Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

(in)sensatez

por Catarina Duarte

(in)sensatez

por Catarina Duarte

Ter | 22.03.16

No dia em que Lisboa se encheu de branco, a voz do meu António desapareceu.

Catarina Duarte

No dia em que Lisboa se encheu de branco, eu estava no carro. Estava acompanhada pelo meu António, pela sua voz melosa e branda, janelas fechadas para que ninguém pudesse invadir a privacidade da minha música que tocava.

Do nada, alguém, possivelmente irritado com a calma que se fazia sentir naquele carro verde, descamba. As pedras de granito atiram-se velozmente para o tejadilho. E a voz do meu António, a sua voz melosa e branda, diminui. Diminui. Até desaparecer.

No dia em que Lisboa se encheu de branco, eu estava no carro.

No dia em que Lisboa se encheu de branco, a voz do meu António desapareceu.

 

Instagram @catarina_lduarte

Facebook https://www.facebook.com/catarinaduartewords

 

Seg | 21.03.16

Manicure.

Catarina Duarte

juventude.jpg

Dividimos sempre a mesa da manicure. O seu perfume é adocicado, demasiado forte, demasiado floral, demasiado intrometido. Sei que todas as semanas a encontro pois, como já disse, dividimos a mesa da manicure. As unhas são pintadas, sempre, de vermelho. Sangue. Tenta, sempre também, com a mão livre, equilibrar o livro que lê: diferente - todas as semanas.

As unhas estão, finalmente, pintadas e o cheiro a verniz, ainda fresco, fere-me. As jóias são pesadas mas conseguem ser discretas. Definem arabescos que, pela sua forma, fornece-lhes, às jóias, um aspecto ainda mais arredondado do que aquele que, naturalmente, têm.

Sempre tive um certo encantamento por senhoras que se arranjam, enquanto atravessam, discretamente, os setentas – a idade desta senhora não sei mas deve rondar esse mesmo número.

Nas semanas em que a minha agenda não se consegue orientar para que consiga arranjar as unhas, imagino-a, sentada, na mesa que costuma dividir comigo, com o risco dos olhos a condizer com a camisa de seda, cada dia mais enrugada, com os anos a serem, mais uma vez, injustos, a galoparem em vez de caminharem.

Gosto de quem, com a idade a avançar, se aperalta. Gosto do conforto dos casacos quentes, gosto dos lábios marcados, gosto dos olhos adornados. Gosto das jóias de família, pesadas e com presença. Deixam sempre cheiro por onde passam. Deixam sempre rasto.

Quero-me a envelhecer assim: com tempo para as minhas unhas, com tempo para o meu perfume, com tempo para os meus livros e com tempo para dividir, semana após semana, a mesa com a juventude.

Sab | 19.03.16

Dizem os outros.

Catarina Duarte

Sobre a importância do primeiro parágrafo:

 

"Aquela história não aconteceu há muito tempo - menos do que costuma durar uma vida, e uma vida é tão pouco depois de terminada, quando já pode ser contada nalgumas frases e deixa apenas na memória cinzas que se soltam ao menor solavanco e esvoaçam com a mais leve brisa - e, no entanto, hoje seria impossível."

 

Assim começa o mal - Javier Marías

Qui | 17.03.16

...

Catarina Duarte

Todas as noites prometo que, na manhã seguinte, vou perder tempo a delinear calmamente os meus olhos de preto. Todos os dias, falho a minha promessa.
Não deixa de ter piada: mais depressa asseguro a promessa de casamento feliz do que executo compromissos corriqueiros.
Vamos lá então assumir e ser perfeitos nas pequenas imperfeições do dia-a-dia.
E boa tarde a quem, como eu, é feliz no meio de promessas triviais falhadas.

:)

Ter | 15.03.16

A morte une as pessoas.

Catarina Duarte

Para publicar.jpg

A morte une as pessoas.

 

A morte tem, inerente a ela própria, a capacidade de amaciar as amarguras passadas e as quezílias presentes. Soltam-se as amarras da tensão e as ternuras são refinadas numa espécie de escorredor de malha pequena, descendo, pó atrás de pó. Presas a esse mesmo escorredor, não conseguindo passar por entre os seus buracos finos, ficam apenas as mágoas antigas.

 

A morte une as pessoas.

 

Consegue neutralizar. Consegue extinguir. Consegue anular. Com a morte, todos nós conseguimos resfriar a memória, deixando apenas a cirandar as recordações, já saudosas de bons momentos, que ainda não tiveram nem tempo nem distância para se fazerem sentir.

 

A morte une as pessoas.

 

A morte tira-nos tudo. E, já que assim é, que, pelo menos, não nos tire a união. Este ano tem sido particularmente duro ao nível das mortes.

 

Mas a morte une as pessoas.

 

E ainda bem.

Dom | 13.03.16

Pequenos verões no meio do nosso inverno.

Catarina Duarte

Isto de existirem pequenos verões no meio do nosso inverno não deixa de ter a sua piada. É açúcar. É rebuçado. É o doce que precisávamos para desenjoar de um almoço demorado. O mais certo é para a semana chover. Arrisco-me a dizer que, exactamente por isso, beliscam-se as vontades de estar na praia. A generalidade das pessoas que conheço são pessoas que gostam dos pés no quente da areia, são pessoas que mergulham forte no mar, são pessoas que, à primeira oportunidade, não se ensaiam em depositar os seus corpos na praia. Não abdicam também, é verdade, do sossego do inverno, da calma da chuva, do cinzento dos dias - existem por uma razão: contrabalançar o verão que se quer de festa e folgado. Equilibrar a gala mirabolante dos dias longos de verão. Sim, a sua função, a do inverno, está definida: é dar tempo. Dar um tempo aos jantares tardios, às noites dançantes, às manhãs demoradas, às peles manchadas, a cheirar a sal pingado com sol; o inverno existe para dar um momento ao tempo.

Este fim-de-semana foi o rebuçado precisávamos para adoçar este inverno que, é certo que tanta falta nos faz, mas que já tarda em terminar.

Boa semana :)

Instagram @catarina_lduarte

Facebook https://www.facebook.com/catarinaduartewords