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(in)sensatez

por Catarina Duarte

(in)sensatez

por Catarina Duarte

Sab | 23.01.16

Opinião - Viagem ao Coração dos Pássaros de Possidónio Cachapa

Catarina Duarte

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Sinopse: "Viagem ao Coração dos Pássaros remete-nos para um universo único mas que se repete sempre no tempo dos seres humanos. Fala-nos das contradições e dialéctica do mundo, do amor, da vida, mas também dos seus opostos.
É um livro que se lê num sopro, como se fosse um instante, numa viagem que o leitor faz ao coração, o seu próprio, e o dos protagonistas da história, realista, autêntica e bela.
Possidónio Cachapa conduz-nos através da sua escrita profunda, revelando-nos os dons que todos temos e as nossas virtudes mas também as nossas debilidades e fraquezas, numa simplicidade narrativa que nos prende da primeira à última página."

 

Opinião: Este livro conta a história de Kika e, através dela, permite-nos o acesso ao amor, de forma suave e imperceptível, nas suas mais diversas formas. Nos entrentantos aparecem histórias, que não pertencendo de uma forma direta à principal, ajudam esta última a emergir com mais força. Achei o livro peculiar, lê-se rápido e de uma forma diferente. Gostei dele exactamente por isso. Sem dúvida que Possidónio Cachapa escreve muito bem. Porém, é um livro que não me vai marcar. Não é, de todo, o meu género, pela forma até, de certa modo, irrealista de como a história é abordada. 

 

Não sei se sonhei ou se li algures que já há teses de mestrado ou doutoramento sobre este escritor. Só por isso, já vale a pena ler algo do mesmo :)

 

Rating: 3/5

Sex | 22.01.16

Sopa.

Catarina Duarte

A temperatura desceu muito, a manta de ovelhinha repousa nas minhas pernas, a sopa aquece lentamente no fogão. Não gosto das noites de inverno. E não gosto especialmente de chegar tarde a casa e de ter que me apressar para poder descansar um par de minutos antes de ir dormir.

A sopa aquece lentamente no fogão.

Já sinto, por antecipação, o seu bambolear nas minhas veias até se arrastar a todas as extremidades do meu corpo.

Aquecendo-o.

Sex | 22.01.16

Dizem os outros.

Catarina Duarte

" Não é um mundo perfeito. Em todos os paraísos há serpentes. Ou, como diz o meu pai, cada homem é o seu próprio paraíso e o seu próprio inferno."

A Vida no Céu - José Eduardo Agualusa

 

Qua | 20.01.16

Eu e as outras.

Catarina Duarte

Conheço pessoas que têm a vida toda organizada. São claras naquilo que fazem, escolhem a roupa com antecedência, têm tempo para tudo. Andam sempre de unhas arranjadas, com uma maquilhagem perfeita, sobrancelhas depiladas. Preparam o farnel na véspera, tem uma agenda exequível, são calmas no falar e no agir. Esticam o cabelo todos os dias, mantêm-no liso e perfeito ao longo das horas. Trabalham calmamente, mesmo quando estão stressadas, nunca perdem a postura. Comer qualquer coisa a despachar, para elas, é um conceito que não existe; executam, sempre, as refeições com tempo. Planeiam os melhores pratos, não comem fritos, raramente comem hidratos de carbono e carnes vermelhas nem pensar, e nunca têm peso na consciência porque saltar o risco  é algo que não lhes assiste.  Nunca se atrasam, estão sempre impecáveis. Não fumam, não bebem uma ponta de álcool. Não acabam a noite com o vestido a pingar porque tropeçaram e entornaram o copo cheio de gin para cima delas. Não olham para as pingas ainda a escorrer e pensam: "foram 6 euros para a viola, e o pior é que vou ter que comprar outro". Nunca perdem telefones, nem as chaves, nem a ponta de um corno; nunca semeiam casacos por onde passam. Não chegam a casa e comem metade do bolo que fizeram na véspera porque estão a morrer de fome, porque almoçaram apenas uma sopa (porque, bem, estamos de dieta e somos pessoas coerentes). E, mais uma vez, o maldito peso da consciência de novo a não aparecer. Estas pessoas que conheço têm sempre a cozinha arrumada e quando se despem nunca espalham a roupa pela casa. Nunca trazem o pijama para a sala e nunca o vestem enquanto olham para um programa que lhes prendeu a atenção. Não berram quando vêem uma aranha. Aliás, aranhas é coisa que não existe nestas vidas; a casa, bem, a casa parece um museu de tão limpo e orientado. À noite, passam sempre o desmaquilhante, nunca adormecem com o rímel a borrar-lhes a almofada e deitam-se, sempre, relaxadas. Adormecem, todos os dias, descansadas porque cumpriram tudo o que se propuseram a fazer.

 
E são, acima de tudo, completamente diferentes de mim.
 
O caos em que a minha vida, por vezes, está, é, claramente, fruto da desorganização mental que tenho. Voo de um sítio para o outro, ando sempre a correr, falo à velocidade da luz, estou num almoço de semana, a bater o pé no chão, enquanto despacho a sopa, ao mesmo tempo que peço a conta, tenho tanto para fazer e estes gajos que não se despacham a atender, ligo para a depiladora para me arranjar um espacinho para hoje, tem mesmo que ser hoje, porque vou ter uma reunião mesmo ai ao lado e mato dois coelhos com uma cajadada só, e estas unhas todas partidas e lascadas?, tenho que fazer alguma coisa delas, e decido que a melhor coisa a fazer é roê-las. E depois, logo depois, arrependo-me, miro-as de cima, com aquele meu olhar superior e penso, ok, vamos comprar um endurecedor e vamos lambuzá-las de piripiri para que nunca mais te passe pela cabeça fazeres algo parecido. Pensamentos que ocorrem enquanto berro com o outro por nunca ter o telefone com som e penso (sempre ao mesmo tempo) que espero bem que o R. se tenha lembrado de tirar alguma coisa para jantar, hoje de manhã foi tudo tão a correr que me esqueci. Esqueci-me também do casaco no escritório, esqueci-me do telefone na dança, esqueci-me do portátil em casa, e volta tudo para trás, ligar para não-sei-quem para me imprimir não-sei-o-quê que vou precisar urgentemente disso hoje à noite, para acabar aquele relatório que me propus a fazer e que não tive tempo para concluir, tudo a correr porque é mesmo urgente e tem que ser feito hoje, frita-se uns rissóis, ou uns croquetes  ou o que estiver à mão à noite porque nos esquecemos de tirar alguma coisa para fazer para jantar; Ouço dizer: acabou o leite; respondo: e agora?! Já sabes que tenho sempre que beber leite de manhã!; ele responde: temos que comprar, vou dormir, vens?; seguido de um: vai tu que eu hoje vou  mesmo arrumar este armário, já não consigo abrir as gavetas de tanta roupa que lá existe, e a seguir ainda me aconchego a ver os episódios atrasados de um programa que não interessa a ninguém mas que me habituei a ver, e deito-me às 2 da manhã, com trabalho no dia a seguir. Depois de uma noite mal dormida, acordo toda borrada porque, claro, com as confusões da véspera não tirei a maquilhagem, arrasto-me à cozinha, sem leite e sem nada, escolho a farda de todos os dias, frustada por não me ter sequer passado pela cabeça arranjar uma combinação inovadora de véspera (dado que até estive a arrumar o armário), maldigo a quantidade de lenços e echarpes que tenho e o facto de andar sempre com os/as mesmos/as e vislumbro que vou passar todo o dia pedrada de sono, porque sou uma desorganizada de primeira e não antecipo acontecimentos, mesmo quando são óbvios.
 
Texto escrito por mim no dia 23 de abril de 2013.
 
Conclusão: três anos depois, nada mudou.
 
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Ter | 19.01.16

Dizem os outros.

Catarina Duarte

" - Não vejo o meu próprio futuro! Não quero. Avançar por um futuro já sonhado é como viver uma vida que outra pessoa já viveu por mim."

José Eduardo Agualusa - A Vida no Céu

Ter | 19.01.16

Opinião - A Vida no Céu de José Eduardo Agualusa.

Catarina Duarte

A vida no céu.jpg

Sinopse:
A Vida no Céu é um romance distópico, num futuro que se segue ao Grande Desastre, e em que o Mundo deixou de ser onde e como o conhecemos. Encontrando-se o globo terrestre inteiramente coberto por água, e a temperatura, à superfície, intolerável, restou ao Homem subir aos céus. Mas essa ascensão é literal (não é alusiva ou simbólica): a Humanidade, reduzida agora a um par de milhões de pessoas, habita aldeias suspensas e cidades flutuantes - dirigíveis gigantescos denominados Tóquio, Xangai ou São Paulo -, e os mais pobres navegam o ar em pequenas balsas rudimentares. Carlos Benjamim Moco é o narrador da história. Tem 16 anos e nasceu numa aldeia, Luanda, que junta mais de cem balsas. O desaparecimento do pai fará com que Benjamim decida partir à sua procura.

Plano Nacional de Leitura Livro recomendado para o Ensino Secundário como sugestão de leitura.

 

Opinião: Gostei bastante deste livro. Tinha boas referências dele e não fiquei desiludida. A ideia base do livro é bastante original e imaginei, diversas vezes, que dava um filme engraçado. Adorei algumas passagens e frases. O livro pretende passar algumas mensagens, sempre de forma muito subtil, usando, para tal, metáforas muito interessantes. Dei por mim, bastantes vezes, a pensar em tudo aquilo que damos por garantido, nos nossos dias, tal como o cheiro da terra molhada. Situações que passam completamente despercebidas nos meandros dos nossos afazeres diários.

A parte menos boa é que não criei muitos laços com as personagens. Não me identifiquei particularmente com nenhuma - achei que estavam pouco desenvolvidas.

 

Rating: 4/5

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