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(in)sensatez

por Catarina Duarte

(in)sensatez

por Catarina Duarte

Qui | 02.04.20

Acho que foi do medo que nunca me falaram.

Catarina Duarte

Falaram-me do parto, da amamentação e até das eventuais noites sem dormir. Sobre isso, falaram-me até vezes a mais, vezes demasiado gráficas, vezes que não pedi.
Falaram-me da primeira separação e até da segunda. Das outras todas, já não me falaram; também já não era preciso.
Continuam a falar-me de todas as etapas que ele ainda não alcançou mas que vai alcançar. Contam-me histórias e, a falar, explicam-me tudo. Ou, quase tudo.
Acho mesmo que foi do medo que nunca me falaram.
Falo do medo que só começamos a sentir quando somos pais: completamente corpóreo e robusto e, sem dúvida, imensamente real.
Refiro-me àquele medo que nos passa pelos olhos e atravessa o corpo, àquele medo que nos aterroriza quando pensamos que a doença e a maldade não escolhem nada: são completamente aleatórias. Demasiada conversa e livros, e, claramente, demasiadas palestras e workshops, e ninguém achou relevante referir que a partir do dia em que ele nasce, o nosso coração ganha outra vida (para além da que já tem, claro), sai do nosso corpo e deixa de nos pertencer. Para sempre. Acho mesmo que foi do medo nunca me falaram.
Que tenhamos sempre a capacidade de colocar este medo à sua dimensão, que se quer insignificante, e que nunca se faça maior do que o Amor que por eles sentimos. 

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