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(in)sensatez

20
Jul17

Um país onde não se pode ter opinião.

CD

Há um ano, escrevi, a propósito de uma polémica que envolveu Rui Sinel de Cordes, um texto onde abordei o tema de liberdade de expressão.

 

Julgo que a liberdade de expressão é aquela coisa que toda a gente gosta de dizer que tem, porque é moderno viver num país livre e democrático mas que, bom, contas feitas ninguém está preparado para isso.

 

Na verdade, em Portugal, não se pode ter opinião. Felizmente, relativamente aos meus textos, quando os mesmos são de opinião, nunca tive ninguém a cravar fundo nas caixas dos comentários. Mas isso acontece. Acontece mesmo muito. As caixas de comentários dos jornais, das revistas, dos bloggers, dos humoristas, das pessoas que têm páginas públicas são um autêntico esgoto a céu aberto.

 

Com tudo o que as redes sociais nos trouxeram de bom, também trouxeram ao de cima, a lama peganhenta onde estão plantados alguns espíritos.

 

Bom, mas retomo hoje ao tema da liberdade de expressão porque são diários os exemplos em que as pessoas são fuziladas (não literalmente, claro) por tecerem um comentário. Reparem: por tecerem um comentário. Por muito grave que seja um comentário, nunca achei que fosse motivo de fuzilamento, ainda que não de forma literal.

 

Um dos últimos casos foi o de um médico, António Gentil Martins, (ia colocar aqui a idade dele – vá, tem 87 anos – mas, na verdade, não acho que, de algum modo, seja importante a sua idade) que disse umas palermices referente à homossexualidade. Com isto, surgiram logo achincalhamentos públicos, aberturas de processos e inúmeras crónicas (como esta) de defensores mas, principalmente, de agressores.

 

O grave, atenção!, não é a diversidade de opiniões mas, sim, o ódio e a perseguição a quem as torna públicas.

 

A democracia, aquilo que usamos como bandeira da nossa sociedade moderna, cosmopolita, cheia de turistas a brotarem, repleta de restaurantes requintados, a democracia, aquilo que nos deixa embeiçados como autênticos novos-ricos que nunca viram nada para além das bonitas terras de Trás-os-Montes, a democracia, aquilo que nos torna num país desenvolvido e culto, porque é bom e moderno sermos uma sociedade TOP, é um longo caminho a ser percorrido diariamente e, neste caminho, é necessário (e vital) o direito a manifestarmos uma opinião sem nunca termos medo das consequências.

 

Só isto.

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Biografia

Sou autora do livro infantil “Maria Bolinhos – no Reino da Maravilhosa Doçaria Alentejana” e do blog insensatez.blogs.sapo.pt. Escritora compulsiva: a minha vida é absorver tudo aquilo que vejo e tudo o que ouço. Se estão comigo há um certo risco de se tornarem inspiração da minha próxima personagem :) mas, calma!, não fujam já! Dou Workshops de Escrita Criativa a crianças e a adultos - são boas horas que sempre voam embaladas pelo fluir frenético da escrita. Devoro arte, sou constantemente inspirada por ela, nas suas mais diversas formas: livros, pintura, música, cinema, fotografia. Mas, também, jardins, praias, arestas dos prédios recortados da minha Lisboa: inspiro a luz que escorre pelas suas paredes, expiro um texto completo de incertezas. Não passo sem café, sem livros, sem as minhas viagens mas, especialmente, sem o ar livre da minha cidade, a minha maior inspiração. Tenho 32 anos, vivo em Lisboa com o meu marido e com as minhas palavras preferidas.

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