A solidão num copo de água.
Sempre que eu lá entrava, entranhado nas garrafas transparentes a imitar cristal, o cheiro forte a whiskey, batia-me nas narinas.
Era sempre recebida pelo seu corpo redondo. Era agradável porém existia algo no seu cabelo (que, curiosamente, também tinha contornos arredondados) que não inspirava confiança. A idade estava infiltrada nas rugas que a sua face exibia mas não transmitia o conforto que as pessoas envelhecidas, por norma, transmitem – a culpa, possivelmente, seria do cabelo.
Um dia, no meio de uma constipação que a atacou, entre a explicação de um exercício e de outro, falou-me de solidão. Deu-me mais detalhe do que é possível, a uma miúda de pequena idade, entender.
Eu não alcancei, então, a globalidade da ideia, a idade não me permitia tamanha conclusão, mas retive a parte das forças necessárias quando, no meio de espirros, frio e febre, temos que nos deslocar à cozinha para alcançar um copo de água por não existir ninguém que o faça por nós. Um copo de água, no meio de uma gripe. Um simples copo de água. A transparência de um copo de água. A solidão toda, sem reservas, num copo de água. Um copo de água a transbordar solidão.
