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(in)sensatez

por Catarina Duarte

(in)sensatez

por Catarina Duarte

Qui | 22.09.16

Sobre os aeroportos. (mas também sobre as estações de comboio).

Catarina Duarte

No frio dos aeroportos onde os caminhos são pisados por diversas gentes, onde inúmeros perfis e nacionalidades desfilam, onde as mãos escorregam nos pesados corrimões em inox, onde as malas caem aos trambolhões quando aterram nos tapetes, onde existem corpos cansados e esgotados pelas horas passadas a voar, nesses aeroportos, há também corpos frescos pela perspectiva de ida.

 

Nas estações de comboios atravessadas por pessoas que nunca prosseguem silenciosas mas que seguem sempre pontuais, onde os carris se esticam pela estação adentro e onde os comboios caminham com exactidão, nessas estações, há trânsito movido pelo laser e, outro tanto, pela obrigação.

 

A mística destes locais sempre me abraçou com delicadeza. Sempre os provei devotos a sentimentos francos e abertos. São locais onde não há tempo para mentiras ou abalos falsos e infiéis.

 

Tudo o que se vive, transmite-se, de forma plena, na transparência do que se deseja: vai-se porque se quer, regressa-se porque se precisa.

 

São locais de despedidas demoradas e silenciosas. E de abraços sofridos.

São locais de reencontros ansiosos mas, se possível, também serenos.

 

Gosto de aeroportos. Gosto de estações de comboios.

Mas gosto, especialmente, da mixórdia de verdade que estes locais carregam.

 

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Qua | 21.09.16

Control.

Catarina Duarte

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Ando numa de filmes sobre música e, nessa onda, recomendaram-me o Control que relata a história do grupo Joy Division e, em particular, a de Ian Curtis (o vocalista da banda).

É um filme já antigo (é de 2007) e, provavelmente, não é novidade para ninguém. Mas eu só o vi no fim-de-semana que passou e, como os filmes são intemporais, resolvi partilhar.

É um filme pesado. E, de certa forma, sombrio. A preto e branco e com imagens transcendentes (há muito tempo que não via a parte fotográfica de um filme tão bem trabalhada). Para quem gosta de fotografia este é, de facto, um filme a não perder.

Quem gosta de interpretações sombreadas e nublosas, também.

Recomendo muito.

 

 

(Quem já viu o filme?)

 

Ter | 20.09.16

Nada se sente como em português.

Catarina Duarte

Nada se sente como em português.jpg

Há uns dias, uma amiga (das mais antigas – das melhores) que, para mal dos meus pecados, não vive em Portugal (mais uma) escreveu que, quanto mais lhe impigem uma língua, mais ela a rejeita.

O texto era complexo, de uma profundidade que feria e mexeu comigo ao ponto de quase lhe ligar a pedir que voltasse – não o fiz: ainda há muito sensatez neste ser que por aqui habita.

Mas senti (e a mim doeu-me) a saudade a pesar-lhe. Entristeci com o que ela disse e senti aquele apertão doloroso a trancar-me o peito, quando ela referiu que repudia a língua holandesa (a língua que agora a cobre) devido às saudades que tem em viver em português.

Saudades de Camões, de Eça, de Pessoa, de falar com quem com eles cresceu, de se envolver com as pessoas que lhes conhecem os cantos, as descrições, as personalidades. Claro que os pode ler, lá onde agora vive. Mas a envolvente que, neste momento, a minha amiga tem, não lhe permite a vivência fácil de quem com eles amadureceu.

Apertou-se cá dentro a dor da ausência e incapacidade de a resolver – de facto, nada se sente como em português.

E isso, com tudo o que tem de bom, no final do dia, é uma merda.

 

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Seg | 19.09.16

Os gostos discutem-se?

Catarina Duarte

Que os gostos se discutem não tenho a melhor dúvida.

Só a discussão avantajada dos nossos gostos permite que dali saia alguma coisa de jeito. Só o debate frenético, louco e desvairado sobre o que mais gostamos nos fornece o ponto de partida para uma história.

Não se procuram consensos, não se querem aprovações nem, muito menos, qualquer unanimidade amigável.

Procuram-se disputas policromáticas, com pouco norte e muito desvario.

Procuram-se lutas pesadas, com as luvas penduradas, é certo, mas com garra.

Com determinação. Alguma firmeza. E imensa vontade.

Os gostos discutem-se. Disso não tenho dúvidas.

 

Seg | 19.09.16

E (agora) a minha máquina.

Catarina Duarte

Fujifilmx20.JPG

 
Depois do meu texto sobre fotografar com máquina e depois de mostrar algumas das fotografias das minhas férias, perguntaram-me qual a máquina fotográfica que utilizo, a menina dos meus olhos.

Aqui está ela (costuma ser, na verdade, também devido à sua portabilidade, a minha companhia em muitas das minhas férias mas também fins-de-semana): Fujifilm X20. É puro amor.

Mais fotografias (umas com a máquina, outras - por serem mais instantâneas - com telemóvel) aqui Instagram www.instagram.com/catarinaduarte.words

Bom dia e boa semana!

Dom | 18.09.16

À hora do jantar.

Catarina Duarte

À hora de jantar, quando estou na rua e, por vezes, rodeada de prédios, com algumas janelas ao nível dos olhos, eu olho, de forma discreta, brilhante e amável, lá para dentro.

Não é curiosidade directa sobre outras vidas; é antes gostar do aconchego de um lar aquecido pelo embalo de uma luz amarelada, acalmado por uma televisão a funcionar como banda sonora à vida que lá dentro se vive e, muitas vezes, empacotado pelo barulho dos talheres do final de refeição.

Espreito e calha ver famílias. Reunidas à volta de uma mesa, confortavelmente posta, sem cerimónias e com pouco desprendimento. Outras vezes, essas mesmas famílias estão encostadas nos seus sofás e soltam gargalhadas largas e abertas sobre qualquer assunto conversado.

É tão bom saborear a meiguice da vida.

Mesmo quando, a nós, essas imagens vistas e curiosas, como estão e como se situam, não nos pertencem.

 

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