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(in)sensatez

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16
Mai17

Os nossos heróis.

CD

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Comportamo-nos como aqueles pais que maldizem os filhos que se portam e respondem mal.

 

Estamos sempre a refilar porque somos preguiçosos e desenrascados, encostamo-nos à sorte e esperamos pelo "tudo se faz". É sempre assim.

 

Não gostamos da nossa forma fácil e leviana de viver, com álcool e mulheres, como disse o outro, mas não conseguimos viver de outra forma.

 

Dizemos mal deste nosso estilo de vida mas não admitimos que nos apontem o dedo. 

 

Somos assim: maldizentes mas orgulhosos.

 

Numa fase inicial, quando o Salvador se apresentou, poucos foram aqueles que conseguiram ouvir a beleza da música “Amar pelos dois”. Ou, porque tinha tiques de aleijadinho, como li algures, ou, porque a música, lisa e crua, não era música para o festival da Eurovisão.

 

O casaco, a barba e o cabelo, os olhos esbugalhados e as mãos enroladas não ajudavam à festa - as críticas foram mais do que os aplausos, “lá vamos nós fazer mais uma figura triste”, ouvia-se.

 

O que é certo é que o Salvador foi passando e que a legião de fãs foi aumentando. Os tiques passaram a ser secundários, a música foi entrando no ouvido e já não podíamos ouvir dizer mal o nosso menino. A música escolhida, de uma beleza e suavidade ímpar, começou a fazer parte. A fazer parte de nós.

 

No passado fim-de-semana, lá rumamos ao aeroporto, numa procissão de fazer doer a alma de amor. Esperamos pelo nosso herói, como já esperamos por tantos outros, pois, na verdade, são sempre heróis, todos aqueles que nos representam e que levantam de novo aquele esplendor único que é o de Portugal.

 

São sempre heróis, todos aqueles que esbanjam a palavra em português, que espalham o calor da nossa língua que, claro, é única como qualquer outra, mas que, para nós, portugueses, embeiçados pelo que temos, tem aquele enrolar bom, que a torna ainda mais especial. 

 

São sempre heróis, todos aqueles que quentes, íntegros e certeiros, tal como a música do Salvador, choram e vibram e que, longe dos fogos de artifício desta vida, não manipulam nem ofuscam, com luzes fortes, quem os está a ver.

 

Bonitos, reais e concretos – sem sermos lamechas. Esta música somos nós. Precisamos de mais Salvadores, de mais Luísas e de mais amores. Precisamos de mais Éders, de mais futebol e de mais vitórias. Estamos no bom caminho – isto sabe tão bem!

Estamos a vincar a nossa identidade sem entrar no caminho que todos seguem.

 

No final, lá mesmo no final, muito provavelmente vamos concluir que, sem sombra de dúvida, chegamos para amar por todos. 

 

E isso é tudo.

14
Mar17

Sobre o Salvador Sobral.

CD

 

Num mundo perfeito, como aquele onde actualmente existimos, as refeições são equilibradas, os corpos estão hidratados e os comportamentos estão treinados. Num mundo perfeito, como aquele onde actualmente existimos, os dias estão equilibrados em agendas sem rabiscos, os próximos projectos são brutais e as imagens são filtradas com luz, com muita luz. Num mundo perfeito, como aquele onde actualmente existimos, percebo (não concordando) quando uma pessoa com imagem desgadelhada, postura desarticulada, roupa descaída, ganha uma posição de destaque em determinada área (pela sua prestação ter sido efectivamente boa) e toda a massa opinativa deste mundo lhe cospe críticas negativas. Percebo (não concordando) que, num mundo perfeito, como aquele onde actualmente existimos, não haja espaço, nem nos feeds das redes sociais nem nos horários nobres televisivos, para pessoas com imagem desgadelhada, postura desarticulada e roupa descaída. Não há espaço, num mundo perfeito, como aquele onde actualmente existimos, para criar diferente e para ouvir, de olhos bem abertos, a beleza desta canção. 💛

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Biografia

Sou autora do livro infantil “Maria Bolinhos – no Reino da Maravilhosa Doçaria Alentejana” e do blog insensatez.blogs.sapo.pt. Escritora compulsiva: a minha vida é absorver tudo aquilo que vejo e tudo o que ouço. Se estão comigo há um certo risco de se tornarem inspiração da minha próxima personagem :) mas, calma!, não fujam já! Dou Workshops de Escrita Criativa a crianças e a adultos - são boas horas que sempre voam embaladas pelo fluir frenético da escrita. Devoro arte, sou constantemente inspirada por ela, nas suas mais diversas formas: livros, pintura, música, cinema, fotografia. Mas, também, jardins, praias, arestas dos prédios recortados da minha Lisboa: inspiro a luz que escorre pelas suas paredes, expiro um texto completo de incertezas. Não passo sem café, sem livros, sem as minhas viagens mas, especialmente, sem o ar livre da minha cidade, a minha maior inspiração. Tenho 32 anos, vivo em Lisboa com o meu marido e com as minhas palavras preferidas.

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