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(in)sensatez

25
Mar18

Estevão.

CD

Os pais soletravam-lhe o nome, carregando em cada sílaba, enquanto o ajudavam com o puzzle que tinham levado para o manter entretido. Não usavam um diminutivo, falavam-lhe o nome inteiro, mas devagar: ES-TE-VÃO.

 

Chamou-me à atenção por não ter mais do que 2 anos e ter aquele nome tão incomum para aquela idade mas, também, por ser muito loiro e ter poucos caracóis.

 

O Estevão encontrava-se a encaixar as peças do puzzle, algumas viradas ao contrário, nos buracos errados, e os pais almoçavam o seu cozido cheio e o seu tinto corpulento.

 

Entre uma palavra mal amanhada e outra do Estevão, a mãe lá lhe endireitava uma peça para que ele conseguisse dar seguimento ao jogo e entornava mais um pouco de tinto no seu copo que, de forma alheada, segurava na mão direita, enquanto seguia conversa com o pai.

 

O pai passava, entre uma garfada na couve rija e uma outra no chouriço de sangue, a mão no cabelo do Estevão, que continuava entretido com o seu puzzle.

 

Às tantas, o pai sussurrou ao ouvido do Estevão, relativamente baixo mas não o suficiente para que eu não o conseguisse ouvir: o pai ama-te muito, Estevão.

 

O nome da criança - Estevão - saiu-lhe como antes já o tinha ouvido, carregado em cada sílaba, sem qualquer diminutivo para o suavizar: ES-TE-VÃO.

 

O pai continuou a beber o seu tinto corpulento, que ajeitava o cozido que ia devorando, enquanto, entre novas garfadas, lhe afagava o cabelo muito loiro e com poucos caracóis.

 

Há, de facto, recados que não podem ser adiados, pensei.

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Biografia

Sou autora do livro infantil “Maria Bolinhos – no Reino da Maravilhosa Doçaria Alentejana” e do blog insensatez.blogs.sapo.pt. Escritora compulsiva: a minha vida é absorver tudo aquilo que vejo e tudo o que ouço. Se estão comigo há um certo risco de se tornarem inspiração da minha próxima personagem :) mas, calma!, não fujam já! Dou Workshops de Escrita Criativa a crianças e a adultos - são boas horas que sempre voam embaladas pelo fluir frenético da escrita. Devoro arte, sou constantemente inspirada por ela, nas suas mais diversas formas: livros, pintura, música, cinema, fotografia. Mas, também, jardins, praias, arestas dos prédios recortados da minha Lisboa: inspiro a luz que escorre pelas suas paredes, expiro um texto completo de incertezas. Não passo sem café, sem livros, sem as minhas viagens mas, especialmente, sem o ar livre da minha cidade, a minha maior inspiração. Tenho 32 anos, vivo em Lisboa com o meu marido e com as minhas palavras preferidas.

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