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(in)sensatez

18
Dez17

Já não gosto de gravatas.

CD

Já não gosto de gravatas. Sei o seu peso. Sei a sua formalidade. Conheço de cor a sua importância. Com a gravata vem sempre uma pseudo superioridade intelectual que, muitas vezes, tantas vezes, não passa disso mesmo, de uma pseudo, enganadora, falsa superioridade intelectual.

 

Outras vezes, não falamos em pseudo superioridade porque existe, de facto, essa mesma superioridade intelectual, o que quer que ela, de facto, signifique.

 

Com as gravatas, com os fatos iguais, vincados, lavados a seco, vem também a postura. Uma postura que tem tanto de altiva como de pouco criativa. Uma forma de pensar e trabalhar correta e em linha, com os travões a travar nos momentos certos e o acelerador a rodar quando tem que o fazer.

 

As gravatas e os pescoços pálidos que lhes dão suporte, as caras sebosas do cansaço do dia, o cheiro pesado de quem passou o dia, em reuniões importantes, em salas sem luz, são tudo, tudo farinha de uma sociedade opaca, cinzenta onde se valoriza o percurso correto, o saber estar, o saber ouvir e, tão ou mais importante, o executar corretamente e de acordo com os procedimentos.

 

Percebi que as gravatas eram sinónimo disto tudo e, nesse momento, só as tolero em dias de casamento porque, aí e só aí, revestem contornos de alegria e amizade e amor.

17
Dez17

Há um tempo para tudo.

CD

Há um tempo para tudo.

 

Há um tempo para vivermos a Islândia com mais luz, há um tempo para visitarmos o Japão com as amendoeiras em flor e há, claro, um tempo para mergulharmos no Oceano Índico sem monções.

 

Mas há, também, um tempo para fazer, para criar, para realizar ou, pelo contrário, para assumir o abandono de algo.

 

Por vezes, dizem-nos que nos devemos desligar ou ligar, que devemos fazer ou abandonar e nós não entendemos a mensagem. Mantemo-nos focados naquilo que julgamos certo: ligados ou desligados, não queremos fazer ou, por outro lado, fazemos tudo.

 

Não entendemos, nunca entendemos, porque nos obrigam a seguir o caminho que, provavelmente, devíamos seguir.

 

A razão dessa falta de entendimento é porque, basicamente, não é o nosso tempo! E não ser o nosso tempo é tudo quando se tem que optar, escolher ou ficar quieto.

 

Há um tempo para tudo e, bom, somos sempre nós que o definimos, mesmo que julguemos que não.

 

E, claro, há um tempo certo para visitar a Islândia, o Japão ou o Índico, independentemente da luz, das amendoeiras ou das monções e esse tempo só a nós (e sempre só a nós) diz respeito.

14
Dez17

Será que já não estou para fretes?

CD

IMG_5717.JPG

 

 

Com a idade – e com a consequente escassez de tempo para as actividades que, de facto, gosto – fui-me tornando uma pessoa relativamente seletiva.

 

Mas, atenção, esta seleção não é feita de forma consciente nem reveste contornos de snobeira crónica (juro). Mas, o que é certo, é que existe! Basicamente, consiste numa miscelânea de comportamentos que tenho vido a adoptar.

 

Como, muitas das vezes, é o meu corpo (ou o subconsciente?) a guiar para onde quero ir porque, como falei, não é um processo em que eu tenha propriamente voto na matéria, julgo que tudo advém da motivação que aqui dentro sinto e, talvez por ser uma situação abstrata, só há algum tempo é que comecei a detetar esta minha postura.

 

O primeiro - e mais notório – sintoma foi selecionar hobbies. Depois, foi selecionar eventos. Por último, acho que comecei a selecionar pessoas.

 

Quão importante é este evento? Quero mesmo ali estar? Será que com este tempo – tempo escasso, lá está – não podia estar, sei lá, a dormir ou a escrever ou a passear num sítio interessante? Esta pessoa acrescenta realmente valor à minha vida? Ou é só uma pessoa tóxica que por aqui anda? Lembro-me muitas vezes de uma frase que li há uns tempos que era qualquer coisa como "escolhe bem as pessoas com quem te dás; acabamos sempre por nos deixar influenciar por elas.".

 

Pergunto-me, muitas vezes, quanto pesa determinada situação quando comparada com outra. Quero mesmo estar aqui? Quero mesmo fazer isto? Quero mesmo falar com esta pessoa? Tê-la na minha vida? Ver-me evoluir na vida? Será que ela realmente fica satisfeita pelo meu sucesso? Ou o meu sucesso lembra-lhe o que não conseguiu criar na vida? Sim, malta, existem pessoas que não adoram ver o sucesso alheio porque isso lembra-lhes a vida fracassada que têm. Sim, é mesmo verdade, em vez de olharem para o sucesso como algo inspirador, estão lá só para nos ver escorregar.

 

Se calhar, já não estou para fretes – sempre quis usar esta expressão. Ou, se calhar, estou a crescer e a concluir que isto tudo passa demasiado rápido, tão rápido que não nos dá espaço para fretes.

 

Não há, se calhar, mesmo tempo para eles.

 

25
Set17

Há profissões e profissões, diziam eles.

CD

Profissões.jpg

Ao longo da nossa vida (feliz por constatar que esta tendência não está a evoluir) fomos ouvindo que Arquitectura, Engenharia, Medicina e Advocacia é que eram profissões que “sim, senhora”.

 

A minha geração cresceu, a título de exemplo, a não considerar Cozinheiro ou Fotógrafo como uma opção, na altura de escolher um curso. Até porque, verdade seja dita, onde é que Cozinheiro ou Fotógrafo se enquadrava nos quatro agrupamento que tínhamos à escolha?

 

O mesmo acontecia com alguém que quisesse ser pintor: o mais certo era ser recambiado para Arquitectura, por “influência” dos pais, pois sempre era mais sexy dizer que o filho tinha um curso superior do que dizer que passava os dias, fechado numa sala, a lançar óleo para uma tela em branco.

 

Claro que o tempo veio confirmar que há oportunidades em todas as áreas e a prova disso é que hoje temos Cozinheiros com excelentes restaurantes, com reconhecimento à escala planetária, com inúmeros negócios que surgiram devido a um conjunto de factores chave (sendo que, o início da era Lisboa-Cidade-Cosmopolita, onde tudo surge e tudo nasce cheio de glamour, foi, claramente, um deles).

 

Difícil, ou mais complicado, é arranjar lugares para os arquitectos que as faculdades cospem todos os anos e que, nos dias de hoje, têm que tirar cursos complementares para conseguirem fazer algo minimamente na área (por exemplo, avaliação de imóveis, certificação energética, entre outros).

 

Não sabendo como me vou comportar na altura da escolha de um curso por um futuro rebento meu, quando o medo, de um potencial desemprego, nos tolda o raciocínio, consigo dizer que, possivelmente, o conselho que darei é que deve seguir as suas valências inatas, aquelas que surgem, cravadas na nossa pele, como um sinal de nascença. Este parece-me sempre um belo princípio.

 

[Claro que se as mesmas não forem visíveis... (isso fica para outro texto)]

 

Este texto surgiu no seguimento de um outro que li há uns dias (podem ler aqui), onde a autora do mesmo falava nas profissões que nascem e das profissões que morrem, sem nós darmos por isso.

 

Há, de facto, algo que nunca analisamos, na altura da escolha de um curso, que é a evolução da sociedade. Cingimo-nos a um horizonte temporal estipulado por nós e que, normalmente, é de curto prazo – é o horizonte temporal que nos permite dizer, na altura em que finalizamos uma licenciatura: esse curso tem saída.

 

Num contexto de constante mudança, como é este o mundo onde vivemos, é difícil mas temos que nos esforçar para analisar as opções a longo prazo sendo que, a primeira premissa, no mercado de trabalho de hoje é: não há longo prazo nas profissões, no mundo como ele está agora.

 

Estranho, não é?

 

Ora, neste texto que vos falei há pouco, a Filipa dá alguns exemplos de profissões que surgiram com o passar dos anos, tais como, especialista em marketing digital, operador de drone ou blogger. É incrível pensar que, há meia de anos, ninguém sabia o que estas profissões significavam e que seriam, possível, as "profissões do futuro".

 

Hoje pergunto-vos apenas:

 

Se tivessem dito, quando tinham 18 anos, que queriam ser youtubers, algo que ainda nem sequer existia na altura, qual teria sido a reação dos vossos encarregados de educação?

 

O mundo gira e gira e gira, sempre a grande velocidade: é bom que nos habituemos a isso.

25
Set17

Todas as noites.

CD

O abrir de uma garrafa tem um barulho próprio, nós sabemos bem qual ele é: começa com a ponta afiada do abre-garrafas a rasgar o involucro que sustém a rolha e termina com a sensação de deleite num copo vazio.

 

O medo de abrir a garrafa, nela, aumentava, noite após noite, sempre mais um bocadinho.

 

Quando a casa se vestia de luto, quando os miúdos adormeciam embalados numa tranquilidade que não existia, ela escorregava da cama já quente, percorria descalça o corredor estreito e repetia, sempre acompanhada pela escuridão da cozinha lavada, a dor do vício a esvaziar outra garrafa.

 

Regressava depois, aconchegada e quente, à cama vazia e pedia sempre: um bocadinho mais de esperança para a noite do dia seguinte.

22
Set17

As senhoras da Avenida de Roma.

CD

É muito doce, mesmo muito doce, mas também muito honesto: elas caminham, velhinhas e a rua, de mãos dadas, como se uma já não conseguisse viver sem a outra. Não inventam, não se escondem: encaram a realidade crua de uma ainda existir porque, lá está, a outra também existe.

 

Pertencem à Avenida de Roma, não há nada a fazer: são iguais à sua calçada, rijas e pouco lisas, mas, também, iguais às paredes dos prédios envelhecidos mas ainda com muita piada.

 

É impossível dissociar estas ruas, por onde caminhamos, das senhoras envelhecidas que as embelezam: o charme envelhecido desta parte da cidade devido (também) às senhoras que nela habitam.

 

E de mãos dadas, sempre.

21
Set17

Fazer as pazes.

CD

Depois de escrever o texto sobre como encaro o processo de felicidade, lembrei-me que um bom ponto de partida para haver algum debate sobre o tema, seria contar como tento reajustar-me, diariamente, a mim própria.

 

Não percebendo nada de psicologia, sendo esta apenas a percepção de quem gosta de (se) analisar, digo-vos com sinceridade que não ignoro atitudes que me incomodam pois não tenho (e, se calhar, infelizmente) personalidade para isso.

 

Como consigo, então, seguir o meu caminho de felicidade?

 

Tento – assumindo a minha personalidade como sendo a única que tenho e, vamos dar-lhe alguns créditos, que muitas boas coisas me traz –, tento sempre, fazer as pazes comigo e com as situações que me incomodam.

 

Nem sempre é fácil pois é um processo que pode demorar dias, meses e já até chegou a demorar anos mas, olhar as questões de fora, com algum desprendimento, permite dar a clareza necessária para as avaliar sem barulho e, até, aceitá-las como situações inevitáveis.

 

Por vezes, não entendemos atitudes porque acreditamos numa realidade que não corresponde à verdade. Amarramo-nos à nossa ideia de que determinada relação é isto, quando na verdade, nunca passou daquilo.

 

Quando avaliamos corretamente, sempre à distância do acontecimento, e aceitamos o que não existe quando sempre achámos que sim, fazemos as pazes com os temas, fechamos gavetas e conseguimos, com menos peso, avançar.

20
Set17

Somos seres em constante mudança apesar de, por vezes, resistirmos a ela.

CD

Tenho imensa curiosidade em saber quais as mudanças que a vida me reserva. Não em saber na cara dos filhos que vou ter, como uma amiga minha, há uns dias, dizia, mas em conhecer a minha vida, como um todo.

 

Não sei se é reflexo de ser uma curiosa (cusca?) por natureza, mas tenho pena de não saber como era este mundo antes de eu nascer. Mais curiosidade ainda tenho eu em saber como vou estar aqui a cinco anos, por exemplo.

 

Muita coisa muda em cinco anos, muita coisa muda em dois anos, muita coisa muda em dois meses, até.

 

Penso muitas vezes, com a dor que gosto de sentir para dar valor ao que tenho, como seria eu se, nada do que tenho hoje, de facto, tivesse; como se, num segundo, tudo pudesse sumir, esvaziar o meu coração, escorrer pelos meus dedos abaixo, como um pedaço de areia seca.

 

Sei hoje que, o que queria há cinco anos, nada tem a ver com o que quero agora. Muitas vezes, para mim, difere também do que queria na semana passada.

 

Somos seres de mudança porque, internamente, nos vamos ajeitando às nossas prioridades (que vão mudando) mas também às andanças que o mundo nos vai dando para que tudo se altere.

 

Não esperem nunca, também por isso, que as opiniões se mantenham inalteradas: os dados mudam, as nossas percepções mudam e nós também.

 

Aceitar que somos seres em constante mudança apesar de, por vezes, resistirmos a ela, faz parte do processo de crescimento.

 

É aceitar para evoluir.

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Biografia

Sou autora do livro infantil “Maria Bolinhos – no Reino da Maravilhosa Doçaria Alentejana” e do blog insensatez.blogs.sapo.pt. Escritora compulsiva: a minha vida é absorver tudo aquilo que vejo e tudo o que ouço. Se estão comigo há um certo risco de se tornarem inspiração da minha próxima personagem :) mas, calma!, não fujam já! Dou Workshops de Escrita Criativa a crianças e a adultos - são boas horas que sempre voam embaladas pelo fluir frenético da escrita. Devoro arte, sou constantemente inspirada por ela, nas suas mais diversas formas: livros, pintura, música, cinema, fotografia. Mas, também, jardins, praias, arestas dos prédios recortados da minha Lisboa: inspiro a luz que escorre pelas suas paredes, expiro um texto completo de incertezas. Não passo sem café, sem livros, sem as minhas viagens mas, especialmente, sem o ar livre da minha cidade, a minha maior inspiração. Tenho 32 anos, vivo em Lisboa com o meu marido e com as minhas palavras preferidas.

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