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(in)sensatez

12
Nov17

Jantar no Panteão Nacional?

CD

websummit_panteao_nacional.jpg

 

Ontem, quando vi uma primeira notícia em que referiam que o jantar, com a nata da Web Summit, tinha sido no Panteão Nacional, pensei logo: isto não vai correr bem. O que li não era uma crítica, não era um elogio; era apenas uma notícia.

 

Não sendo a pessoa mais sensata do mundo, quero acreditar que, regra geral, ajuízo bem as situações e, após deambular mais um pouco pelas redes sociais, verifiquei que, uma onda de indignação, estava, verdadeiramente, instalada nos feeds deste mundo. No meu entender, com toda a razão.

 

Não me recordo de, alguma vez, em 2014, me ter cruzado com o despacho 8356, que estabelece que se pode usar, para a realização de eventos, alguns museus, palácios e monumentos nacionais mas, bom, convém frisar, também não tenho especial fascínio por despachos.

 

Aparentemente, na lista dos espaços onde é possível a realização de eventos consta o Panteão Nacional (cujos preços, não relevante para o caso porém, vamos assumir, é importante estarmos a par dos preços que se praticam no mercado, começam nos € 750,00).

 

Como disse o escritor Valter Hugo Mãe, o Panteão Nacional é um cemitério. Apesar de ser, nas palavras do próprio escritor, um cemitério de elite, não deixa de ser um cemitério pelo que não se entende como se pode aceitar e permitir que sejam realizados eventos num espaço destes.

 

Sendo, no geral, totalmente, a favor que se rentabilize espaços afectos à Direção-Geral do Património Cultural, desde que devidamente enquadrados no âmbito a que os mesmos se destinam, não concebo enquadramento possível para permitirem qualquer evento (repito: qualquer evento) no local onde estão os túmulos de alguns dos nossos mais ilustres antepassados.

 

É um desrespeito enorme à nossa Nação e espero, mais do que pedirem a cabeça à diretora do Panteão Nacional, que revejam seriamente o tal despacho e que ponham, por favor, mais bom senso nas normas, especialmente, nas que tocam na nossa dignidade e, naturalmente, na nossa memória. 

07
Nov17

Web Summit - vamos lá, então, falar disto.

CD

Eu acho que cheguei àquela fase da minha vida em que só quero duas coisas: sopas (quentes, de preferência) e descanso. Já não tenho assim grande vontade para andar no trânsito, já não adoro estar em filas para ser atendida nos sítios mais in do mundo, já reviro os olhos quando estou numa multidão, enfim, coisas deste género que impactam com a minha tranquilidade.

 

Não pensem, por favor, que sou uma pessoa idosa vestida de menina de 32 (quase 33) anos, mas, de facto, gosto muito da calma da minha casa onde, em paz e sossego, me posso dedicar às coisas que, realmente, me fazem feliz.

 

Isto para dizer que qualquer evento que surja na minha cidade, dispara, em mim, imediatamente, dois pensamentos: o primeiro, é um pensamento de orgulho (fogo, a minha cidade está a ficar tão gira, tão mexida, tão na moda que já tem a capacidade de puxar para si própria eventos desta dimensão); o segundo, é um pensamento egoísta e do qual, atenção, não me orgulho nada (vou ter a minha vida, nos dias deste evento, transformada no mais profundo caos: isto nunca mais acaba?).

 

Isto aplica-se, claro, ao Web Summit: ainda bem que é cá, que a nossa cidade está cada vez mais gira!, mas estou desejosa que acabe!

 

Depois, bom, depois sou obrigada a concordar em parte com a opinião que o João Miguel Tavares escreveu no Público:

 

“(…) acho tudo aquilo uma parolice colectiva, muito para lá do meu pobre entendimento. Deixem-me precisar que a acusação de parolice não deriva da inutilidade que um encontro destes possa ter para quem o frequenta. Da mesma forma que um congresso de hematologia é útil para hematologistas, este também será útil para empreendedores, startups com acne e investidores em dotcoms. A parolice reside na sua cobertura mediática e no fervor religioso que desperta.

 

Na minha opinião, a palavra "parolice" é capaz de ser um pouco exagerada mas eu até concordo com a ideia que ele pretende transmitir. Reconheço que é um evento importante, que dá visibilidade a Lisboa e que tem interesse para quem trabalha numa das três áreas do evento  (empreendedorismo, tecnologia e inovação) mas, bolas!, dá para baixarmos os níveis de excitação?

 

De um momento para o outro, o mundo gira à volta do Web Summit e todas as pessoas resolvem partilhar, pelas redes sociais deste mundo, os passes com os seus nomes lá estampados. A sério, qual é este fascínio repentino por passes? Nunca vi igual gaudio na partilha, sei lá, dos passes sociais, que até são mais bonitos!

 

Para a semana, quero todos a mandarem-me fotografias do L1 da Carris.

 

É que: entendam-se, por favor!

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Biografia

Sou autora do livro infantil “Maria Bolinhos – no Reino da Maravilhosa Doçaria Alentejana” e do blog insensatez.blogs.sapo.pt. Escritora compulsiva: a minha vida é absorver tudo aquilo que vejo e tudo o que ouço. Se estão comigo há um certo risco de se tornarem inspiração da minha próxima personagem :) mas, calma!, não fujam já! Dou Workshops de Escrita Criativa a crianças e a adultos - são boas horas que sempre voam embaladas pelo fluir frenético da escrita. Devoro arte, sou constantemente inspirada por ela, nas suas mais diversas formas: livros, pintura, música, cinema, fotografia. Mas, também, jardins, praias, arestas dos prédios recortados da minha Lisboa: inspiro a luz que escorre pelas suas paredes, expiro um texto completo de incertezas. Não passo sem café, sem livros, sem as minhas viagens mas, especialmente, sem o ar livre da minha cidade, a minha maior inspiração. Tenho 32 anos, vivo em Lisboa com o meu marido e com as minhas palavras preferidas.

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