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(in)sensatez

por Catarina Duarte

(in)sensatez

por Catarina Duarte

Ter | 17.07.18

VGM

Catarina Duarte

no que escrevi me traduzi
e traduzi outros também
e traduzindo me escrevi
e a escrever-me fui eu quem
das várias coisas que senti
fez sofrimento de ninguém.
depois risquei, depois reli
e publiquei: assim porém
havia sempre mais alguém
para o chamar então a si,
também vivendo o que menti
mas como seu, mas como sem
ter sido meu o que escrevi
fosse por mal, fosse por bem.
é sua a vez. e que mal tem?
no que escrevi sobrevivi.

 

(Moura, Vasco Graça, Testamento, Lisboa: ASA, 2001)

 

Tirei daqui.

Ter | 17.07.18

Só as feias aparecem na televisão. Até que enfim!

Catarina Duarte

 

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Aparentemente a FIFA pretende diminuir a frequência com que aparecem mulheres bonitas na televisão, no decorrer de um jogo de futebol. Parece que esta ideia se vai estender para outros eventos para além do Mundial de Futebol que agora terminou.

 

Sempre que leio algo do género, penso: “Pronto. É agora que deixo de ter fé na Humanidade”. Mas, claro que, 5 segundos depois, após ter comido uma Conchanata, recupero toda e qualquer crença que, eventualmente, ainda tenha. Sou muito fácil: nada como a comida para me fazer acreditar nas pessoas, na vida, no mundo, em geral.

 

O ponto de partida para esta ideia foram algumas queixas apresentadas à FIFA. Antes de mais dizer que tenho um especial fascínio por malta que se indigna com assuntos de elevada relevância mundial como é, na verdade, este, e que não se fica pela indignação familiar, aquela que comentamos no seio dos que nos são mais queridos. Não! Dedicam-se a desenhar toda uma teoria que explique e comprove o seu ponto de vista. A seguir, formalizam-na e entregam-na ao organismo competente. Adoro e recomendo. Depois, gostava que me mostrassem o teor das mesmas pois quase que aposto, era mesmo capaz de arriscar os 5 dedos da minha mão direita, que foram reflexo de um trabalho duro de algumas feministas obcecadas-e-extremistas-sem-nada-para-fazer-na-vida.

 

Há quem alegue que há alguma razão nesta brincadeira pois, as imagens que passam na televisão são, na sua maioria, de mulheres lindas e maravilhosas e que faz sentido haver mais equilíbrio.

 

Não tenho dados para avaliar quantas mulheres bonitas passam na televisão versus mulheres feias mas… há alguém que, realmente, os tenha? E, já agora, como vai ser composto o comité de avaliação de beleza feminina? Vai estar um tipo, em todos os estádios, a dizer: “filma aquela, filma aquela. Não, aquela não, que é gira e ainda temos problemas!”? Recomendo que miúdas que frequentem estádios de futebol passem a ir de burka. Assim não correm riscos. Parece-me uma solução tão razoável como proibir filmagens a miúdas giras.

 

Infelizmente, isto é consequência da forma extremista com que se vê determinados assuntos. Infelizmente, isto é condicionar a forma como os operadores de câmara trabalham e colocar-lhes eternas dúvidas sobre o que, efetivamente, devem passar nas nossas televisões. Dúvidas abstratas, diga-se de passagem, o que deve facilitar bastante o seu trabalho! Infelizmente, isto é só mais uma forma de censura, desta feita, censura feminista (acabei de criar este conceito - faz sentido?).

 

Já agora: a seguir, o que é que vão propor? Vai passar a ser obrigatório contratar apenas atrizes com caras desfiguradas, proibir contas de instagram de modelos com corpos esculturais, vetar o acesso, aos areais portugueses, a bons rabos? Aviso já, que concordo! Não gosto de me sentir diminuída numa simples ida à praia.

 

Estamos no bom caminho.

 

Seg | 16.07.18

De certeza que há vidas perfeitas: eu é que não conheço nenhuma.

Catarina Duarte

 

Andamos embriagados com tanta perfeição que eu sinto que estou constantemente de ressaca. Juro.

 

São umas atrás das outras, as fotografias de pequenos-almoços coloridos e de frases motivacionais com uma letra fina e corrida, que partilham, sem qualquer cautela, sem qualquer respeito, nas redes sociais.

 

Começam logo pela fresquinha, para nos sentirmos com força para agarrar a bela-vida-que-temos-a-sorte-de-viver. Carpe diem, meus queridos. No final do dia, claro, aproveitem o pôr-do-sol porque, ao que parece, Sol só há um e ainda nos restam dois olhos para o conseguirmos ver.

 

Com tanta imagem bonita, apetece-nos logo ser melhores pessoas mas depois (aquele choque de realidade) só temos pão congelado. Lá iniciamos o processo de comer as mesmas torradas de todos os dias. São boas, disso não tenho dúvidas, mas pouco fotogénicas. Mais para o fim, e porque andamos ali a enrolar e a enrolar e a enrolar e porque temos que nos fazer à vida porque a morte é certa, lá as empurramos, às torradas de todos os dias, com o chá que fizemos à pressa, de camomila ou tília, sem nada de muito exótico, sem nada de muito diferente.     

 

O mesmo se passa com as relações. São imensos os amores que surgem alinhados nos quadradinhos do instagram. São bonitos, estão encaixadinhos e todos têm a luz certa. Adoro vê-los porque fazem aquele efeito perfeito, aquele desenho perfeito, aquele feed perfeito.

 

O meu problema, com esta informação lindíssima, é que quando a começo a receber ainda estou a acordar e ainda está aquele ambiente de corta à faca no quadradinho perfeito que é a nossa casa, porque é necessária, exatamente, uma hora para eu reconhecer a vida perfeita que tenho e perder a vontade falecer.

 

Não nasci com a capacidade de fotografar pequenos-almoços perfeitos quando o que quero é que me alimentem devagarinho, com o objectivo concreto de evitarem que eu morra.

 

Na generalidade dos momentos da minha vida, sou feliz. O meu pai costuma dizer que eu vejo sempre o lado bom das viagens e dos restaurantes, por exemplo, porque eu sou uma pessoa feliz. Apesar de ter os meus momentos de indignação, de desnorte, de querer largar tudo e passar o resto da vida a fazer mergulho numa ilha perdida o meio do Pacífico, reconheço que o meu pai tem alguma razão.

 

No meio da perfeição que é a minha vida, dos meus pequenos-almoços coloridos e das minhas manhãs lentas e cheias de frases bonitas que vou citando para o ar enquanto percorro o corredor entre o nosso quarto e a cozinha, no meio da minha vida alinhada, organizada e coerente, de vez enquanto surgem fotografias completamente desfocadas e que enchem qualquer pessoa de orgulho. Como esta:

 

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Provavelmente, foi a meio do concerto dos Pearl Jam. Mas também pode ter sido no concerto dos The National ou de qualquer outro, neste Alive que agora acabou.

 

E, com isto, concluo: abraços desfocados no meio de três dias de festival dão-me toda a energia necessária para acreditar que só preciso de sobreviver à hora mais difícil dos meus dias, aquela que existe logo após acordar, e que, quando ultrapassada, sem qualquer excepção, consigo ser, quase sempre, a pessoa mais feliz do mundo. Mesmo sem pequenos-almoços fotografáveis ou frases bonitas para inspirar a vida dos outros.

 

Desculpem. Mas faço o melhor que consigo.

Ter | 10.07.18

Cada um trata de uma coisa.

Catarina Duarte

Tenho um grupo de amigas onde uma delas está encarregue de marcar os jantares onde nos encontramos e as restantes (onde estou incluída) estão incumbidas de aceitar.

 

Ninguém se chateia, ninguém cobra, ninguém manda vir.

 

Há mesmo um lugar para cada um de nós nas diferentes dinâmicas onde nos encontramos.

 

No geral, não me parece que, para as coisas resultarem, temos que nos encarregar todos das mesmas coisas. Uma divisão de tarefas, mesmo que nunca debatida, desde que funcione e seja aceite por todos (ainda que tacitamente), é suficiente para fazer o mundo girar.

 

Ter | 10.07.18

Dente torto à frente.

Catarina Duarte

É como ter um dente torto à frente. Rimos e, na maior parte das vezes, até o fazemos com vontade pois, como bem se sabe, o que define a intensidade do riso não é, certamente, a qualidade dos nossos dentes.

Mas quando nos apercebemos da intensidade e da exposição que o riso oferece e nos lembramos que temos um dente torto à frente, colocamos inconscientemente a mão à frente da boca.

Sim, é como ter um dente torto à frente.

Escondemos tanta coisa de que nos orgulhamos porque não queremos que reparem no nosso dente torto à frente.

Seg | 09.07.18

Dizem os outros.

Catarina Duarte

“Deves saber que eu já não sou um grande apaixonado por literatura. Em tempos, lia muito, tudo o que tivesse à mão. Receio que seja a má literatura a encher de sentimentos falsos a cabeça de homens e mulheres. As tragédias artificiais da humanidade derivam, em grande parte, dos conselhos mentirosos de certos livros, que acabam por influenciar a vida das pessoas. A autocomiseração, as mentiras patéticas, as artificiosas complicações são, na maioria dos casos, consequência dos ensinamentos de uma literatura falsa e ignorante, ou, simplesmente, desonesta.“

 

A Mulher Certa – Sándor Márai

Seg | 09.07.18

Boston - Museus - Quais ver?

Catarina Duarte

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Ficou em falta – e completamente esquecido - o meu post sobre os museus de Boston. Não sei se o vosso interesse se mantém mas aqui vai ele.

 

As minhas viagens nunca ficam completas sem visitar os museus que lá existem. Não acontecia quando viajava, em pequena, com os meus pais e não vai acontecer agora que sou maior e vacinada.

 

Sei que muito da cidade se vive nas ruas, passeando nos seus jardins e parques, quando existem, e vivendo as suas esplanadas, quando existem, mas há toda uma realidade que se agarra vivendo o que os museus nos têm para oferecer.

 

Nos dias que estive em Boston visitei os seguintes:

 

John F. Kennedy Presidential Museum & Library – Eu adorei este museu. Conta-nos alguma coisa da vida pessoal e muito sobre a vida política de John Kennedy (antes que se galvanizem: a parte das amantes e dos seus casos foi amplamente omitida, o que se compreende). O edifício é muito giro e, em determinada parte, tem uma vista fabulosa e uma enchente de luz. Recomendo tomarem um café no seu bar. O museu começa com um curto filme introdutório e daí avançamos para o museu propriamente dito. Este museu foca também o seu relacionamento com a sua mulher, Jacqueline Kennedy Onassis, e não somos poupados (e ainda bem!) ao seu guarda-roupa. Há, de facto, mulheres com pinta que nunca mais acaba. E não são sardas.

 

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Museum of Science – o Museu da Ciência é um clássico que eu gosto de ver sempre que consigo. Este é mesmo ao lado do local onde se apanha o Duck Tour e, desta forma, foi um 2 em 1 perfeito, para além de que ainda tive desconto na aquisição do meu bilhete. Por ser totalmente fora da minha área profissional, mas por ter tido sempre um carinho especial pela área da ciência (estive durante muito tempo indecisa se haveria de seguir Gestão ou Engenharia), sempre que posso afundo-me nos seus museus. Vale a pena a visita, apesar de muitas das “experiências” lá vistas, também estejam presentes noutros Museus da Ciência de outros países. A vista deste museu, mais uma vez, é imperdível.

 

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Isabella Stewart Gardner Museum – Isabella Stewart Gardner nasceu em Nova Iorque, em 1840. Depois de se casar com  Jack Gardner, mudou-se, com o marido, para Boston. Isabella desenvolveu uma vida intelectual muito activa em Boston e começou a adquirir inúmeras peças. Em 1899, iniciou-se a construção do seu museu e, em 1901, com o museu completamente construído, ela foi viver para o seu 4.º piso. Para além do edifício, que é muito giro, neste museu podemos ver pinturas, esculturas, móveis e muitos outros objectos da Europa Mediavel, Itália Renascentista, e do século XIX de França, entre outras coisas.

 

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Museum of Fine Arts – Por último, fala-vos do Museum of Fine Arts. É um museu enorme e, para muitos, considerados como um dos melhores do mundo. Não é barato mas muito, muito diversificado. Recomendo que o visitem com tempo. Nele encontrar-se não só arte americana mas arte de toda a parte do mundo: desde africana, asiática, egípcia, grega, entre tantas e tantas outras. É possível ver também (e em quantidade) arte contemporânea. Tem muitas exposições temporárias e, por isso mesmo, sempre que regressar a Boston terei mais uma boa razão para o visitar :)

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O meu primeiro texto sobre a cidade de Boston está aqui.

 

Já foram a Boston? Gostaram? Visitaram algum destes museus?

Sex | 06.07.18

Queda para o negócio.

Catarina Duarte

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Julgo que os portugueses, de uma forma geral, até têm alguma queda para o negócio pois somos perspicazes e trabalhadores - duas características fundamentais para alcançar o sucesso.

 

Claro que não dispensamos aquela nossa tão singular característica chamada chica espertice. Mas, contas feitas, até somos bons no campeonato da negociata. Disso não há muitas dúvidas.

 

Porém, ocasionalmente, apanho com cada uma, que até parecem duas. E só penso: isto é mesmo não querer fazer dinheiro. Tenho algumas na manga para contar mas vou-me focar na que aconteceu ontem.

 

Perto do meu escritório há um novo restaurante que, por acaso, é uma churrasqueira e que, por acaso, está relativamente próximo de um outro restaurante que, por acaso, também é uma churrasqueira. Isto é que é ter visão, não é?

 

Bom, a churrasqueira mais antiga, aqui há uns dias, estava com fila e eu e o meu irmão resolvemos testar a churrasqueira nova.

 

Essa nova churrasqueira estava vazia. Imediatamente após o balcão, tem uma mesa, de pé alto, onde se sentam, à vontade, quatro ou cinco pessoas. Entrámos e dissemos que éramos duas pessoas. Refiro novamente que a churrasqueira nova estava vazia.

 

A pessoa que estava atrás do balcão disse que, infelizmente, só trabalham em regime de take away. Eu respondi: "não nos podemos sentar ali naquela mesa para almoçar num instantinho?". A resposta que obtive foi que não, que só trabalhavam em regime de take away.

 

Ora, como muito bem sabem, eu sou uma pessoa bastante curiosa e perguntei, então, com o meu melhor e mais interessado sorriso, qual era a razão, se só trabalham em regime de take away, de terem uma mesa no estabelecimento.

 

A resposta foi curta mas bastante explicativa do tipo de gestão que há naquele espaço: “é só para se o cliente quiser tomar uma bebida, abrir uns vinhos, estar ali a relaxar.”

 

Ora, como nós não queríamos apenas uma bebida, nem abrir uns vinhos, nem estar ali a relaxar, agradecemos muito e fomos procurar um restaurante que quisesse fazer negócio.