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(in)sensatez

por Catarina Duarte

(in)sensatez

por Catarina Duarte

Sex | 26.01.18

Falar em inglês nos restaurantes em Lisboa? Poupem-me!

CD

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Posso estar a cometer uma grande injustiça mas sinto uma euforia generalizada com esta história do turismo em Lisboa. Uma euforia quase provinciana, para dizer a verdade: agora sim, pertencemos ao grupo das grandes capitais da Europa.

 

Eu sempre achei que Lisboa era a capital mais bonita da Europa e, no Mundo, também há poucas que lhe cheguem aos calcanhares. Digo-vos com conhecimento de causa: desde pequena que viajo com muita regularidade. Se o coração pode pesar nesta análise? Talvez, mas, no geral, acho que avalio bem, por isso, é pouco provável.

 

Mas, sim, não sou cega e reconheço que Lisboa cresceu muito nos últimos tempos: abriu-se para o Tejo, tornou-se mais bonita e luminosa, os turistas vêm verificar, com os seus próprios olhos, aquilo que, há anos, eu andava a dizer e que ninguém acreditava: não há nenhuma como Lisboa.

 

Agora: há uma grande diferença entre saber receber e perder a identidade. É este o ponto onde me foco sempre. E, infelizmente, sinto que esta Lisboa, a minha e, eventualmente, a vossa, está cada vez mais parecida com as outras, com as populares da festa, com as ditas “grandes capitais europeias” que tanto queremos almejar.

 

Aconteceu-me uma situação muito aborrecida, aqui há umas semanas.

 

Nessa altura, até dei o benefício da dúvida porque era daqueles restaurantes “modernos”, cozinha de autor, todo muito “para a frente”: o empregado de mesa dirigiu-se a nós a falar em inglês. Ao início, ainda pensei que o meu cabelo loiro e os meus olhos azuis (que não tenho) o podiam ter confundido e respondi-lhe que podia falar em português porque eramos portugueses, ao que ele respondeu “Sorry?”. Perante este “Sorry?”, repeti, em português, o que lhe estava a tentar transmitir. E o empregado do restaurante moderno, de cozinha de autor, todo muito “para a frente”, voltou a responder-me “Sorry?”. Se facto, concluí eu depois, ele não falava uma palavra de português. Não tinha sido, portanto, o meu cabelo loiro, nem os meus olhos azuis (que não tenho) que o tinha induzido em erro. Pedi-lhe, em inglês, que chamasse alguém que falasse português porque, por muito que domine a língua inglesa, pareceu-me completamente descabido e descontextualizado, que em Portugal tivesse que comunicar noutra língua que não o Português.

 

A situação ficou por ali.

 

Esta triste cena voltou a repetir-se, desde esse momento até hoje, mais umas duas vezes. A última foi ontem, num restaurante “de almoço” na Expo.

 

Não me parece aceitável e, talvez mais do que isso, parece-me altamente desrespeitoso para os portugueses, em geral, e para os lisboetas, em particular, que não se faça um esforço para respeitar a nossa tradição e a nossa história e, bolas, a nossa língua!

 

Aos perdermos as nossas raízes, Lisboa deixará de ser Lisboa. Passará, talvez, a ser parecida com Londres, com Madrid ou com Paris. Mas deixará de ser Lisboa.

 

Por muito que tenhamos hoje um lugar no mapa, não convém esquecer o que nos levou até ele: a nossa individualidade. Só isso. A nossa individualidade!

 

Respeitem isso, por favor.

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