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(in)sensatez

por Catarina Duarte

(in)sensatez

por Catarina Duarte

Qui | 06.03.14

A sede de bodes expiatórios.

CD

Não sei muito bem a razão, se por sermos um povo sofredor por natureza, mais agarrado ao fado do que a qualquer outro samba, se por possuirmos mais sede em dilatar sentimentos do que em perdurar com sensatez, mas a verdade é que, aqui, neste belíssimo ponto à beira-mar plantado, conseguimos com mais rapidez arranjar bodes expiatórios para justificar falhanços pessoais do que força para tornar este local (no geral) e a nossa vida (em particular) um bocadinho melhor.

Qualquer infeliz investida atirada por uma, não menos infeliz, pessoa, que teve, infelizmente, a infelicidade de estar à hora errada no sítio errado, torna o nosso infeliz mundinho no mais feliz desfile carnavalesco.

Qualquer conversa, por mais corriqueira que a mesma seja, faz com que nos munamos dos mais mortíferos misseis, faz os mais incerteiros rejubilarem pela pontaria recentemente adquirida e torna como objectivo primordial que os alvos a abater se estatelem no mais ruidoso tombo.

Depois, se aumentarmos o nosso leque de análise, saindo do nosso redondo umbigo, se nos dedicarmos a episódios que fazem as melhores sobremesas noticiosas que vemos nas redes sociais, vemos que a cena se repete, ad eternum, com um meio que compreende a intolerância e um fim que se define como esquecimento.

Quantos bodes expiatórios são precisos? Na política, na moda, na arte, escrita, pintura, desenho, nos blogues? Na nossa vida? Ontem foi a outra da mala Chanel, hoje é o músico que decide ir viver para o Brasil, aos 60 anos. Tudo situações “gravíssimas” que nos fazem destilar ódios como se tivessem sido cometidas tremendas atrocidades contra a humanidade.

Por vezes, por mais apreciadora de fado que seja, inteiro-me de uma colossal vontade de investir noutro fato e ir bailar para outras freguesias.