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(in)sensatez

por Catarina Duarte

(in)sensatez

por Catarina Duarte

Seg | 10.07.17

Línguas da sogra.

CD

Não gosto de ver pessoas idosas, com idade para serem meus avós, a pairar pelas ruas, a percorrerem os caixotes de lixo em busca de restos de comida ou beatas perdidas. 

 

Não sei as voltas que a vida me reserva, ninguém sabe os percalços dos trilhos por onde andamos, acho mesmo que não temos tanto poder sobre a nossa vida como aquele que julgamos ter: na verdade, lá vamos fazendo o nosso melhor, desenhando, como sabemos, a nossa sorte, mas há sempre coisas que nos fogem ao controlo. 

 

Não sei como se pautava a vida anterior à vida actual destas pessoas que se passeiam encurvadas nas ruas empedradas de Lisboa, mas assusta-me, pela noção do real, pela noção do efémero, que poderão ser pessoas como eu (como nós) cuja vida orientada se desenhava perfeita e que, por situações que lhes foram totalmente alheias, se viram na situação de repescar restos de comida onde habitualmente colocamos os nossos lixos.

 

Há uns anos, um senhor, com os seus 70 anos, vendia línguas da sogra nos semáforos da Praça de Espanha (creio que também o vi, um par de vezes, na Costa da Caparica). 

 

Não sei o que lhe sucedeu mas, o que é certo, é que nunca mais o vi. 

Ainda hoje não sei se o fazia por necessidade ou para passar as horas mas, o seu olhar cansado e o passo a arrastar, sempre me fizeram tender mais para a primeira opção. 

 

Num certo dia ameno, baixei o vidro e dei-lhe € 2,00. Disse-lhe que não queria as línguas da sogra mas que podia ficar com o dinheiro. 

 

Olhou-me, chocado, indignado até, com a minha postura. Ele tinha razão. Não estava a pedir, mesmo que precisasse de o fazer. Perante o seu olhar ríspido, meti a viola no saco, a língua da sogra sobre meu colo e segui caminho. 

 

Ele tinha razão. Não estava a pedir. 

 

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