons filmes, boas esculturas.

 

Acho que ainda há muito trabalho a desenvolver nesta área, como é óbvio, mas, se calhar, mais relativamente à forma de financiamento do que relativamente a outra coisa qualquer.

 

Julgo que precisamos de perder as peneiras. E quando falo na primeira pessoa do plural, refiro-me às forças pseudo-intelectuais que por aqui habitam, aqueles que só estão bem a ver filmes mudos ou esculturas feitas com dois pregos.

 

A cultura, para gerar mais cultura, tem que ser para todos. E, quando digo para todos, digo que tem que ser popular (se quiserem) mas, especialmente, acessível financeiramente.

 

Sou da opinião que tem que ser paga: os artistas (imaginem lá só isto) têm que comer e contas para pagar. E também precisam de roupa para vestir. E também precisam de luxos. Como todos nós. Logo, há uma estrutura para manter.

 

Perguntam vocês: como é que queres “fazer cultura” de forma acessível (financeiramente falando) e pagar a quem a cria?

 

Têm que haver financiadores. Mas financiadores a sério: privados mas, especialmente, públicos. É urgente encurtar a relação do Estado – Cultura. O Estado não se pode afastar da essência de uma sociedade, nem tão-pouco entregar na mão de privados a opção de escolha se determinado espetáculo vai avançar ou não.

 

Claro que o financiamento não se deve ser feito de forma cega: as contas, no final, têm que ser feitas, os projetos têm que ser avaliados e as conclusões devem ser tiradas.

 

Mas, uma coisa não podemos esquecer: o público, aquele para quem a cultura é criada, tem sempre a última palavra, é para ele que o autor cria, é por ele que o autor mostra, é através dele que o autor vive. Então, o público deve ser ouvido e sempre o último a decidir.

 

E há mesmo – garanto-vos – espetáculos exposições boas demais para não serem vividas.

 

(Ainda não consegui ver a exposição do José de Almada Negreiros, na Gulbenkian. São filas e filas e filas. E ainda bem. Os portugueses querem Arte.)

13
Jul16

Sugestões de leitura - Férias.

CD

À semelhança do ano passado, hoje venho dar-vos três (+ uma) sugestões de leitura para as férias.

 

- um policial - O ladrão que Estudava Espinosa de Lawrence Block

Já tive oportunidade de falar sobre este livro aqui.Um óptimo livro para ler enquanto estamos estendidos na areia. Barato (€ 3,00) na wook.

 

- um nobel - Caim de José Saramago

Escrito por um mestre da literatura mundial é sempre um prazer ler algo dele. É um livro pequeno, que se lê rapidamente. Ideal para levar na mala de viagem :)

 

- um romântico - Como Água para Chocolate de Laura Esquivel

 Também já dei a minha opinião sobre este livro aqui. Podem ler aqui.

Um livro maravilhoso, pequeno, fácil de transportar. Uma amiga, uma vez disse, que foi o único livro que ela se demorou a ler, porque não queria que terminasse.

Vale muito a pena.

 

+ 1

 

- um infantil - Maria Bolinhos no Reino da Maravilhosa Doçaria Alentejana - Escrito por mimmm :)

É perfeito para quem tem crianças (dos 6 aos 11 anos). Tem ilustrações maravilhosas e está à venda aqui - Chiado Editora. Juro que não se vão arrepender.

Se quiserem comprar uma "Maria Bolinhos" autografada é só mandarem-me um email para catarinalduarte@sapo.pt :)

 

Boas férias!

12
Jul16

Opinião - O ladrão que Estudava Espinosa de Lawrence Block.

CD

O ladrao que estudava espinosa.jpg

 

 

Sinopse: podem ver aqui - site da wook

 

Opinião: Uma amiga falou-me deste livro porque ouviu não-sei-quem-relativamente-conhecido falar sobre ele. A história de como o descobri é, mais coisa, menos coisa, esta. Sem grande interesse mas é só para enquadrar. :)

É um livro policial com uma particularidade: o potencial culpado pelo crime não o cometeu e terá que investigar esse mesmo crime para que fique provado a sua inocência.

É um livro que se lê muito, muito bem: ideal para ler nas férias!

Embora eu tenha descoberto o assassino bastante antes do final, acho que a história está bastante bem construída.

O que eu mais gostei neste livro foi a construção da personagem principal, em especial, a forma apurada do seu sentido de humor.

 

Na wook está à venda por € 3,00. É aproveitar para levar na mala de viagem :)

 

Rating: 3/5

 

Ando por aqui:

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06
Abr16

Sobre a morte.

CD

morte.jpg

A morte é um pedaço valente desta arte de viver. E vai mesmo acontecer num determinado dia, num dia rigorosamente igual ao anterior em que, provavelmente, vamos acordar, vamos tomar o mesmo banho de todos os dias e o pequeno-almoço do costume, vamos cumprimentar os nossos mais que tudo, vamos avançar para a viragem das horas e não vamos concluir qualquer minuto que começamos.

Guardamos rancor da morte. E, a prova disso, é que nunca abraçamos o tema, nem mesmo com sentido desprendimento. Sempre vi enfiarem a cara na almofada, fazerem barulho para ocultarem o ruído que ela poderá fazer. Sempre assisti ao processo de negação contínua e propositada. Sempre senti o abandono que se faz ao tema.

Faço um esforço para encarar este tema como uma parte importante da vida, numa demente consciencialização de que se o tratar de frente e, preferencialmente, por “tu”, vai ajudar a apaziguar a dor da ausência. O meu lado emocional diz que é impossível e que é uma real perda de tempo alimentar esta informalidade com a morte mas, o meu lado racional, insiste e esforça-se para que eu continue nesta dança do “existe, não existe” na oca esperança de conseguir amortecer qualquer choque que possa vir a ter. 

 

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15
Fev16

Focada.

CD

Completamente focada no exame que tenho no final do mês e nos textos para o blog (que também publico no facebook -> por acaso já o seguem? Carregar aqui).

Logo, tenho lido pouco. Muito pouco. Mas, depois do meu exame, retomo em força! :)

27
Jan16

Despeço-me sempre do meu avô com um "até amanhã".

CD

Despeço-me sempre do meu avô com um até amanhã.

 

Pelo seu avançar acelerado na idade (sim, eu sei, à mesma cadência com que eu avanço na minha), sinto os reflexos, as palavras, a articulação do seu ser a esgotarem-se. Ainda mantém a vivacidade, claro que sim: conduz, vai ali e acolá e mantém rotinas que não abdica - em especial, a compra do jornal, que folheia mais do que lê, mas que lhe é, essencialmente, uma companhia. Indispensável.

 

Despeço-me sempre do meu avô com um até amanhã.

 

No outro dia, a meio da preparação de um jantar – não referi ainda mas, uma das qualidades do meu avô, é saber cozinhar maravilhosamente bem – enquanto tentava equilibrar na sua mente onde é que o azeite estava guardado, para salpicar mais um pouco a carne que cozinhava no forno, atirou um:

- Ando a preparar uma coisa para ti… mas não está completo. – E continuou – Faltam algumas folhas, fala com os teus amigos que eles podem ter repetidos.

 

Pensei em cromos, pensei em livros, pensei em muita coisa. Coisas assim, no geral, que os meus amigos comprassem e tivessem adquirido em duplicado.

 

Ele tirou o avental, saiu da cozinha com o seu andar compassado e eu fiquei à espera.

 

Voltou com um monte de “fichas de cozinha”, onde em cada uma delas configurava uma receita. Vim a descobrir depois: foram compradas juntamente com o jornal que ele, religiosamente, segue.

 

Voltou a reforçar:

– Filha, faltam duas ou três receitas, das semanas que estive de férias. Fala com algum amigo. Pode ser que tenham repetido - para que consigas completar a tua colecção. – Amontou-as direitinhas, enquanto voltava a vestir o avental e entregou-mas.

 

Agradeci-lhe. E sorri para não chorar.

 

Despeço-me sempre do meu avô com um até amanha. E, dado que não falamos todos os dias (embora falemos com muita regularidade), o até amanhã afunda-se muitas vezes, invariavelmente, nas profundezas da não concretização.

 

Não sei se já disse, mas o meu avô adora cozinhar, adora um bom assado, uma boa carne e de passear o jornal, enquanto adormece sobre as suas páginas abertas. Não sei se já disse mas a minha colecção, cuidadosamente feita pelo meu avô para mim, não está completa.

 

Se alguém a tiver feito, por favor apite, que prometo trocar a volta ao hábito e aplicar um até logo ao invés do já habitual até amanhã.

19
Jan16

Opinião - A Vida no Céu de José Eduardo Agualusa.

CD

A vida no céu.jpg

Sinopse:
A Vida no Céu é um romance distópico, num futuro que se segue ao Grande Desastre, e em que o Mundo deixou de ser onde e como o conhecemos. Encontrando-se o globo terrestre inteiramente coberto por água, e a temperatura, à superfície, intolerável, restou ao Homem subir aos céus. Mas essa ascensão é literal (não é alusiva ou simbólica): a Humanidade, reduzida agora a um par de milhões de pessoas, habita aldeias suspensas e cidades flutuantes - dirigíveis gigantescos denominados Tóquio, Xangai ou São Paulo -, e os mais pobres navegam o ar em pequenas balsas rudimentares. Carlos Benjamim Moco é o narrador da história. Tem 16 anos e nasceu numa aldeia, Luanda, que junta mais de cem balsas. O desaparecimento do pai fará com que Benjamim decida partir à sua procura.

Plano Nacional de Leitura Livro recomendado para o Ensino Secundário como sugestão de leitura.

 

Opinião: Gostei bastante deste livro. Tinha boas referências dele e não fiquei desiludida. A ideia base do livro é bastante original e imaginei, diversas vezes, que dava um filme engraçado. Adorei algumas passagens e frases. O livro pretende passar algumas mensagens, sempre de forma muito subtil, usando, para tal, metáforas muito interessantes. Dei por mim, bastantes vezes, a pensar em tudo aquilo que damos por garantido, nos nossos dias, tal como o cheiro da terra molhada. Situações que passam completamente despercebidas nos meandros dos nossos afazeres diários.

A parte menos boa é que não criei muitos laços com as personagens. Não me identifiquei particularmente com nenhuma - achei que estavam pouco desenvolvidas.

 

Rating: 4/5

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Biografia

Sou autora do livro infantil “Maria Bolinhos – no Reino da Maravilhosa Doçaria Alentejana” e do blog insensatez.blogs.sapo.pt. Escritora compulsiva: a minha vida é absorver tudo aquilo que vejo e tudo o que ouço. Se estão comigo há um certo risco de se tornarem inspiração da minha próxima personagem :) mas, calma!, não fujam já! Dou Workshops de Escrita Criativa a crianças e a adultos - são boas horas que sempre voam embaladas pelo fluir frenético da escrita. Devoro arte, sou constantemente inspirada por ela, nas suas mais diversas formas: livros, pintura, música, cinema, fotografia. Mas, também, jardins, praias, arestas dos prédios recortados da minha Lisboa: inspiro a luz que escorre pelas suas paredes, expiro um texto completo de incertezas. Não passo sem café, sem livros, sem as minhas viagens mas, especialmente, sem o ar livre da minha cidade, a minha maior inspiração. Tenho 32 anos, vivo em Lisboa com o meu marido e com as minhas palavras preferidas.

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