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(in)sensatez

06
Abr18

Instinto Maternal a 12192 metros de altitude.

CD

Provavelmente, o instinto maternal não se manifesta na vontade de ter filhos. Uma amiga minha diz que o instinto maternal expressa-se na forma como cuidamos dos nossos.

 

Eu concordo.

 

Contudo, acho que vai um pouco mais além.

 

Num avião que não estava cheio, eu estava numa das pontas da fileira dos quatro bancos do meio. Ao meu lado, estava o meu casaco. Ao lado do meu casaco estava uma senhora de cabelo grisalho. Ao lado dela, estava o seu marido.

 

A dada altura (a, aproximadamente, 12192 metros de altitude para ser mais precisa), as luzes baixaram (desconfio que os assistentes de bordo – hospedeiros, para os amigos - veem, nesse momento, o seu momento de tranquilidade, a altura em que toda a cabine dorme e que eles podem ir à sua vida ou, talvez, descansar) e começou-me, logo, a dar o sono.

 

Tinha-me esquecido da minha almofada e estava à luta com a mini almofada que nos foi fornecida, num saco, juntamente com uma manta e uns auriculares. No meio do meu mau jeito para me ajeitar, coloquei-a em cima do meu casaco, aquele que estava sentado no banco ao lado do meu, porém, depressa constatei que ficava demasiado baixa para conseguir dormir confortavelmente.

 

A senhora de cabelo grisalho, com quem eu já tinha trocado umas larachas no início da viagem, abre o (seu) saco de onde nascem essas mini almofadas e dá-me a sua, ajudando-me a fazer altura no monte, para que eu me conseguisse deitar, agora composto pelo meu casaco esmigalhado, pela minha almofada e pela almofada da senhora de cabelo grisalho.

 

Ali, naquele monte improvisado, adormeci durante algumas horas, as suficientes para não sentir o voo de longo curso passar e, quando acordei, para além da minha manta que mantinha enrolada no meu tronco, tinha também uma manta amarela que pertencia ao saco, agora vazio, da senhora de cabelo grisalho.

 

Sim, concordo que o instinto maternal vê-se na nossa capacidade em cuidar dos nossos.

 

Mas, há todo um carinho empregue nos outros, naqueles que existem para além do nosso ciclo, que embrulha todo o sentido de cuidar. E isso, bom, isso só está ao alcance de alguns.

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Biografia

Sou autora do livro infantil “Maria Bolinhos – no Reino da Maravilhosa Doçaria Alentejana” e do blog insensatez.blogs.sapo.pt. Escritora compulsiva: a minha vida é absorver tudo aquilo que vejo e tudo o que ouço. Se estão comigo há um certo risco de se tornarem inspiração da minha próxima personagem :) mas, calma!, não fujam já! Dou Workshops de Escrita Criativa a crianças e a adultos - são boas horas que sempre voam embaladas pelo fluir frenético da escrita. Devoro arte, sou constantemente inspirada por ela, nas suas mais diversas formas: livros, pintura, música, cinema, fotografia. Mas, também, jardins, praias, arestas dos prédios recortados da minha Lisboa: inspiro a luz que escorre pelas suas paredes, expiro um texto completo de incertezas. Não passo sem café, sem livros, sem as minhas viagens mas, especialmente, sem o ar livre da minha cidade, a minha maior inspiração. Tenho 32 anos, vivo em Lisboa com o meu marido e com as minhas palavras preferidas.

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