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(in)sensatez

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Livros.

29.02.16 | CD

Agora que o exame já passou, posso, finalmente, agarrar-me a um livro, diferente e mais interessante dos que me fizeram companhia nas últimas semanas. Tenho Mia Couto - Cronicando à cabeceira. Acho que vou avançar por este.

 

Boa semana!

As Lisboas que não são Lisboa.

28.02.16 | CD

Escrevi Lisboa mas podia ter escrito Porto, Coimbra, Braga ou outra qualquer cidade, vila ou aldeia. Escrevi Lisboa por ela ser minha. Minha e de todos os meus amigos que a largaram.

Fazem-me falta, todos os dias, as Catarinas, as Anas, as Ritas, os Pedros e tantos outros, que empacotaram as suas roupas, sorriram para os seus passados, meteram-se no avião, cheios de esperança e vontade, e largaram rumo ao incerto. Deixaram para trás os seus pais, os seus irmãos, os seus amigos, as suas casas, as suas ruas, a sua Lisboa.

Voltam quando o rei faz anos, que é como quem diz, no Natal e em Agosto, complicam uma agenda que se quer calma nas férias, na ânsia de chegarem a todo o lado e, duas semanas depois, embalam as saudades anexas à mochila que trouxeram, e regressam. Deixam para trás, outra vez, a sua Lisboa e tudo o que lhes pertence. E repetem este processo ano após ano.

Ir é bom mas não é Lisboa. As ruas não são iguais, a luz não é parecida, a comida não sabe ao mesmo, as pessoas não são idênticas. Até podem açambarcar as novas ruas como deles, imaginar uma luz brilhante que os faça confundir com a da nossa cidade, que os ofusque de tal forma que pensem que criaram Lisboa noutro local, até podem confeccionar a nossa comida com ingredientes similares (mas que, infelizmente, não vêm dos nossos sítios), até podem criar novas amizades e construir uma nova família, até podem criar um lar, com as suas novas coisas, pendurar quadros nas suas novas paredes, coleccionar os seus novos objectos. Podem, inclusive, dispô-los conforme querem, embelezar as molduras com as suas fotografias, e, no limite, até podem por fotografias, nessas mesmas molduras, de Lisboa. Mas… mas não é Lisboa. É uma convicção anulada de querer criar Lisboa onde ela não existe.

Para uns, não é uma opção; para outros, é uma experiência de vida. Para todos (pelo menos, para os meus): ir é bom mas é tão melhor quando o avião atravessa o nosso rio de caudal largo, sobrevoa a nossa cidade sarapintada de luzes amarelas, o comandante dispara um “apertam os cintos: vamos iniciar a descida para Lisboa”, as portas se abrem e as palavras, no nosso português, começam a ser ouvidas.

Muitos buscam Lisboa nestas Lisboas. Numa primeira fase a ilusão existe, estão ofuscados pelas luzes incandescentes dos seus novos lugares, hipnotizados pela superficialidade cravada nos prédios e nos restaurantes das cidades que os acolhem mas, depois, com o passar do tempo, com a saudade a trespassar-lhes o peito, concluem que Lisboa… bom, que Lisboa só há uma, só há esta, a nossa. As outras Lisboas são boas, ninguém diz que não. Mas não são nossas. E, quando concluem isto, as saudades rasgam toda a esperança desse futuro melhor, destroem toda essa vontade de vencer lá fora em pedacinhos, galgam toda a motivação para permanecer num sítio onde não pertencem e só pensam: quero voltar.

 

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Update.

22.02.16 | CD

O meu exame é já este sábado.

Estou em modo meio out e cheia de vontade que seja domingo.

Só queria que tudo passasse rápido. Só queria descansar. Dormir uma noite sem pensar no justo valor dos instrumentos financeiros, nas taxas a aplicar na tributação autónoma se a empresa tiver prejuízo, ou se os impostos de compra não reembolsáveis entram no preço de compra de um activo fixo tangível.

Só queria deitar a cabeça na almofada, acordar ao meio-dia, tomar um pequeno-almoço demorado e que fosse verão.

Só queria que fosse verão.

Boa noite.

Ser escritor.

21.02.16 | CD

Não sou escritora e, suponho, também não o serei, nem daqui a uma mão cheia de livros publicados. No máximo, rabisco umas coisas. Se ainda estivéssemos no tempo em que a escrita era criada por meio de papel e caneta, seria essa mesma a expressão a utilizar: rabiscar umas coisas.

Mas, dizia eu, não sou escritora, tal como, verdade seja dita, não o considero qualquer um que publica livros. Escritor é uma profissão composta por camadas, é algo que não basta fazer diariamente, de forma mecânica e rotineira, na tentativa de aprumar o seu ofício num horário completo das nove às seis. Ser escritor é cimentar o prazer das palavras, montadas umas sobre as outras, de forma consecutiva e persistente. É dar provas. Sistemáticas. Consistentes. Obras resolvidas e duradouras. Palavra atrás de palavra, todas elas, as palavras, ordenadas em forma de frases, compondo parágrafos, contos, livros que nos unem ao real significado da palavra literatura. Palavras arremessadas, tantas vezes, à primeira vista sem sentido, mas que, no conjunto, pintalgadas dentro de outras frases, formam histórias poderosas – muitas vezes tão simples. Histórias simples. Escrever é resistir. É viver a resistir. Não deixar que o ambiente molde as ideias, afunile o pensamento e impeça de consumar a palavra escrita. Ser escritor é opor-se ao medo. De forma franca e directa: opor-se ao medo que a palavra seja mais forte do que muitas mentes que por aí andam. Aquele medo que nos impede de escrever o que queremos e nos leva a escrever o que as pessoas, no geral, querem ler. Ser escritor é fazer um pacto com ele próprio, é fazer prevalecer a honestidade acima de qualquer ideia. É deixar, tantas vezes, ou diria melhor, quase sempre, ou melhor ainda, porque não sempre?, o coração tomar conta do cérebro que, por sua vez, articula as palavras que jorram em catadupa, umas atrás das outras, na elaboração de uma ideia. É fazer desta união algo perfeito, para que estas ideias saiam sempre de onde devem sair: cá de dentro. Sem filtros. Sem medos. Ser escritor é reagir ao meio. É usar a arte – a arte de escrever – como forma de mudar. Resistir e mudar. Escrever é ter coração. É ser forte. É não ter medo. Escrever é resistir. É viver a resistir.

Leio muito, conheço muitos que escrevem. Conheço poucos escritores.

Enviaram-me esta imagem e, pese embora não me considere “escritora”, não deixei de lhe achar piada. Reconheço-me na ilustração com o mesmo nome. Apenas substituía “escritora” por “pessoa que rabisca umas coisas”.

 

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Bom domingo (o que sobra dele) :) 

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