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(in)sensatez

por Catarina Duarte

(in)sensatez

por Catarina Duarte

Qui | 03.12.15

Curtas - São instantes visíveis de figuras suspensas no tempo.

CD

Da janela da cozinha da minha casa, mesmo quando estou sentada no sofá da sala, consigo ver, no alto do prédio da frente, uma casa envidraçada. Refiro muitas vezes, que os seus donos devem ter no seu temperamento a mesma medida de transparência que os vidros que lhes emolduram a casa têm. Do sítio onde estou sentada, do sofá da minha sala, através da janela da cozinha da minha casa, vejo já a árvore de natal a piscar, com as suas luzes a pestanejar compassadamente. Vejo também um sofá de cor clara que, a esta distância, não consigo garantir se é branco, ou creme, ou, como se diz nos dias de hoje, nude. Nesse sofá, está sempre sentado um senhor, o mesmo senhor todos os dias, com barba da mesma cor do sofá. Tem sempre, adormecido sobre as suas pernas, um jornal. Ao lado da árvore de natal, precocemente montada, já não consigo ver, do sítio onde me posiciono, sim do sofá da minha sala, através da janela da cozinha da minha casa, o que existe. Mas consigo jurar que é uma televisão pois a sua luz, também ela sempre a piscar, faz companhia ao bater suave das luzes natalícias. Porém, há dias em que mudo de ideias. A minha visão não é suficiente para ver o que, de facto, faz companhia à árvore de natal. Mas a minha imaginação permite-me inventar. E imagino. Na maior parte dos dias, imagino que, do lado invisível da árvore, está uma estante. Branca e simétrica. Essa estante está recheada de livros. Uns com lombadas coloridas; outros não. Uns são pesados e outros pequenos. Há livros infantis, embora em pequena quantidade, mas também livros duros. Uns estão encavalitados e muitos deles estão ordenados. Existem livros em abundância. Mas também molduras. Nenhuma está vazia. Todas trazem, agarrada à madeira que as formata, uma imagem do passado. Imagens de amor e de gente feliz. Imagens cheias. As nossas fotografias, tal como os nossos livros, são provas de amor. São momentos que pararam, fixaram a existência de algo, que nunca mais se vai repetir. São instantes visíveis de figuras suspensas no tempo. Ninguém fotografa uma discussão, não paralisa um momento azedo com o objectivo de o fazer perdurar. Não queremos deixar rasto dos momentos amargos da nossa vida. Nessa estante, estão momentos felizes, abraçados por livros. Coexistem em perfeita harmonia e entendem-se. Existem também outros apontamentos de vida, como peças trazidas de viagem: uma máscara de Veneza, um quadro com uma sevilhana em movimento de Espanha, uma concha de Santiago e uma andorinha preta portuguesa. Existem também cinco garrafinhas de vidro, todas alinhadas, cujo rótulo foi tirado e substituído por um papel, cuja legenda está escrita à mão, com caligrafia precisa e inclinada, com o lugar onde a areia, que enche o seu interior, foi tirada.

Do sítio onde me encontro, pela janela da cozinha de minha casa, sentada no sofá da sala, consigo ver, que, no prédio da frente, por detrás da grande janela sem cortinados, existe vida. Reflectiva no piscar sistemático das luzes de natal, no senhor de barba creme que lê, todas as noites, o seu jornal pousado nas suas pernas, nos livros que enquadram a televisão ou que existem sozinhos, nas molduras de registos suspensos no passado, de recordações de momentos felizes das férias. Não os vejo. Imagino só. Mas existem.

Nessa janela, vive alguém límpido e com existência transparente. Talvez até resplandecente para acompanhar o cintilar das luzes de Natal, alguém que admite, perante a ausência de cortinados, que a sua vida é tão pura e cristalina que até nos permite vê-la, dia-após-dia, através do vidro da sua janela.