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(in)sensatez

por Catarina Duarte

(in)sensatez

por Catarina Duarte

Qui | 15.02.18

A culpa é tua!

CD

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A culpa é algo que, por um lado, me inquieta e que, por outro, me seduz.

 

Eu tenho um fetiche estranho que é analisar comportamentos que visam transmitir a sensação de culpa. E são tantos os momentos cuja consequência imediata – muitas vezes, inconsciente - é culpabilizar o outro!

 

Nós nunca nos apercebemos e – pior – não temos, na maior parte das vezes, noção que estamos a criar um enorme complexo de culpa na outra pessoa. Não somos maldosos, somos pessoais normais, que falamos, muitas vezes, mais para não estarmos calados do que por outra razão qualquer.

 

Achava que a análise de culpa era uma coisa minha, de quem não tem mais nada do que fazer do que pensar em temas de menor importância mas, no outro dia, cruzei-me com uma minicrónica, do Miguel Esteves Cardoso, que retratava exactamente isso. O sentimento de culpa, no caso concreto desta crónica, surgia depois de um electricista ter insinuado que a lâmpada do wc do MEC se fundia demasiadas vezes porque ele passava demasiado tempo, de noite, sentado na sanita, a ler Proust. Sinceramente, qual o real problema se ele passasse os seus serões a ler na sanita? Nenhum. É simplesmente atirar lascas de culpa para cima do outro. Porra! Para a próxima tenho que ler durante o dia, de preferência no terraço, para aproveitar a luz do Sol.

 

Quando, relativamente às seguintes frases “Sabes onde passei ontem, à hora de almoço? À frente do teu escritório!” respondemos: “Podias ter tido! Tínhamos ido almoçar.”, o que é que é suposto transmitirmos? É só conversa? Ou, lá no fundo, sem sequer nos apercebemos, pretendemos transmitir um pequeno complexo de culpa no outro que, imediatamente, pensa: “Se calhar, devia ter dito algo a este gajo para almoçar!”? Na maior parte das vezes, julgo que não há, de todo, uma intenção mas, ainda assim, não estamos isentos de culpa: sim, nós que estamos a culpar o outro, ainda que de forma inconsciente, também somos culpados, neste jogo de culpa de que não nos livramos nunca - interessante, não?

 

Será que, nas mais pequenas coisas, nas mais banais frases que dizemos, sem qualquer maldade, como “devias ter comprado cerejas!” ou “estás com dores de cabeça por teres bebido um copo a mais, ontem à noite!”, não estamos a semear, em quem connosco vive, um pequeno (e quase insignificante) complexo de culpa? Será que, da próxima vez, as pessoas vão decidir livremente o que fazer ou estarão, à partida, condicionadas por estes comentários?

 

Pensem nisso. É mesmo importante largar a culpa, e esta forma, quase inconsciente, de a transmitirmos: ela entranha-se e depois é muito difícil livrar-nos dela.

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