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(in)sensatez

por Catarina Duarte

(in)sensatez

por Catarina Duarte

Seg | 16.07.18

De certeza que há vidas perfeitas: eu é que não conheço nenhuma.

CD

 

Andamos embriagados com tanta perfeição que eu sinto que estou constantemente de ressaca. Juro.

 

São umas atrás das outras, as fotografias de pequenos-almoços coloridos e de frases motivacionais com uma letra fina e corrida, que partilham, sem qualquer cautela, sem qualquer respeito, nas redes sociais.

 

Começam logo pela fresquinha, para nos sentirmos com força para agarrar a bela-vida-que-temos-a-sorte-de-viver. Carpe diem, meus queridos. No final do dia, claro, aproveitem o pôr-do-sol porque, ao que parece, Sol só há um e ainda nos restam dois olhos para o conseguirmos ver.

 

Com tanta imagem bonita, apetece-nos logo ser melhores pessoas mas depois (aquele choque de realidade) só temos pão congelado. Lá iniciamos o processo de comer as mesmas torradas de todos os dias. São boas, disso não tenho dúvidas, mas pouco fotogénicas. Mais para o fim, e porque andamos ali a enrolar e a enrolar e a enrolar e porque temos que nos fazer à vida porque a morte é certa, lá as empurramos, às torradas de todos os dias, com o chá que fizemos à pressa, de camomila ou tília, sem nada de muito exótico, sem nada de muito diferente.     

 

O mesmo se passa com as relações. São imensos os amores que surgem alinhados nos quadradinhos do instagram. São bonitos, estão encaixadinhos e todos têm a luz certa. Adoro vê-los porque fazem aquele efeito perfeito, aquele desenho perfeito, aquele feed perfeito.

 

O meu problema, com esta informação lindíssima, é que quando a começo a receber ainda estou a acordar e ainda está aquele ambiente de corta à faca no quadradinho perfeito que é a nossa casa, porque é necessária, exatamente, uma hora para eu reconhecer a vida perfeita que tenho e perder a vontade falecer.

 

Não nasci com a capacidade de fotografar pequenos-almoços perfeitos quando o que quero é que me alimentem devagarinho, com o objectivo concreto de evitarem que eu morra.

 

Na generalidade dos momentos da minha vida, sou feliz. O meu pai costuma dizer que eu vejo sempre o lado bom das viagens e dos restaurantes, por exemplo, porque eu sou uma pessoa feliz. Apesar de ter os meus momentos de indignação, de desnorte, de querer largar tudo e passar o resto da vida a fazer mergulho numa ilha perdida o meio do Pacífico, reconheço que o meu pai tem alguma razão.

 

No meio da perfeição que é a minha vida, dos meus pequenos-almoços coloridos e das minhas manhãs lentas e cheias de frases bonitas que vou citando para o ar enquanto percorro o corredor entre o nosso quarto e a cozinha, no meio da minha vida alinhada, organizada e coerente, de vez enquanto surgem fotografias completamente desfocadas e que enchem qualquer pessoa de orgulho. Como esta:

 

CD RL.JPG

 

Provavelmente, foi a meio do concerto dos Pearl Jam. Mas também pode ter sido no concerto dos The National ou de qualquer outro, neste Alive que agora acabou.

 

E, com isto, concluo: abraços desfocados no meio de três dias de festival dão-me toda a energia necessária para acreditar que só preciso de sobreviver à hora mais difícil dos meus dias, aquela que existe logo após acordar, e que, quando ultrapassada, sem qualquer excepção, consigo ser, quase sempre, a pessoa mais feliz do mundo. Mesmo sem pequenos-almoços fotografáveis ou frases bonitas para inspirar a vida dos outros.

 

Desculpem. Mas faço o melhor que consigo.

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