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(in)sensatez

por Catarina Duarte

(in)sensatez

por Catarina Duarte

Seg | 03.07.17

Carpe Diem? Isso já o fazemos!

CD

Há coisas que damos por garantidas.

 

E não me venham com as tretas do Carpe Diem, desta expressão que nos prossegue desde sempre, que nos obriga a verbalizar que a estamos a seguir, que estamos a sentir tudo com intensidade, que nos abriga a aproveitar todos os segundos como se, caso não o façamos, sejamos as pessoas mais mal-agradecidas do mundo. Calma, podemos ser só pessoas tranquilas.

 

À nossa medida, à nossa altura, nós aproveitamos os nossos momentos - somos o Carpe Diem inteiro e, raramente, nos soltamos em metades: nós mergulhamos no mar, lemos clássicos, compramos bilhetes de avião e visitamos mosteiros; nós apreciamos bom vinho, aproveitamos a nossa família e festejamos com os nossos amigos; nós vemos exposições e filmes de culto; nós fazemos desporto e apreciamos o pôr-do-sol. 

 

À nossa medida, à nossa altura, utilizamos este termo, impingido em latim, imposto e entornado sobre os nossos dias sem qualquer piedade e com total veemência. 

 

Vincamos sempre o verbo "aproveitar" quando estamos, de facto, a aproveitar.  Mas, apesar de tudo, continuamos a dar tudo por garantido. Nunca nos pomos numa posição de "nunca mais vou ver isto"; é, para nós, difícil assumir que pode ser a última vez que bebemos um copo de vinho ou que mergulhamos com golfinhos.

 

Essa posição, chata e corrosiva, é difícil de alcançar mas é também muito útil quando, de facto, consciencializamos que há coisas que não são assim tão garantidas: pela sua fragilidade, pelo seu tempo, pela sua essência e pela sua vontade. 

 

À nossa medida, à nossa altura, Carpe Diem? Isso já o fazemos!

Mas, bolas, não é isso que nos prepara! Há todo um outro Universo por explorar.

 

Por muito Carpe Diem que façamos, não estamos preparados para a fragilidade dos nossos dias.