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(in)sensatez

por Catarina Duarte

(in)sensatez

por Catarina Duarte

Qui | 10.08.17

Lufada de ar fresco.

Catarina Duarte

Muitas das conversas que tenho, ao longo do dia, são um pouco complexas.

 

A verdade é que passo grande parte dos meus dias a decidir. Tomar decisões pode parecer uma ideia genericamente gira mas, na prática, desgasta bastante. Tenho a certeza que a necessidade tão grande que tenho em dormir advém do cansaço que adquiro ao longo do dia.

 

De vez enquando, acontece parar e dar por mim a ter conversas banais, onde não tenho que estar com muita atenção, onde ninguém exige uma decisão ou, tão-pouco, uma opinião. São conversas onde não ouço um “o que é que achas?”, muito menos um “qual julgas ser a melhor opção?”.

 

Há relativamente pouco tempo, consegui baixar as defesas e assistir a uma conversa que, de tão leve, me fez sentir francamente feliz.

 

Os diálogos eram simples e desenrolaram-se entre as pessoas que estavam comigo: eu era, neste caso, apenas espectadora e era-o de forma bonita, interessada mas absolutamente relaxada, sem qualquer pressão para intervir.

 

A conversa criou-se em torno das parecenças entre as mães, que falavam à minha frente, e os filhos destas, que brincavam ao nosso lado: o que é que tinham do pai, o que é que tinham da mãe e o que é que não tinham dos dois.

E riam-se e concordavam e olhavam-se e olhavam para os filhos e voltavam a rir.

 

E eu, bom, eu dei por mim a agradecer por ninguém me perguntar se eu achava se os olhos eram parecidos com os do pai (não eram) ou se o feitio era o da mãe (também não era) e absorvi esta conversa, leve, fresca e fofa, sem qualquer consequência grave caso alguma opinião não fosse a correta, e vi-a, à conversa, como uma lufada de ar fresco, como aquela brisa fresca e fina matinal, e deixei-me ficar, a ver e a analisar, mas sem nunca dizer as parecenças e diferenças entre os que à minha frente estavam.

Seg | 07.08.17

Residencial Oliveira.

Catarina Duarte

A Residencial Oliveira, que se endireitava envelhecida nas ruas da Madragoa, chama-se agora River Hostel. Os azulejos da sua fachada continuam azuis, continuam antigos, continuam iguais: uns estão completos, outros, a maioria, estão partidos. Por cima da porta, ofusca um néon amarelo com o novo nome da Residencial Oliveira.

 

O Café Central, que se desenhava desprendido no declive de Alfama, chama-se agora Lisbon Lounge and Bar. Este manteve a mesma máquina de café, o mesmo balcão com gordura, as mesmas garrafas empilhadas e, até, as mesmas cadeiras de ferro que o Café Central tinha quando esse nome usava.

 

Os táxis descarregam turistas, entornam-os nas Residenciais Oliveiras, nos Cafés Centrais que já o foram, nesta nova cidade que se embelezou com nome modernos, sempre estrangeiros, sempre em inglês, sempre com Lounge, com Hostel, com Rooftop, a acompanhar.

 

Esta cidade, que mantém a tradição, que mantém, apesar de tudo, a sua origem, denomina-se agora com nomes pomposos.

 

Até aguentamos bem a substituição do português por nomes estrangeiros e, enquanto este equilíbrio se mantiver, nomes novos mas iguais a nós mesmos, enquanto for só e apenas isso, até podemos dizer que não nos importamos com esta nova realidade e que Lisbon, apesar de tudo, continua a ser a antiga e bonita Lisboa.

Sex | 04.08.17

Góticas.

Catarina Duarte

Sim, são velhotas, as góticas que se passeiam pelas ruas da Graça.

 

Andam sempre juntas, numa bonita e equilibrada parelha.

 

Fugiram ao preto do luto e adquiriram o preto do gótico: maquilham-se de preto, fazem as unhas de preto, usam tachas e colares com caveiras, os seus cabelos muito brancos, muito ao alto, apanhados com grossos adereços pretos e prateados, contrastam com o preto das roupas e acessórios que usam.

 

São extravagantes na forma de vestir apesar de só usarem esta cor acabada.

 

Acho-lhes piada. Gosto sempre bastante de quem não sucumbe ao destino, ao preto da idade, agrada-me sempre a ideia de dar a volta à inevitabilidade da vida.

 

Como se, apesar de fatal, apesar de óbvio, não fosse nem fatal, nem óbvio, e pegassem em tudo e, do tudo fizessem, com o twist necessário, a vida brilhar de outra forma.

Qui | 03.08.17

Minimalismo.

Catarina Duarte

Devíamos pegar no minimalismo da decoração e encastra-lo na nossa vida.

 

Devíamos pegar nas casas brancas, na pouca informação que agregam as suas paredes e trazer essa leveza para os nossos pensamentos.

 

Somos seres recheados de camadas, apinhados de recortes, completos na nossa essência emaranhada.

 

Era bom, era tão bom, encerrarmos a complexidade em nós e fazer descer, pela simplicidade que também nos faz, o melhor daquilo que somos.

Qui | 03.08.17

Um dia como os outros.

Catarina Duarte

Quando ocorrem desgraças como aquela que aconteceu ontem na Praia de S. João da Caparica, onde uma avioneta caiu na praia provocando a morte a dois banhistas que por ali estavam, quando estas tragédias ocorrem tão, mas tão perto de nós, afinal, podíamos ser nós (ou alguém dos nossos) a estar naquela praia, naquele dia, àquela hora, penso sempre no quanto a vida nos dá mas também no quanto nos tira, sem qualquer remorso, sem qualquer culpa e sem nunca - nunca - pedir licença.

 

Acabamos todos por ser umas marionetas, entregues à vontade do destino. Aquelas pessoas levantaram-se de manhã, vestiram os seus fatos-de-banho, escolheram a roupa de praia, preparam as toalhas, as bolas, as lancheiras, as garrafas com água, meteram-se nos seus carros, iam, provavelmente, aproveitar um descansado dia de calor quando, do nada, uma avioneta aterra no areal e lhes ceifa a vida.

 

Andamos a vida toda a programar o nosso futuro, a selecionar as escolas por onde andamos, os cursos que queremos tirar, as faculdades para onde queremos ir, os empregos a que devemos concorrer, controlamos tudo ao detalhe, a casa, o carro, os restaurantes e, na imprevisibilidade da vida, dos dias que se sucedem, somos arrastados maré fora, num dia em que acordamos igual a todos os outros e fazemos a vida como sempre.