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(in)sensatez

por Catarina Duarte

(in)sensatez

por Catarina Duarte

Ter | 29.03.16

Ela arrasta-se.

CD

Ela arrasta-se: escada acima, escada abaixo.

Na verdade, com algum detalhe, conclui-se: ela arrasta-se, sim, mas sempre mais ao tempo do que a ela.

Vejo-a sempre cabisbaixa e aterrada, enfiada nela própria, engolida pelo cachecol que enrola ao pescoço.

Já tentei passar indiferente ao sofrimento. Dizer bom dia e seguir viagem. Já tentei ignorar a vida alheia mas, todos os dias, vê-la na amargura do mundo que transporta aos ombros, começou a semear em mim um travo similar.

Sempre que achava que a ia ver, baixava nas minhas costas um impedimento de alegria, sentia-me encolher, ao mesmo compasso com que ela desaparecia.

Um dia, a coragem ganhou ao pudor alheio e, carregada da carteira, casaco e portátil, dirigi-lhe um “bom dia – está tudo bem?” enquanto aligeirava a pergunta preocupada com boa disposição forçada. Toquei-lhe, achei eu, levemente no ombro, mas o reflexo que apanhei do outro lado foi de surpresa e, sim, algum pânico.

Respondeu-me de forma assustada e ainda mais encolhida, que “estava tudo bem, menina – as escadas é que custam a desencardir”. Mas, assim que terminou a frase, senti-a subir, os ombros tornaram-se leves e os nossos sorrisos ficaram na mesma linha. Vi-lhe, então, tatuado no rosto, aquele que eu via pela primeira vez de frente, um sorriso aberto que invadia gradualmente, a cada nova distensão facial, a sua cara sulcada de velhice.

Após esse dia, quando passo por ela, dirijo-lhe o mesmo “bom dia”, seguido do novo “tudo bem?” e, desde esse momento, comecei a receber vivacidade travada no olhar.

Afinal, concluí eu, do que precisamos muitas vezes é tão-somente de um “tudo bem?”, para deixarmos enaltecer em nós alguma alegria e abandonarmos, ainda que por breves instantes, o lado abatido dos nossos afazeres diários, aqueles que executamos, dia após dia.

Sem excepções.

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