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(in)sensatez

08
Nov17

É assim a saudade.

CD

Ela surge do frio. E tem surgido muitas vezes, ultimamente.

 

É assim a saudade, tão portuguesa, tão portuguesinha, coberta pelo seu xaile negro e embalada pela sua dor cantada.

 

No Outono, no Inverno, nestas estações mais frias, onde o calor humano tenta equilibrar a temperatura do ar, a saudade, tão portuguesa, tão portuguesinha, alapa-se com força ao meu peito, retira-lhe um valente pedaço e um buraco escuro, um buraco profundo, que nada parece capaz de tapar, afunda-se em mim, e por aqui fica e fica e fica.

 

É assim a saudade.

 

Ela surge do frio, sempre agarrada ao frio e, enquanto o frio por aqui andar, nada a consegue aquecer, nem apagar, nem a fazer desaparecer.

 

É assim a saudade.

27
Jun17

Eu pensava.

CD

eu pensava 2.JPG

 

Eu pensava que a rádio era da voz. Vemos a cara dos locutores, hoje em dia, e eles, bom, eles andam em autocarros enquanto fazem a emissão em direto.

 

Eu pensava que o fado era negro. Ontem ouvi a Raquel Tavares a senti-lo com um vestido amarelo canário (sim, amarelo canário é uma cor).

 

Eu pensava que os livros eram folhas presas a uma lombada, que eram o cheiro da impressão fresca ou, então, o cheiro a antigo e a saudade, pregado nas suas letras. Hoje, tenho um eReader e sou – minimamente – feliz com ele: não pesa, cabem lá muitas obras e dá para ler no escuro.

 

Eu pensava que a sopa era uma refeição saudável (no matter what) mas, entretanto, percebi que só é saudável se não tiver batata.

 

Eu pensava que as fotografias (que, na sua génese, não passam de representações mortas de momentos felizes) serviam para embelezar uma casa com o seu passado porém, hoje em dia, podem ser consideradas inestéticas numa casa que se quer fotografável e harmoniosa.

 

A minha alma velha de 32 anos, talvez baça, talvez resistente, mas, seguramente, tradicional, lá se vai moldando, lá vai aceitando estas alterações (ou estas evoluções, como gostam de lhes chamar), lá se vai resignando a todas - umas com mais facilidade, outras mais na defensiva - mas sempre, inicialmente, envolvida naquele sentimento entristecido, de sobrancelha levantada, com um certo ar de indignação (sem qualquer esforço para ser escondido), afinal, estão a mexer, a remexer mesmo, naquilo que gostava que continuasse a ser como sempre foi.

03
Ago16

Os palmiers do Moinho.

CD

felizes.jpg

São raras as vezes que regresso à morada onde vivi durante mais de vinte anos.

Por nenhuma razão em particular, simplesmente porque não pertence ao percurso que faço diariamente.

No outro dia, fiz questão de lá estacionar, quando me dirigia para determinado local.

É sempre difícil voltar aos sítios onde fomos felizes – pude comprová-lo nesse dia.

Entrei numa das pastelarias da minha infância, os donos reconheceram-me e falaram-me com aquele carinho típico de quem nos viu crescer. Pedi um palmier para matar saudades.

E, como eram tantas as saudades, demais até, quando terminei o primeiro palmier, avancei, sem medos, para o segundo.

Não sou comedida quando o tema é matar saudades e, verdade seja dita, por ali teria ficado, a matá-las, umas atrás das outras, se o encontro que eu tinha marcado já não tivesse começado.

 

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Biografia

Sou autora do livro infantil “Maria Bolinhos – no Reino da Maravilhosa Doçaria Alentejana” e do blog insensatez.blogs.sapo.pt. Escritora compulsiva: a minha vida é absorver tudo aquilo que vejo e tudo o que ouço. Se estão comigo há um certo risco de se tornarem inspiração da minha próxima personagem :) mas, calma!, não fujam já! Dou Workshops de Escrita Criativa a crianças e a adultos - são boas horas que sempre voam embaladas pelo fluir frenético da escrita. Devoro arte, sou constantemente inspirada por ela, nas suas mais diversas formas: livros, pintura, música, cinema, fotografia. Mas, também, jardins, praias, arestas dos prédios recortados da minha Lisboa: inspiro a luz que escorre pelas suas paredes, expiro um texto completo de incertezas. Não passo sem café, sem livros, sem as minhas viagens mas, especialmente, sem o ar livre da minha cidade, a minha maior inspiração. Tenho 32 anos, vivo em Lisboa com o meu marido e com as minhas palavras preferidas.

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