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(in)sensatez

por Catarina Duarte

(in)sensatez

por Catarina Duarte

Dom | 04.09.16

Emigração da Saudade.

Catarina Duarte

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Tal como nós, atravessavam, uns atrás dos outros, a fronteira que nos separava de França. Eram fáceis de identificar, ainda que a matrícula fosse tingida por França, pois, muitas vezes, a mesma era ornamentada pelo emblema da federação portuguesa de futebol.

O terço encontrava-se pendurado, a reforçar a devoção por Maria, por Fátima. O cachecol com as cores portuguesas estava exposto, de forma orgulhosa, sobre a bagageira. O olhar, esse, encontrava-se arrefecido: era um olhar de quem sabe que só volta para o ano; era um olhar já marcado pela saudade; era um olhar paralisado pelo regresso à realidade; era, na verdade, um olhar recheado de melancolia – separado entre o querer ficar e a obrigação de partir.

A emigração da saudade: apaziguada apenas pelas visitas esporádicas à nossa terra.

Na praia de Biarritz, um banhista, deitado numa toalha com a bandeira portuguesa, ostentava, de forma clara e inequívoca, a palavra “lusitano” tatuada em letra redonda e inclinada.

As nossas pessoas, espalhadas pelo mundo, as nossas pessoas com o cheiro da nossa maravilhosa terra entranhado na pele, enfiado nos seus cabelos negros, nos seus pelos brutos e morenos, esse cheiro impossível de limpar, que vivem com essa vontade de voltar e ficar a cravar-lhes o ser e, tantas vezes, apenas com a oportunidade de o fazerem no nosso querido mês de agosto.

A emigração da saudade.

A emigração que arrepia.

A nossa emigração que não regressa.

 

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