Dar lustro às botas.
Hoje iniciou-se, oficialmente, a época das botas. De manhã, usei da pouca lucidez de que disponho nos primeiros minutos do dia, e decidi-me por elas.
As minhas, as botas, estão lustrosas e brilham.
A verdade é que lhes puxo sempre à vaidade, no início de cada outono.
Quando saí de casa, apressada pelo andamento acelerado das segundas que se querem calmas, verdadeiramente orgulhosa das minhas botas que brilhavam dentro deste arremesso pesaroso de uma segunda-feira cinzenta, cruzei o meu olhar com o de um caixote de lixo.
De lá de dentro, brilhavam, tão lustrosas como as minhas, umas botas abandonadas, com o fecho arrancado e metade delas rasgadas.
Botas que foram, certamente, em tempos, uma opção direta da escolha de alguém. Possivelmente, engraxadas com esmero e cuidado e, até quem sabe, com (alguma) ostentação à mistura.
Estavam hoje, porém, neste outono chuvoso que agora se inicia, entregues à sorte vazia de um caixote do lixo, conscientes, certamente, as botas, de que o seu propósito inicial (o de enfeitar os dias cinzentos de quem as calça) não serve mais a sua criação.
O que é uma pena.

