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(in)sensatez

25
Set17

Há profissões e profissões, diziam eles.

CD

Profissões.jpg

Ao longo da nossa vida (feliz por constatar que esta tendência não está a evoluir) fomos ouvindo que Arquitectura, Engenharia, Medicina e Advocacia é que eram profissões que “sim, senhora”.

 

A minha geração cresceu, a título de exemplo, a não considerar Cozinheiro ou Fotógrafo como uma opção, na altura de escolher um curso. Até porque, verdade seja dita, onde é que Cozinheiro ou Fotógrafo se enquadrava nos quatro agrupamento que tínhamos à escolha?

 

O mesmo acontecia com alguém que quisesse ser pintor: o mais certo era ser recambiado para Arquitectura, por “influência” dos pais, pois sempre era mais sexy dizer que o filho tinha um curso superior do que dizer que passava os dias, fechado numa sala, a lançar óleo para uma tela em branco.

 

Claro que o tempo veio confirmar que há oportunidades em todas as áreas e a prova disso é que hoje temos Cozinheiros com excelentes restaurantes, com reconhecimento à escala planetária, com inúmeros negócios que surgiram devido a um conjunto de factores chave (sendo que, o início da era Lisboa-Cidade-Cosmopolita, onde tudo surge e tudo nasce cheio de glamour, foi, claramente, um deles).

 

Difícil, ou mais complicado, é arranjar lugares para os arquitectos que as faculdades cospem todos os anos e que, nos dias de hoje, têm que tirar cursos complementares para conseguirem fazer algo minimamente na área (por exemplo, avaliação de imóveis, certificação energética, entre outros).

 

Não sabendo como me vou comportar na altura da escolha de um curso por um futuro rebento meu, quando o medo, de um potencial desemprego, nos tolda o raciocínio, consigo dizer que, possivelmente, o conselho que darei é que deve seguir as suas valências inatas, aquelas que surgem, cravadas na nossa pele, como um sinal de nascença. Este parece-me sempre um belo princípio.

 

[Claro que se as mesmas não forem visíveis... (isso fica para outro texto)]

 

Este texto surgiu no seguimento de um outro que li há uns dias (podem ler aqui), onde a autora do mesmo falava nas profissões que nascem e das profissões que morrem, sem nós darmos por isso.

 

Há, de facto, algo que nunca analisamos, na altura da escolha de um curso, que é a evolução da sociedade. Cingimo-nos a um horizonte temporal estipulado por nós e que, normalmente, é de curto prazo – é o horizonte temporal que nos permite dizer, na altura em que finalizamos uma licenciatura: esse curso tem saída.

 

Num contexto de constante mudança, como é este o mundo onde vivemos, é difícil mas temos que nos esforçar para analisar as opções a longo prazo sendo que, a primeira premissa, no mercado de trabalho de hoje é: não há longo prazo nas profissões, no mundo como ele está agora.

 

Estranho, não é?

 

Ora, neste texto que vos falei há pouco, a Filipa dá alguns exemplos de profissões que surgiram com o passar dos anos, tais como, especialista em marketing digital, operador de drone ou blogger. É incrível pensar que, há meia de anos, ninguém sabia o que estas profissões significavam e que seriam, possível, as "profissões do futuro".

 

Hoje pergunto-vos apenas:

 

Se tivessem dito, quando tinham 18 anos, que queriam ser youtubers, algo que ainda nem sequer existia na altura, qual teria sido a reação dos vossos encarregados de educação?

 

O mundo gira e gira e gira, sempre a grande velocidade: é bom que nos habituemos a isso.

25
Set17

Todas as noites.

CD

O abrir de uma garrafa tem um barulho próprio, nós sabemos bem qual ele é: começa com a ponta afiada do abre-garrafas a rasgar o involucro que sustém a rolha e termina com a sensação de deleite num copo vazio.

 

O medo de abrir a garrafa, nela, aumentava, noite após noite, sempre mais um bocadinho.

 

Quando a casa se vestia de luto, quando os miúdos adormeciam embalados numa tranquilidade que não existia, ela escorregava da cama já quente, percorria descalça o corredor estreito e repetia, sempre acompanhada pela escuridão da cozinha lavada, a dor do vício a esvaziar outra garrafa.

 

Regressava depois, aconchegada e quente, à cama vazia e pedia sempre: um bocadinho mais de esperança para a noite do dia seguinte.

22
Set17

As senhoras da Avenida de Roma.

CD

É muito doce, mesmo muito doce, mas também muito honesto: elas caminham, velhinhas e a rua, de mãos dadas, como se uma já não conseguisse viver sem a outra. Não inventam, não se escondem: encaram a realidade crua de uma ainda existir porque, lá está, a outra também existe.

 

Pertencem à Avenida de Roma, não há nada a fazer: são iguais à sua calçada, rijas e pouco lisas, mas, também, iguais às paredes dos prédios envelhecidos mas ainda com muita piada.

 

É impossível dissociar estas ruas, por onde caminhamos, das senhoras envelhecidas que as embelezam: o charme envelhecido desta parte da cidade devido (também) às senhoras que nela habitam.

 

E de mãos dadas, sempre.

21
Set17

Fazer as pazes.

CD

Depois de escrever o texto sobre como encaro o processo de felicidade, lembrei-me que um bom ponto de partida para haver algum debate sobre o tema, seria contar como tento reajustar-me, diariamente, a mim própria.

 

Não percebendo nada de psicologia, sendo esta apenas a percepção de quem gosta de (se) analisar, digo-vos com sinceridade que não ignoro atitudes que me incomodam pois não tenho (e, se calhar, infelizmente) personalidade para isso.

 

Como consigo, então, seguir o meu caminho de felicidade?

 

Tento – assumindo a minha personalidade como sendo a única que tenho e, vamos dar-lhe alguns créditos, que muitas boas coisas me traz –, tento sempre, fazer as pazes comigo e com as situações que me incomodam.

 

Nem sempre é fácil pois é um processo que pode demorar dias, meses e já até chegou a demorar anos mas, olhar as questões de fora, com algum desprendimento, permite dar a clareza necessária para as avaliar sem barulho e, até, aceitá-las como situações inevitáveis.

 

Por vezes, não entendemos atitudes porque acreditamos numa realidade que não corresponde à verdade. Amarramo-nos à nossa ideia de que determinada relação é isto, quando na verdade, nunca passou daquilo.

 

Quando avaliamos corretamente, sempre à distância do acontecimento, e aceitamos o que não existe quando sempre achámos que sim, fazemos as pazes com os temas, fechamos gavetas e conseguimos, com menos peso, avançar.

20
Set17

Somos seres em constante mudança apesar de, por vezes, resistirmos a ela.

CD

Tenho imensa curiosidade em saber quais as mudanças que a vida me reserva. Não em saber na cara dos filhos que vou ter, como uma amiga minha, há uns dias, dizia, mas em conhecer a minha vida, como um todo.

 

Não sei se é reflexo de ser uma curiosa (cusca?) por natureza, mas tenho pena de não saber como era este mundo antes de eu nascer. Mais curiosidade ainda tenho eu em saber como vou estar aqui a cinco anos, por exemplo.

 

Muita coisa muda em cinco anos, muita coisa muda em dois anos, muita coisa muda em dois meses, até.

 

Penso muitas vezes, com a dor que gosto de sentir para dar valor ao que tenho, como seria eu se, nada do que tenho hoje, de facto, tivesse; como se, num segundo, tudo pudesse sumir, esvaziar o meu coração, escorrer pelos meus dedos abaixo, como um pedaço de areia seca.

 

Sei hoje que, o que queria há cinco anos, nada tem a ver com o que quero agora. Muitas vezes, para mim, difere também do que queria na semana passada.

 

Somos seres de mudança porque, internamente, nos vamos ajeitando às nossas prioridades (que vão mudando) mas também às andanças que o mundo nos vai dando para que tudo se altere.

 

Não esperem nunca, também por isso, que as opiniões se mantenham inalteradas: os dados mudam, as nossas percepções mudam e nós também.

 

Aceitar que somos seres em constante mudança apesar de, por vezes, resistirmos a ela, faz parte do processo de crescimento.

 

É aceitar para evoluir.

19
Set17

Dedicatória.

CD

No outro dia, na Livraria Almedina, quando comprava o presente de anos da minha prima, lembrei-me que lhe podia escrever uma dedicatória, como muitas vezes faço.

 

Mas deixei passar porque, caso ela já tivesse o livro, não o poderia trocar. Os livros para mim são sempre sinais de amor e, por isso, imaginei…

 

Alguém dar um livro com uma dedicatória escrita numa das suas páginas mais para o final. Quem recebia o livro, não via a dedicatória e, por já ter aquele livro, ia trocá-lo. Mais tarde, alguém compraria esse mesmo livro com essa mesma dedicatória colada às suas folhas.

 

E assim, a dedicatória e o amor, andariam de mão em mão, a passar de pessoa para pessoa, a distribuir o que de melhor temos para oferecer.

 

O livro que lhe ofereci foi este:

 

Indice médio de felicidade.JPG

 

Já leram?

14
Set17

Eleições e futebol.

CD

votar.jpg

 

Hoje acordei (como todos os dias até hoje) e verifiquei que o Governo vai proibir jogos de futebol em dias de eleições (isto foi uma novidade).

 

Eu tenho uma teoria (mais uma): há malta sentada, em confortáveis cadeiras, lá nas Assembleias desta vida que se dedica a pensar em temas. Temas variados. De vez enquanto, manda um tema sem sentido, só porque está calado há muito tempo. Foi o caso deste.

 

Proibir jogos de futebol em dias de eleições tem a mesma linha de raciocínio de proibir uma ida ao cinema, quando se tem que estudar, a maiores de 18 anos. Não faz sentido. Entendam isto: não faz sentido!

 

Tenho (quase) trinta e três anos e nunca – nunca – falhei uma eleição. Nunca. E, sim, vejo futebol. E, sim, vou ao cinema. E passo fins-de-semana fora. E viajo. E tenho vida social. E almoço e lancho e janto.

 

Tenho mil boas razões para ir votar. Quem não vai, só precisa de uma: enquanto houver futebol, tem essa; quando deixar de o ter, arranja outra.

14
Set17

O meu umbigo.

CD

Eu tenho a teoria – vocês já sabem que eu tenho muitas teorias - que grande parte da indignação que se vive nas redes sociais tem a ver com o facto de nós acharmos que o mundo gira à nossa volta.

 

Sabem aquele umbigo redondo e perfeito que ostentamos na nossa barriga, preferencialmente, lisa? Descobri há pouco tempo que, infelizmente, nem tudo gira à volta do meu. Foi chocante mas consegui sobreviver. E, na maior parte das vezes, (agora vem a parte dura de se ler): também não gira à volta do vosso.

 

O mundo não gira à volta de nenhum umbigo: o mundo gira à volta do Sol! Juro que é verdade! Eu lembrava-me vagamente de ter ouvido falar sobre isto nas aulas de Astrologia (aquelas que nunca tive - mas agora não me recordo do nome da disciplina onde se aprendem astros e estrelas) mas tive a certeza, no outro dia, quando olhei para o Sol e lá o vi todo amarelo a afastar-se.

 

Foi chocante e, por ser chocante, digo-vos diretamente para não doer muito: parem de achar que todas as notícias, que todas as polémicas, que todos os assuntos são sobre vocês: controlem lá a indignação.

 

O mundo está, simplesmente, a fazer o percurso de todos os dias, em torno do seu próprio umbigo, que é uma bola grande, amarela e que queima, e que, ate à data, infelizmente, ainda não é o vosso.

13
Set17

Sobre a felicidade.

CD

Não encaro a felicidade como um processo que se constrói de forma pesarosa e que chegará, um dia, iluminada por dois raios divinos.

 

É o meu caminho de felicidade que eu construo, é para ele que eu trabalho, e, para tal, assumo coisas simples como, por exemplo, que todas as minhas decisões definem os materiais que o compõem. Como consequência deste meu compromisso, ela, a felicidade, chega todos os dias.

 

Na verdade, para mim, a felicidade não é um destino; mas, sim, a porta de embarque e o voo deste trajecto que desenvolvi para mim.

 

Se serei feliz nas férias paradísicas que me esperam? Sim, claro: sou sempre! Mas, em todos os segundos que compõem cada viagem (a ida para o aeroporto, o check in, o embarque, o voo e, até, o desembarque), não o serei menos.

 

Porque o início, o meio e o fim fazem parte deste meu processo e, se por algum acaso, não aterrar no aeroporto de chegada, quero terminar com a convicção que toda a jornada foi, completa e concretamente, feliz.

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Biografia

Sou autora do livro infantil “Maria Bolinhos – no Reino da Maravilhosa Doçaria Alentejana” e do blog insensatez.blogs.sapo.pt. Escritora compulsiva: a minha vida é absorver tudo aquilo que vejo e tudo o que ouço. Se estão comigo há um certo risco de se tornarem inspiração da minha próxima personagem :) mas, calma!, não fujam já! Dou Workshops de Escrita Criativa a crianças e a adultos - são boas horas que sempre voam embaladas pelo fluir frenético da escrita. Devoro arte, sou constantemente inspirada por ela, nas suas mais diversas formas: livros, pintura, música, cinema, fotografia. Mas, também, jardins, praias, arestas dos prédios recortados da minha Lisboa: inspiro a luz que escorre pelas suas paredes, expiro um texto completo de incertezas. Não passo sem café, sem livros, sem as minhas viagens mas, especialmente, sem o ar livre da minha cidade, a minha maior inspiração. Tenho 32 anos, vivo em Lisboa com o meu marido e com as minhas palavras preferidas.

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