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(in)sensatez

por Catarina Duarte

(in)sensatez

por Catarina Duarte

Qui | 29.03.18

Pais com nomes de filhos e filhos com nomes de pais.

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De entre todas as minhas manias, a que eu mais gosto é bem capaz de ser aquela que me leva a estar sempre a identificar situações. Não precisam de ser estranhas. Não precisam de ser bizarras. Basta que sejam apenas situações.

 

E há mesmo Afonsos, Andrés e Pedros que são pais de Caetanos, de Antónios e de Albertos.

 

Daqui a uns anos, se tudo correr conforme planeado, teremos, finalmente, filhos com nomes de filhos e pais com nomes de pais: aí, os Caetanos, os Antónios e os Albertos terão os seus Afonsos, Andrés e Pedros e tudo se equilibrará.

 

Boa quinta-feira :)

 

Ter | 27.03.18

As receitas não são como os brincos.

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Há a das empadas de Portalegre que a minha amiga Filipa me traz mas podia falar de outras, como a de uma mousse de chocolate especial ou também a de um bolo com fios de ovos.

 

As receitas não são como os brincos que ficam pendurados nos guarda-joias mas também não são como a bondade que se enterra quando a pessoa morre.

 

São um meio-termo difícil de definir. Se estiverem escritas, do mal o menos, mas, caso contrário, ficam a boiar numa espécie de adivinha permanente: será que se juntava um pouco de mel ou era só açúcar? não me lembro de levar leite mas, sem leite, como se consegue aquela consistência? será que o açúcar vai a caramelizar antes ou coloca-se direto?

 

Provavelmente, as receitas são como as saudades que, à custa de as tentamos acalmar, nos levam também a questionar: será que a voz era mesmo esta que me recordo? lembro-me de ter muitas sardas, mas será que eram assim tantas? as mãos eram tão frias, mas será que eram geladas?

 

As receitas não são como os brincos nem como a bondade. Revestem-se de saudade, sempre. Sim, as receitas são saudade.

Ter | 27.03.18

A culpa é da vida.

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Nós somos seres com uma capacidade incrível para justificar tudo. Passamos os dias a dizer que isto correu bem porque isto correu bem ou que aquilo correu mal porque aquilo correu mal.

 

Percebo a ideia mas nunca pomos os louros em quem de direito: na vida. E isso é injusto. É injusto e é pesado de carregar aos ombros porque dá-nos mais importância do que, se calhar, temos.

 

A pergunta que se impõe é mesmo esta: em não sei quantas horas de não sei quantos dias, não terá ela, a vida, alguma culpa no cartório, por tudo correr como corre?

Ter | 27.03.18

Ser Spoiler ou Não Ser, eis a questão.

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Eu vivo com uma pessoa que acha que, sempre que se diz o nome de um filme, já se está a ser spoiler. Dado que eu vivo apenas com uma única pessoa, é fácil descobrirem de quem é que eu estou a falar.

 

É também altamente provável que eu esteja a exagerar: se eu disser apenas o nome do filme, não me acontece nada; mas se eu disser, sei lá, o tema do filme (por exemplo, é sobre o leão que vai ser Rei de tudo o que a vista alcançar), já cai o Carmo e Trindade.

 

Ah e perguntam e exclamam vocês: e se o nome do filme for, por exemplo, Churchill? À partida, um filme com este nome não vai falar sobre o Ronaldo, portanto, a pessoa com quem vives, já deve saber para onde vai! Sim, exato, neste contexto acho que está tudo bem.

 

De todas as ignorâncias do mundo, esta é capaz de ser aquela que mais me faz confusão. Não pertenço ao grupo que quer saber o final do filme antes de o ver, mas, bom, saber – minimamente – a história não nos tira nenhum pedaço. Ou tira?

 

Confesso que pertenço àquela fatia da população que gosta de saber (ligeiramente) o que a espera quando decide ver um filme, porque não vejo todos os géneros. Desculpem-me aqueles que papam tudo e mais um par de botas, mas gosto de decidir previamente onde vou gastar o meu tempo. Tenho também consciência, para o caso de se estarem a interrogar, que me pode passar muita coisa boa ao lado. No geral, vivo bem com esta decisão.

 

Leio um bocado sobre o filme, investigo minimamente, basicamente, não vou às escuras ao cinema (bom trocadilho, Catarina, bom trocadilho).

 

Qual a diferença, então, entre ser spoiler e falar da sinopse com algo mais? Gigante!

 

Nos meus artigos de opinião sobre filmes (mas também sobre livros), eu não sou spoiler (quando acho que vou um bocadinho mais além do que devia, faço questão de dizer no início do artigo para as pessoas estarem preparadas e interromperem a leitura, se assim o entenderem). Eu falo sobre o filme como se de uma sinopse se tratasse e, claro, dou o meu ponto de vista, falo dos ângulos que considero serem os mais interessantes, digo porque é que o filme me marcou, enfim, dou a minha opinião.

 

É isso que também procuro quando ando à caça de filmes para ver.

 

E vocês? São daqueles que passam bem sem lerem sugestões ou crónicas sobre os filmes e vão à descoberta ou gostam de ir com uma ideia do que se vai passar?

Seg | 26.03.18

E sobre os podcasts?

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Depois de eu ter referido que ouvia podcasts num dos textos aqui do blog, recebi algumas mensagens a perguntar quais é que ouvia. Bom, na verdade, agora que penso nisso, foi só mesmo uma mensagem. Porém, achei que seria um bom tema para abordar.

 

Comecei a ouvir podcasts porque, por um lado, sempre gostei de entrevistas e de conversas, assim no geral, e, por outro, porque queria rentabilizar o tempo que passava no carro com algo que me desse realmente alguma coisa de útil. Eu sou daquelas que absorve imensa informação através de conversas e aprendo mesmo muito quando ouço entrevistas. Bom, no limite, se tal não acontecer, dou umas valentes gargalhadas pois, alguns, são muito giros.

 

Sem mais demoras, aqui estão eles:

 

- Fala com Ela, com Inês Meneses – A Inês Meneses é da Rádio Radar e eu sou fã do seu trabalho. Neste podcast, ela tem convidados e conduz a entrevista de forma ímpar. A Inês tem uma característica que, para mim, é fundamental para se ser um bom entrevistador: gosta de ouvir. Por consequência, deixa o entrevistado falar e falar e falar. São deliciosos;

 

- Cada Um Sabe de Si, com Diogo Beja e Joana Azevedo – É um podcast da Rádio Comercial. Neste podcast, a Joana e o Diogo têm convidados e, por vezes, as conversas são hilariantes. Com o João Manzarra aprendi uma coisa importantíssima: pode-se fazer toda a força do mundo no cotovelo que ele nunca nos vai doer. Não é fantástico?;

 

- Governo Sombra, com Carlos Vaz Marques, Pedro Mexia, João Miguel Tavares e Ricardo Araújo Pereira – Este dispensa apresentações: toda a gente já ouviu falar do Governo mais temido da televisão portuguesa. Ouço em podcast quando não consigo apanhar na TV;

 

- PBX, com o Pedro Mexia e a Inês Meneses – É uma parceria entre o Expresso e a Radar, fala sobre a atualidade cultural. É mensal.

 

São, basicamente, estes mas estou sempre a testar novos.

 

Têm alguns para a troca?

Dom | 25.03.18

Estevão.

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Os pais soletravam-lhe o nome, carregando em cada sílaba, enquanto o ajudavam com o puzzle que tinham levado para o manter entretido. Não usavam um diminutivo, falavam-lhe o nome inteiro, mas devagar: ES-TE-VÃO.

 

Chamou-me à atenção por não ter mais do que 2 anos e ter aquele nome tão incomum para aquela idade mas, também, por ser muito loiro e ter poucos caracóis.

 

O Estevão encontrava-se a encaixar as peças do puzzle, algumas viradas ao contrário, nos buracos errados, e os pais almoçavam o seu cozido cheio e o seu tinto corpulento.

 

Entre uma palavra mal amanhada e outra do Estevão, a mãe lá lhe endireitava uma peça para que ele conseguisse dar seguimento ao jogo e entornava mais um pouco de tinto no seu copo que, de forma alheada, segurava na mão direita, enquanto seguia conversa com o pai.

 

O pai passava, entre uma garfada na couve rija e uma outra no chouriço de sangue, a mão no cabelo do Estevão, que continuava entretido com o seu puzzle.

 

Às tantas, o pai sussurrou ao ouvido do Estevão, relativamente baixo mas não o suficiente para que eu não o conseguisse ouvir: o pai ama-te muito, Estevão.

 

O nome da criança - Estevão - saiu-lhe como antes já o tinha ouvido, carregado em cada sílaba, sem qualquer diminutivo para o suavizar: ES-TE-VÃO.

 

O pai continuou a beber o seu tinto corpulento, que ajeitava o cozido que ia devorando, enquanto, entre novas garfadas, lhe afagava o cabelo muito loiro e com poucos caracóis.

 

Há, de facto, recados que não podem ser adiados, pensei.

Sab | 24.03.18

Opinião: O Que Sabemos do Amor, de Raymond Carver.

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Aqui há uns tempos escrevi:

 

“Estou a ler um livro que me anda a inquietar.

Ontem, por exemplo, tive que o largar, porque já era tarde, já estava meia adormecida e estava com receio que me assombrasse o sono – resolvi pegar noutro.

É muito poder dado a um aglomerado de folhas. Muito poder. Mexerem com os nossos sentimentos, ainda é como o outro, mas, bolas!, mexerem com o nosso sono é, absolutamente, brutal (caso não fosse muito cansativo).

Vou falar sobre ele brevemente - acho que este escritor merece ser partilhado ao mundo.

Curiosos?“

 

Foi engraçado porque, assim que escrevi o texto acima, algumas pessoas vieram-me logo perguntar qual era o livro. Aqui estou eu para revelar tudo.

 

O livro chama-se "O que sabemos do amor", de Raymond Carver.

 

Carver foi um escritor americano que apenas viveu 50 anos e que ficou conhecido, essencialmente, pelos seus contos. O facto de se ter casado muito cedo e de ter que sustentar a família, levou-o a deixar a escrita de lado. Há imensa confusão com as edições dos contos de Carver. Eu comprei e li a que está na imagem, publicada pela Quetzal, traduzida por João Tordo, pois os contos estão completos. Neste livro encontramos, então, a versão original de 17 contos escritos por Carver.  No livro onde estes textos estão reproduzidos (e, também, o mais conhecido) “De que falamos quando falamos de amor”, mais de 50% dos textos estão cortados. Portanto, quando comprarem, assegurem-se que têm a versão dos contos completa.

 

Eu adorei este livro. Carver escreve maravilhosamente bem, de uma crueza inimaginável, sem qualquer mel para adoçar o que de mais ácido existe em nós.

 

Quando lemos os seus contos, estamos sempre com o coração na boca, não pelas frases pomposas e cheias de bibelots, mas devido à dureza que cada ideia, lugar ou pessoa, em si encerra.

 

Destaco 4 contos: “O Caso”, “Uma Coisa Pequena e Boa”, “Se tu assim o quiseres” e “Principiantes”.

 

O conto “Principiantes” tem uma descrição do que é o amor que é absolutamente deliciosa pelo realismo que representa. Fala sobre o quanto amamos quem hoje temos ao lado, o quanto amámos quem por nós passou, a forma como não conseguimos compreender como amámos tanto quem connosco viveu e, especialmente, a nossa capacidade de acabar e de recomeçar.

 

Os contos são envolventes, alguns duros, na maioria duros, mas a dúvida permanece sempre, deste título que, de afirmação, transformo em pergunta: O Que Sabemos do Amor?

 

Leiam. É um dos livros da minha vida.

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