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(in)sensatez

por Catarina Duarte

(in)sensatez

por Catarina Duarte

Seg | 06.02.17

Diga Bom Dia com Mokambo.

Catarina Duarte

 

Dizer que é na recordação que estremecemos é, simplesmente, dizer mais do mesmo. Em muita literatura (e – também - em situações menos complexas como pequenos textos), escreve-se, divaga-se e, muitas vezes, medita-se sobre a memória – na verdade, a sua importância é enorme: é sempre ali que vasculhamos a saudade.

A memória é o que temos de mais valioso. Não me venham com tretas. O futuro até pode trazer projectos óptimos (claro que sim); o presente pode até estar a ser bom (claro que sim); mas o passado, bom, o passado é o núcleo da nossa célula, é onde, aquilo que nos compõe, está registado com rigor e precisão – e a memória é somente aquilo que nos permite recordá-lo.

Ando a ouvir, desde há uns dias para cá, na rádio, o novo anúncio da Mokambo. Lembro-me, sempre que o ouço, de todas as vezes em que fui acordada ao som do “Diga Bom Dia com Mokambo, Mokambo, Mokambo”, com carinho, pelo meu pai.

O meu pai, quando nós eramos mais novos, entrava sempre nos nossos quartos, a cantarolar esta música. Julgo que foi uma das formas que arranjou para que, pessoas com acordar difícil (eu!), fizessem logo ali, nos primeiros minutos da manhã, as pazes com o mundo. Rir: foi a rir que conseguiu isso porque era, de facto, verdadeiramente hilariante.

Depois de sair de casa, nunca mais tive ninguém que me cantasse o jingle do Mokambo, ao acordar. Em bom rigor, também não quero.

A memória, que é o que de mais valioso temos (repito!), é onde vou recuperar o meu passado e, com esta recordação, feita corretamente no meu código genético, tenho para mim, naquilo que sou, no meu tempo certo passado, todo aquele que foi registado com o meu pai.

 

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