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(in)sensatez

por Catarina Duarte

(in)sensatez

por Catarina Duarte

Qua | 25.10.17

As escadas que subiam e desciam mesmo estando paradas.

Catarina Duarte

As escadas, que subiam e desciam mesmo estando paradas, cumpriam, como podem concluir, a essência da sua existência. Parece elementar e dá até ares de serem umas escadas minimamente terrenas (o que é verdade) apenas pela forma óbvia com que cumpriam o seu propósito.

 

Dona Aurora, pelo contrário, esforçava-se por não cumprir o seu desígnio. De farda tão laranja como as laranjas que cobriam o expositor à entrada, nunca soltava um sorriso, nem tão-pouco um risinho mal-amanhado a fingir alguma delicadeza. Ficava, assim, aquém da simpatia necessária para servir uma boa italiana aos clientes que por ali cirandavam.

 

Num corrupio que girava e girava, a Dona Aurora, entre lavar as frutas que adornavam a vitrina gasta e orientar um arroz doce demasiado amarelo, atendia os poucos clientes da manhã, aqueles que intervalavam pedidos de bicas (que, justiça seja feita, saiam sempre cremosas) com garrafas de água fresca.

 

A Dona Hortense, irmã envelhecida da Dona Aurora (mas, nem por isso, mais velha), quedava-se a lambuzar, ao balcão, um determinado doce de colher, demasiado doce para o período da manhã em que se encontrava e soltava, de forma jovial, o bem aparecido “bom dia” que deveria sair, em primeira instância, da boca da irmã.

 

As escadas, que subiam e desciam mesmo estando paradas, cumpriam, de forma silenciosa, o princípio da sua existência, num local onde nada fazia sentido (nem as laranjas tão laranjas, nem o arroz doce tão amarelo, nem o doce de colher comido no período da manhã, muito menos a simpatia atribuída ao ser errado), para além delas mesmo.