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(in)sensatez

por Catarina Duarte

(in)sensatez

por Catarina Duarte

Qui | 22.06.17

Questão.

Catarina Duarte

Até que ponto é legítimo alteramos a nossa maneira de ser, devido a pressão externa? Pior: até que ponto faz sentido aplicar essa mesma pressão aos outros, forçando-os a modificar aquilo que lhes é inato?

 

Claro que não somos estáticos, sei que é na busca constante da nossa melhoria que nos vamos tornando, francamente, melhores.

 

Mas será que faz assim tanto sentido discutir as nossas diferenças, tourear as nossas relações, em busca da homogeneidade dos seres?

 

Qua | 21.06.17

A culpa não é das crianças.

Catarina Duarte

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Eu tento não verbalizar muitas opiniões sobre a temática “educação de crianças”. Não o faço por ter algum tipo de receio das reação de quem me lê (apesar de reconhecer que é um assunto polémico) mas, sim, porque, na verdade, nós nunca sabemos que crianças nos irão sair na rifa, nem os extremos a que teremos que ir para domar uma potencial fera. 

 

Na semana passada, estava eu na praia, deviam ser umas cinco da tarde (hora em que a praia começa a ser invadida por crianças), ainda meio a dormir (acho que estava a acordar da minha sesta), começo a ouvir um sino. Na verdade, não era bem o som de um sino; mas, sim, o som de um badalo. Sim, leram bem, um badalo. Eu, pessoa que aprecia sossego, no geral, e nas férias, em particular, levanto a cabeça e deparo-me com uma criança, com os seus 4 anos (notem que posso estar, nesta fase do texto, a cometer um terrível engano, pois, de facto, adivinhar as idades dos miúdos não é propriamente o meu forte), acompanhada pelos pais, a baloiçar um pequeno badalo, daqueles em bronze, claramente trazido da casa de férias para entreter a pequena cria.

 

Notem que não tenho nada contra badalos. Contra crianças, até à data, também não. Portanto, este texto reveste de uma imparcialidade sem precedentes. Tenho, porém, algumas coisas contra pais que acham que faz sentido entregar um badalo a uma criança, num espaço público, ainda que tenham as melhores das intenções que, neste caso, seria, claramente, entretê-la.

 

Devido ao meu típico ar de quem está francamente chateada (estava meio a dormir, ok?) e a uma frase pouco simpática que referi mais alto do que era suposto (estava meio a dormir, ok?), a mãe da criança lá caiu nela e retirou o badalo das mãos do puto, não sem antes referir: "com crianças é assim", como que a dizer “isto, quando se tem filhos, tem que se inventar de tudo para eles estarem quietos”. Ora, eu não acho  que “com crianças” seja assim. Eu até admito que haja muita (muita) coisa que não possamos controlar quando temos crianças a nossa cargo mas, lamento, passar-lhes um badalo para as mãos, não é uma delas. 

 

Este é um daqueles casos em que, claramente, os pais sobrepõem o seu descanso ao descanso dos outros. Sempre ouvi dizer que a nossa liberdade começa quando termina a dos outros e eu, talvez por ter ouvido esta frase demasiadas vezes, levo isto mesmo a sério.

 

Dar baldinhos, forminhas, dar uma bola, uns bonecos, uns livros, uns puzzles, parecem-me óptimas opções para entreter uma criança. Dar um badalo, lamento, é só parvo e, pior, é achar que se vive numa ilha, completamente isolado do mundo.

 

Nota: eu sei que a palavra “badalo”, em calão, tem outra definição. Neste caso, é mesmo o que a imagem acima se refere.

Ter | 20.06.17

Regresso a casa.

Catarina Duarte

Há qualquer coisa de suave e doce nisto de regressar de férias. Se queria ficar? Queria. Mas encaixo o recomeço com a mesma força com que agarro mais um dia de praia. No caminho de regresso, tiro os óculos, aqueles que existem com o propósito de acalmar o sol ainda forte que se faz sentir às oito da noite, para cruzar, com os meus olhos já cansados de sal e luz, o amarelo dos campos alentejanos. Relembro sempre: não há campos como os alentejanos; não há luz como a do regresso a casa.

 

(texto escrito no passado domingo, no meu regresso a casa)

Seg | 19.06.17

Ajudar Pédrogão Grande.

Catarina Duarte

Vim de férias e choquei de frente (como quando estamos a dormir profundamente e acordamos abruptamente com um berro) com a tragédia (não há palavra melhor) que afectou Pédrogão Grande.

 

No meio de todos os “ais” e “uis” sempre em busca de culpados, no meio destas redes sociais a arranjarem logo bodes expiatórios, sente-se (sempre) uma enorme onda de solidariedade. Sente-se amor. Sente-se aquele sentimento tão mas tão português, sente-se força, sente-se aquele abraço de Marcelo ao Secretário de Estado da Administração Interna. Somos todos tão humanos.

 

Custa ver as imagens e é importante que nós, que estamos confortáveis nos nossos sofás, que até passamos umas férias descansadas, que fomos e viemos de boa saúde, que tantas vezes não damos o mínimo valor a isto e que, em contrapartida, damos tanta importância a outras coisas, é importante que nós, reforço, que estamos bem, que estamos vivos, que saibamos como ajudar.

 

Como ajudar?

- A Caixa Geral de Depósitos criou uma conta solidária - Unidos por Pédrogão Grande - mais informações aqui;

- Linha Telefónica Solidária da SIC de Apoio às Vítimas - 760 100 100 - Custo da Chamada € 0,60;

- A Rádio Comercial passou a seguinte mensagem:

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 Vamos ajudar?

 

 

 

Sab | 17.06.17

Não gosto da palavra falecer.

Catarina Duarte

Não gosto da palavra falecer. É redonda, enrola na língua e na sua essência. Normalmente, não a utilizo. Mas, ocasionalmente, mais para defender sensibilidades alheias, sou obrigada a usa-la. Acho-a, se quiserem, uma palavra cínica, uma junção de letras que pretende apaziguar o que, de facto, traduz. Uma palavra que quer dobrar a realidade, dobrar a força, apaziguar o ânimo, embalar os sentimentos. Não gosto da palavra falecer. Prefiro a forma incisiva e concreta que enche a palavra morrer. Os "erres" gravam a força do que significa, rematando a dor, fortalecendo o acto. Morrer significa morrer. Por muitas voltas que se dê: morrer significa morrer. Não há palavras suaves para suavizar a mais dura das verdades. Não há pés levantados, saltitando receosos, com medo de chocar. É solidão, escuridão, nudez, frieza e gravidade. Tal como a morte é. Tal como a morte se quer. Tal como a morte existe. Morrer significa morrer.

Sex | 16.06.17

As assinaturas acompanham-nos.

Catarina Duarte

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Todos os livros por mim comprados, são alvo, logo no início do nosso relacionamento, de uma perversa violação. Saco sempre da caneta e, sem dó nem piedade, registo para todo sempre, a sua primeira proprietária. Assim, na sua primeira folha, escrevo o meu nome juntamente com o mês e o ano de compra. Aqui há uns tempos, herdei alguns livros dos meus pais, naquilo que foi uma espécie de Natal antecipado. Trouxe para férias, para saborear durante esta semana, o Triunfo dos Porcos, de George Orwell, que veio nessa remessa de livros adquiridos. Ontem, quando folheava o livro, cruzei-me com a assinatura do meu pai, no verso da sua última folha, e com a data de compra do livro, um 4/7/77 alongado e fino, como é sempre a sua forma de escrever. A assinatura, essa, nos últimos 40 anos, mudou. Tornou-se ainda mais alongada, ainda mais fina, com o nome ainda mais esbatido, ainda mais arrastado, mas onde ainda se detecta, o A de António, de forma perfeita e transparente. Mudamos. Mudamos sempre. As assinaturas acompanham-nos. Disso não tenho dúvidas.

Seg | 12.06.17

Banco de Jardim.

Catarina Duarte

Não foram as árvores, corretamente esticadas, que serviam de moldura ao banco de jardim da Praça de Espanha, que me chamaram a atenção. Também não foi, tão-pouco, o banco que se endireitava simetricamente entre elas. Foram eles os dois, velhinhos e encurvados, enrolados sobre si mesmos, a dividir o livro que ela mantinha seguro no seu colo. Era um livro grosso, de onde saiam dois marcadores, em partes diferentes da história. Cada um lia à sua velocidade, cada um lia ao seu querer. O amor quer literatura, disso não tenho dúvidas, mas também quer calma, mas também quer paz. E quer, especialmente, árvores e bancos do jardim e o mesmo livro lido, ao mesmo tempo, a duas velocidades. 💛

Qua | 07.06.17

Neste país, és culpado até seres considerado inocente.

Catarina Duarte

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Hoje de manhã, enquanto tomava uma bica numa pastelaria ao pé de casa, começavam, na televisão, os esclarecimentos de António Mexia sobre o processo onde está envolvido e, no qual, foi constituído arguido.


Tinha algum interesse em ouvi-lo, mais por curiosidade do que por outra coisa qualquer, porém, o barulho das chávenas e das conversas ventiladas ao compasso do pequeno-almoço abafavam completamente todo o seu discurso.


Ao meu lado sentaram-se três pessoas com idades a rondar os 50 anos. Uma delas, com o timbre de voz claramente levantado, dizia para os outros dois - e para quem mais quisesse ouvir - que "este" devia era ser preso junto com o Salgado e todos os outros "gatunos" que para aí andam. Continuou no seu chorrilho de divagações, dizendo frases como "ele que fosse mas é roubar para a estrada" e "é preciso ter muita vergonha na cara para aparecer na televisão para prestar esclarecimentos".


Obviamente que aquela situação me desagradou, não gosto de estar num café, relativamente cedo, a levar com estes filmes, e lancei-lhe imediatamente um olhar duro, o meu olhar possível para aquela hora (crítica) da manhã, que despoletou imediatamente como reação nos companheiros da dita pessoa, que lhe disseram, de forma pouco discreta, para falar mais baixo.


Fiquei a pensar que a PJ, o DCIAP e os demais organismos envolvidos têm, de facto, feito um trabalho notável no que toca à luta contra a corrupção mas, bolas!, acho incrível a forma como as pessoas já nem dão o benefício da dúvida. 


Qualquer cargo alto, de qualquer empresa, qualquer cadeira de poder é imediatamente associado a corrupção! Na cabeça daquele senhor - e, seguramente, de muitos outros senhores - qualquer arguido é culpado! Mas não é! Num Estado de Direito, como o nosso, não é culpado! Num Estado de Direito, como o nosso, há a presunção da inocência. Num Estado de Direito, como o nosso, uma pessoa não pode ser condenada, em praça pública, quando criminalmente ainda não o foi! Não faz sentido. 


Espero, sinceramente, que o senhor que apanhei no café, esta manhã, nunca seja indiciado de nada, espero que tenha a consciência tranquila no que toca às contra-ordenações na estrada, às multas da EMEL e às quotas do condomínio, espero que tenha uma vida exemplar, um registo imaculado e todas as suas prestações em dia mas espero, especialmente, que nunca seja apanhado numa curva qualquer, mesmo no meio de um incidente que lhe seja completamente alheio, e que não apanhe outro, igual a ele mesmo, que o condene muito antes de o ser verdadeiramente.