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(in)sensatez

por Catarina Duarte

(in)sensatez

por Catarina Duarte

01.05.16

Questões inquestionáveis.

Catarina Duarte
Nos dias que correm, todos questionam. Mas, atenção: não digo isto com pesar. Não tenho nada contra quem tem, no espírito, a questão sempre pronta a espreitar. Eu própria questiono. Basta ler, com cuidado, muitos dos textos que escrevo cuja base é, tão-somente, questão atrás de questão. Interrogações, temas, inspirações, pensamentos adversos (...)
28.04.16

Por onde andam as cartas de amor?

Catarina Duarte
  Por onde andam as cartas de amor? Não troco a subtileza de uma carta de amor pelo despacho de uma mensagem. As cartas de amor são necessárias. São indispensáveis. Nada substitui a crueza de um papel manchado pela caneta aguçada de alguém. Nada substitui a concentração de alguém a tentar uma caligrafia limpa, tratada, pouco inclinada. (...)
22.04.16

Ir a tempo.

Catarina Duarte
Dilatamos objectivos, protelamos aspirações. A altura não é a certa, temos mais que fazer, o bicho continua cá mas a confusão diária dos nossos dias, a futilidade dos nossos afazeres quotidianos, turva-nos a vista, ofusca-nos os verdadeiros quereres. Muitas vezes ou, diria mesmo, demasiadas vezes, adiamos, adiamos, adiamos e, demasiadas vezes (...)
20.04.16

Sobre a escrita (outra vez).

Catarina Duarte
Gosto de escrever sobre a escrita. Gosto de escrever sobre o acto de escrever. Ao fazê-lo consigo orientar(-me), encarrilar as ideias e decifrar a importância que ela tem para mim. Gosto de escrever sobre a escrita. Tal como gosto de escrever sobre escritores ou sobre livros que leio. Tenho bastantes textos sobre as razões que me levam a escrever. Gosto de escrever sobre a escrita. Permite-me ler as minhas motivações. Gosto de escrever sobre a escrita. Mas também gosto (...)
10.04.16

­Aos amigos de toda a vida perdoa-se tudo?

Catarina Duarte
Há uma linha, muito fina e subtil, que nos une aos amigos de toda a vida. Ela é franzina, quase imperceptível. Mas não é frágil. Os amigos de toda a vida são uma estirpe de amigos de que gosto particularmente. Não os uno aos irmãos (só quem tem irmãos percebe que é impossível uni-los a alguém), mas uno-os aos quase-irmãos, que também é bem bom. Os amigos de toda a vida são importantes, entre outras coisas, porque nós podemos ignorá-los. Com verdadeiro desprendimento e sem cerimónias. Vamos lá reconhecer: isto só é possível porque se tratam de amigos de toda a vida.
06.04.16

Sobre a morte.

Catarina Duarte
A morte é um pedaço valente desta arte de viver. E vai mesmo acontecer num determinado dia, num dia rigorosamente igual ao anterior em que, provavelmente, vamos acordar, vamos tomar o mesmo banho de todos os dias e o pequeno-almoço do costume, vamos cumprimentar os nossos mais que tudo, vamos avançar para a viragem das horas e não vamos concluir qualquer (...)
31.03.16

Primavera.

Catarina Duarte
Neste início de primavera, como sempre acontece nos inícios, sinto alastrar por este mundo fora uma vaga de esperança. As pessoas gostam (e pelam-se, vamos lá assumir isto!) por inícios. Porque recomeçar é bom. Porque recomeçar é arrumar assuntos ou, então, organizá-los ou, talvez, assumir e deixá-los em banho-maria. Recomeçar não é bom: recomeçar é tão bom! Dá-nos a ideia que temos uma cama acabada de fazer, lençóis esticados e puros: tudo branquinho, branquinho. (...)
29.03.16

Ela arrasta-se.

Catarina Duarte
Ela arrasta-se: escada acima, escada abaixo. Na verdade, com algum detalhe, conclui-se: ela arrasta-se, sim, mas sempre mais ao tempo do que a ela. Vejo-a sempre cabisbaixa e aterrada, enfiada nela própria, engolida pelo cachecol que enrola ao pescoço. Já tentei passar indiferente ao sofrimento. Dizer bom dia e seguir viagem. Já tentei ignorar a vida alheia mas, todos os dias, vê-la na amargura do mundo que transporta aos ombros, começou a semear em mim um travo similar. Sempr (...)
27.03.16

A rapariga dos collants.

Catarina Duarte
Todos os dias, de manhã, ela varre a minha rua. Não aquele varrer de vassoura e pá, mas aquele varrer de reconhecimento. Analisa cada portada, janela ou pessoa que nela se debruça. Na verdade, não sei se o faz todos os dias ou, tão-pouco, todas as manhãs. Interrogo-me se sou eu que passo demasiado tempo à janela ou se é ela que se passeia sempre que por lá ando. Fá-lo sempre com aquela lentidão característica de quem tem o mundo todo pela frente e nenhuma pressa em vivê-lo; (...)