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(in)sensatez

por Catarina Duarte

(in)sensatez

por Catarina Duarte

Qui | 01.03.18

As pessoas fartaram-se do belo e andam apaixonadas pelo real.

CD

Sonia tavares.jpg

 (imagem retirado do instagram da Sónia Tavares, dos The Gift)

 

Ontem, a Sónia Tavares, dos The Gift, partilhou, no seu Instagram, um texto a cascar numa determinada revista cor-de-rosa.

 

Segundo percebi, numa publicação dessa revista, debaixo do título “polémica”, aparecia, então, que a Sónia tinha chocado os fãs, com a sua imagem desleixada, numa fotografia partilhada no seu Instagram.

 

A Sónia não vai de modas e toca a pedir desculpa por não andar com maquilhadoras, cabeleireiras, criados e motoristas atrás e que, bom, é só uma mulher REAL, a tentar fazer o melhor que consegue, neste mundo REAL onde temos a sorte (e a pressão?) de viver. A sua resposta foi muito aplaudida.

 

Ontem também, uma amiga minha partilhou, num grupo do WhatsApp, algumas imagens de uma conhecida marca de roupa interior, onde se podiam ver mulheres, que fugiam completamente ao standard de modelos de roupa interior: elas tinham curvas, estrias e, também, aquela barriga fofinha que temos quando estamos sentadas, enfim, tudo o que temos a sorte de ter porque, bom, não passamos de pessoas reais. As escanzeladas também estão no site da marca mas a grande novidade é que, agora, também há espaço para as outras. Para as normais, estão a ver?

 

Outra amiga, que também está nesse grupo, agradeceu logo essa iniciativa, pois estava farta de comprar bikinis que ficam a matar nas tipas das fotografias e que, depois, nela ficam pessimamente. Fala-se em publicidade enganosa aos pontapés mas depois ninguém fala nisto.

 

Nós gostamos de ver pessoas arranjadas, com maquilhagens perfeitas e cabelos alinhados mas agarramo-nos com força (e, ultimamente, isso é muito visível) às imagens dessas mesmas pessoas, quando elas aparecem não tão arranjadas, não tão maquilhadas, com os cabelos não tão alinhados, numa relação quase bipolar com a beleza. Uma forma, talvez, do nosso subconsciente se beliscar e de comunicar, sei lá, com o nosso consciente, e dizer: “Estás a ver? Na verdade, mais grama, menos grama, somos mesmo todos farinha do mesmo saco.”

 

Essa marca de roupa interior, tal como qualquer outra marca, quer é vender e, portanto, tem todo o interesse em apresentar (ao mundo) as miúdas mais giras e mais magras, onde tudo lhes fica bem.

 

O seu objectivo final não deixa de ser aliciar o consumidor – todas nós, portanto – a comprar. Quando o fazemos, temos a esperança de ficarmos tão frescas e fofas como as miúdas que pousam nas imagens (ou só muito levemente parecidas – também não já era mau de todo) mas, infelizmente, nem sempre isso acontece.

 

Acho incrível que uma marca de roupa tenha tido esta coragem, chocando de frente com o que é comercialmente aceite, estando por trás, talvez, esta consciência que, ao sermos bombardeadas por imagens de peles lisas e perfeitas, podemos incluir em nós, consumidores, alguns problemas até de índole psicológica, ao nível da autoestima e afins.

 

Julgo que é brutal este caminho que estamos a percorrer, tanto ao nível das marcas, como ao nível das figuras públicas, esta mudança de mentalidade, ainda que feita de uma forma muito gradual, para deixarmos de lado o concretamente perfeito e passarmos para o amplamente real que, contas feitas, é onde vivemos: num mundo onde a maioria dos rabos tem celulite e as barrigas não são lisas e lustrosas.

 

 

Sei que este artigo está mais dirigido às mulheres e no que as mulheres sentem. Tenho consciência que este é também um filme por que muitos homens passam mas tenho ideia de ser um flagelo mais feminino.

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