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(in)sensatez

por Catarina Duarte

(in)sensatez

por Catarina Duarte

Sex | 15.04.16

Sobre a escrita.

Catarina Duarte

Na Leitura e na Escrita Encontramo-nos Todos naquilo que Temos de Mais Humano.

"A escrita, ou a arte, para ser mais abrangente, cumpre funções que mais nenhuma área consegue cumprir. (...) Sinto que há poucas experiências tão interessantes como quando se lê um livro e se percebe "já senti isto, mas nunca o tinha visto escrito", procurar isso, ou procurar escrever textos que façam sentir isso, é uma das minhas buscas permanentes. Trata-se de ordenar, de esquematizar, não só sentimentos como ideias que temos de uma forma vaga mas que entendemos melhor quando os vemos em palavras. Trata-se também de construir empatia: através da leitura temos oportunidade de estar na pele de outras pessoas e de sentir coisas que não fazem parte da nossa vida, mas que no momento em que lemos conseguimos perceber como é. E isso faz-nos ser mais humanos. Na leitura e na escrita encontramo-nos todos naquilo que temos de mais humano."

José Luís Peixoto, in 'Diário de Notícias (2003)' 

 

Bom fim-de-semana para quem escreve mas também para quem lê :)

Qui | 14.04.16

Chuva.

Catarina Duarte

A chuva batia nos vidros. Eu estava concentrada numas tabelas por terminar.

Não acho que as tenha que fazer para intelectuais. Ponho tanto de mim, quanto aquilo que gostaria de receber. Não ponho menos. Muito menos, mais.

A chuva acelerou. As pingas iniciais foram substituídas pela brutalidade do granizo sem cerimónia. O meu rato continuava, em círculos, a formatar a tabela do momento. Mais umas existiam por terminar.

Chicotadas, umas atrás das outras, agrediam agora o vidro da minha janela. Comecei a ficar desconcentrada. Não conseguia terminar aquela tabela. Não me conseguir isolar da violência da água que forçava a entrada na minha sala. E ainda tinha as seguintes para fechar.

A chuva berrava lá fora e eu com vontade de a mandar calar. Guinadas de luz branca começaram a surgir. E, depois: estrondo. Novas guinadas. Novo estrondo. E eu concentrada a concentrar-me nas tabelas por concluir.

Do nada, a chuva certeira e rasteira começou a dedilhar nos vidros. Arranhava agora apenas finamente. O barulho ensurdecedor do temporal terminou. Foi substituído pelo conforto da chuva tranquila.

Terminei a minha tabela. Terminei as restantes.

Arrumei tudo, desliguei tudo e fui para casa.

 

Boa noite de chuva :)

 

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Qua | 13.04.16

Boa noite.

Catarina Duarte

Vejo a sala iluminada, da minha varanda. Tem luz amarela e sempre um senhor careca a encabeçar a mesa de mogno.

São sempre cinco e, por isso mesmo, recordo-me sempre deste texto de José Luís Peixoto:

 

“na hora de pôr a mesa, éramos cinco:
o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs
e eu. depois, a minha irmã mais velha
casou-se. depois, a minha irmã mais nova
casou-se. depois, o meu pai morreu. hoje,
na hora de pôr a mesa, somos cinco,
menos a minha irmã mais velha que está
na casa dela, menos a minha irmã mais
nova que está na casa dela, menos o meu
pai, menos a minha mãe viúva. cada um
deles é um lugar vazio nesta mesa onde
como sozinho. mas irão estar sempre aqui.
na hora de pôr a mesa, seremos sempre cinco.
enquanto um de nós estiver vivo, seremos
sempre cinco.”

 

Boa noite :)

Ter | 12.04.16

Escrever – o bem que isto me faz.

Catarina Duarte

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O momento em que sinto o meu cérebro atabalhoado com tantas histórias para contar, em que, separadas, pouco ou nenhum sentido fazem, mas que, unidas, reagem com força e brusquidão. O momento em que sinto estas histórias unirem-se, numa reacção quase química, originando um valente texto que, creio sempre, se pode definir, no mínimo, como razoável. O momento em que as palavras saltam em catadupa cérebro fora, em que se galgam umas às outras, querendo, todas juntas, serem as primeiras a descer até ao teclado deste computador. Todos estes momentos surgem despregados uns dos outros mas tendem a juntarem-se naquela ínfima fracção de segundo onde tudo começa a fazer algum sentido. São momentos felizes. São momentos muito felizes mesmo. Quando consigo consumar uma ideia inicialmente sem nexo, quando consigo inteirar o texto com palavras que se encontravam doidas e dispersas, quando consigo escrever algo que me dá sentido e que dá sentido a quem me lê. São apenas letras cuspidas por estes dedos que mexem e criam aquela mancha que conhecemos como palavras.

O momento em que a escrita flui.

Escrever – o bem que isto me faz.

 

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Dom | 10.04.16

­Aos amigos de toda a vida perdoa-se tudo?

Catarina Duarte

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Há uma linha, muito fina e subtil, que nos une aos amigos de toda a vida. Ela é franzina, quase imperceptível. Mas não é frágil.

Os amigos de toda a vida são uma estirpe de amigos de que gosto particularmente. Não os uno aos irmãos (só quem tem irmãos percebe que é impossível uni-los a alguém), mas uno-os aos quase-irmãos, que também é bem bom.

Os amigos de toda a vida são importantes, entre outras coisas, porque nós podemos ignorá-los. Com verdadeiro desprendimento e sem cerimónias. Vamos lá reconhecer: isto só é possível porque se tratam de amigos de toda a vida.

Aos amigos de toda a vida é-nos permitido brincar a sério. E elevar qualquer brincadeira ao seu expoente máximo: com humor profundo, negro e que magoa. Isto só é permitido a quem partilhou connosco as andanças instáveis da infância e da juventude. Aos outros, era logo relações cortadas, que "este gajo é um idiota e nunca mais o quero ver"!

Nós desesperamos os amigos de toda a vida. E, talvez mais importante, nós desesperamos COM os amigos de toda a vida. Porque podemos. Porque ninguém se chateia. Porque nós e eles existimos por causa disso mesmo!

É bom ter amigos de toda a vida.

Eles compreendem as nossas meias palavras e, agora dou-vos a melhor notícia: vão compreender sempre. Estamos afastados, deixamos de partilhar o dia-a-dia, mudaram de cidade, de país, de continente, de vida, o que quiserem! Mas eles estão lá. Está cientificamente provado que eles estão lá! (bom, fui eu que fiz esta experiência – se calhar, não conta muito para a ciência!)

Uma palavra mal colocada numa mensagem, uma palavra mal referida numa conversa, eles percebem, a sério que percebem, que algo está mal. Há uma cumplicidade inexplicável com os amigos de toda a vida!

À pergunta: aos amigos de toda a vida perdoa-se tudo? Consigo responder, com aquela certeza de quem tem amigos de toda a vida, que sim. Claro que sim. Como se perdoa tudo a um irmão. Porque, embora não o sendo, o facto de simplesmente existirem já os eleva a um patamar muito favorável: o do “quase irmão”.

Vou rectificar. Aos amigos de toda a vida perdoa-se tudo menos a distância. Porque, pese embora nada mude com a distância, ela não camufla as saudades da partilha diária. Ela não esconde a dor da ausência.

Aos amigos de toda a vida perdoa-se tudo? Sim, menos a falta que nos fazem. 

 

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Qua | 06.04.16

Sobre a morte.

Catarina Duarte

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A morte é um pedaço valente desta arte de viver. E vai mesmo acontecer num determinado dia, num dia rigorosamente igual ao anterior em que, provavelmente, vamos acordar, vamos tomar o mesmo banho de todos os dias e o pequeno-almoço do costume, vamos cumprimentar os nossos mais que tudo, vamos avançar para a viragem das horas e não vamos concluir qualquer minuto que começamos.

Guardamos rancor da morte. E, a prova disso, é que nunca abraçamos o tema, nem mesmo com sentido desprendimento. Sempre vi enfiarem a cara na almofada, fazerem barulho para ocultarem o ruído que ela poderá fazer. Sempre assisti ao processo de negação contínua e propositada. Sempre senti o abandono que se faz ao tema.

Faço um esforço para encarar este tema como uma parte importante da vida, numa demente consciencialização de que se o tratar de frente e, preferencialmente, por “tu”, vai ajudar a apaziguar a dor da ausência. O meu lado emocional diz que é impossível e que é uma real perda de tempo alimentar esta informalidade com a morte mas, o meu lado racional, insiste e esforça-se para que eu continue nesta dança do “existe, não existe” na oca esperança de conseguir amortecer qualquer choque que possa vir a ter. 

 

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