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(in)sensatez

por Catarina Duarte

(in)sensatez

por Catarina Duarte

Dom | 27.03.16

A rapariga dos collants.

Catarina Duarte

Todos os dias, de manhã, ela varre a minha rua. Não aquele varrer de vassoura e pá, mas aquele varrer de reconhecimento. Analisa cada portada, janela ou pessoa que nela se debruça. Na verdade, não sei se o faz todos os dias ou, tão-pouco, todas as manhãs. Interrogo-me se sou eu que passo demasiado tempo à janela ou se é ela que se passeia sempre que por lá ando. Fá-lo sempre com aquela lentidão característica de quem tem o mundo todo pela frente e nenhuma pressa em vivê-lo; aquele vagar, devagar, roçando a mão pelas sebes, sorrindo, sonhando por algo que não concretiza. Não deve ter mais do que dezasseis anos, os cabelos negros pendem-lhe pelos ombros, formando ondas perfeitas que se movem à sua volta, aquando do deambular da sua cabeça. Raramente cruza olhares com as pessoas com que se intercepta, tenho a certeza que por manter os olhos sempre demasiado baixos.

A primeira vez que a vi foi, efectivamente, difícil não reparar nela: estávamos no pico do verão e ela tinha vestido uns collants riscados, intercalados de rosa e preto. Eu vestia um vestido branco, de linho muito leve, alças grossas traçadas nas costas. Não suava mas sentia aquela humidade pegajosa enrolada em mim.

Dizia eu que todos os dias ela varria a minha rua. Sempre de collants. Alternando a vestimenta com saias curtas ou calções. Mas sempre de collants.

Lembrei-me disto, há uns dias, quando esperava pelo meu pai. Tocava com a janela na minha testa: o frio do vidro arrefecia-me do calor que pairava naquela manhã em Lisboa. Imagino que a lembrança foi fruto da falta de a ver passear-se pelas folhas que já caem na cidade. Chegámos ao outono. Não sei se mudou de rua, de bairro ou de cidade. Não sei se foi por as manhãs quentes estarem a dar lugar, serenamente, a umas mais frias. Não sei se resolveu mudar a rota dos seus passeios. Não sei se, agora que tudo recomeçou, trocou as suas deambulações matinais pelas aulas de Matemática ou de Física. Não sei nada. Mas sei que, certamente, terá substituído os collants por algo mais quente. Afinal, estamos quase no inverno.

 

Primeira versão deste texto escrita em out.2011

 

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