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(in)sensatez

por Catarina Duarte

(in)sensatez

por Catarina Duarte

Dom | 26.11.17

Conto #2 O homem que tinha apenas um rim.

Catarina Duarte

Imagem Mgeraldes a nossa história 2.JPG

 (fotografia tirada pela minha prima Marta, em Lisboa, em digital)

 

O homem que tinha apenas um rim fazia a sua vida normal, demasiado normal para quem tinha apenas um rim.

 

Todos os dias se levantava e todos os dias fazia um fino café de cafeteira italiana que sorvia, ora com muito prazer, quando a espuma saia bem, ora com relativo prazer, quando a espuma não passava de uma fina linha encostada ao rebordo da chávena.

 

Era um calibrador de dia, este seu fino café de cafeteira italiana. Definia, na casa de partida, ao homem que tinha apenas um rim, a qualidade dos seus dias.

 

Nos dias bons, a espuma surgia abundante e, nesses dias, o comboio chegaria à estação assim que ele, o homem que tinha apenas um rim, a pisava. Encontraria, então, um lugar vago na carruagem 1, junto à janela, e sempre de frente para o caminho.

 

Nos dias em que a espuma do café do homem que tinha apenas um rim não passava de uma leve promessa do que poderia ser um bom café, o seu lugar não era na carruagem 1 e seria, certamente, em pé e, claro, de costas voltadas para o percurso.

 

O homem que tinha apenas um rim fazia a sua vida normal, demasiado normal para quem tinha apenas um rim porque, bom, o homem que tinha apenas um rim não sabia que, um rim apenas, nele existia.

 

Quando o descobriu, já tinha ultrapassado a meta dos setenta.

 

A história, do homem que tinha apenas um rim, reza, então, assim:

 

Resolveu, certo dia, o homem que tinha apenas um rim, marcar consulta porque, desde há uns tempos para cá, cada vez que pegava em algum objeto, a força faltava-lhe e o objeto soltava-se e escangalhava-se todo no chão.

 

Na verdade, não era bem a força que lhe faltava: eram os pulsos que lhe doíam, ora o direito, ora o esquerdo, e, mais tarde, os joelhos também lhe doíam, ora o esquerdo, ora o direito, o que, como calculam, dificultava a tarefa de tirar um bom café da cafeteira italiana mas, também, de fazer o percurso de comboio de costas, quando, claro, a espuma não cooperava.

 

Tinha, então, consulta marcada para o seu médico de sempre que, atendendo ao facto de, o homem que tinha apenas um rim, já se encaminhar para os setenta e cinco anos e o médico do homem que tinha apenas um rim ser o seu médico de sempre, concluirão – e bem – que este médico que vos falo já tem idade muito avançada.

 

Apanhou, então, o homem que tinha apenas um rim, no dia da consulta, a carruagem 2 e estancou-se no seu lugar, em pé, de costas para o caminho.

 

A esta altura, já perceberam que, o seu fino café de cafeteira italiana, nessa manhã, deve ter consistido apenas numa aguadilha rala. E foi verdade.

 

Lá chegado, ao médico do homem que tinha apenas um rim, foi visto e feitas ecografias e TACs e exames e mais grafias que não sabemos denominar, para, no final, se descobrir que o homem que tem apenas um rim, tinha, de facto, apenas um rim.

 

Foi uma grande descoberta; uma infeliz descoberta, para dizer a verdade, mas uma grande descoberta. O médico de sempre do homem que tinha apenas um rim não acreditava e, o homem que tinha apenas um rim, também não.

 

O único rim, do homem que tinha apenas um rim, era um bom rim, dizia o médico de sempre do homem que tinha apenas um rim. Era grande e trabalhador e fazia as vezes do outro que devia ter mas não tinha.

 

Quando saiu da consulta, o homem que tinha apenas um rim, já estava melhor do pulso, ora do direito, ora do esquerdo, e dos joelhos, ora do esquerdo, ora do direito. Os objetos, esses, deixaram de lhe cair e conseguiu recuperar a sua vida ao nível da força, segurando, seguramente, tudo o que queria pegar.

 

Mas, algo nele, no homem que tinha apenas um rim, começava a mudar. Sentia-se a afundar, lentamente, numa espécie de tristeza absoluta que não conseguia controlar. Era dor, era sofrimento, era, na verdade, uma doença que sentia aparecer. Era como se lhe tivessem tirado algo com que sempre tivesse vivido.

 

Havia um espaço, cujo lugar não sabia identificar, que existia agora oco, algures no seu ventre cheio de outros órgãos. Esse espaço alargava-se e alargava-se. Sentia, talvez, algo parecido com solidão e mágoa e abandono, como se lhe tivessem rasgado um pedaço da casa, um pedaço do lar, um pedaço da vida.

 

O homem que tinha apenas um rim morria assim, lentamente, todos os dias mais um bocadinho e todos os dias mais e mais. Eram saudades e saudades, de algo que nunca teve, de algo que nunca lhe existiu, saudades do seu rim que o abandonava para sempre, como se a verbalização da sua ausência consolidasse, prontamente, a sua falta.

 

Aos quase setenta e cinco anos, não conseguiu suportar a falta do seu rim desde sempre ausente e deixou-se afundar, deixou-se mingar e, por fim, desapareceu.

 

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